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Sete filmes de Natal alternativos

É Natal e época de cinema bem intencionado e xaroposo. Bem, se tem mesmo de ser, alternar entre a mesa e o sofá, então que seja com filmes menos óbvios

Photograph: Courtesy The Nightmare Before Christmas
O Estranho Mundo de Jack

Há filmes de Natal, filmes para o Natal, filmes com o Natal por fundo. Ora, estando os novos nos cinemas e praticamente todos os outros alinhados para as programações televisivas, as alternativas, no entanto, são muitas. E algumas até acrescentam um bocadinho de consciência, para compensar consumismo e comezaina. 

Sete filmes de Natal alternativos

Feliz Natal, Mr. Lawrence (1983)

Pode parecer, mas não é por mau gosto nem provocação (e sim por conta da cronologia) que esta lista começa com a película de Nagisa Oshima, onde David Bowie e Ryuichi Sakamoto, tutelados pela representação de Tom Conti, se encontram em campo de concentração japonês durante a II Guerra Mundial. Em lados opostos da barricada, situação que o realizador utiliza como símbolo da relação de atracção e repulsa entre os dois músicos feitos actores, mas também como exemplo da complexidade da interacção entre seres humanos colocados em circunstâncias excepcionais. Almas mais sensíveis ao espírito da quadra talvez devam ficar-se pela banda sonora de Sakamoto. 

Assalto ao Arranha-Céus (1988)

Pronto, mais uma vez, a cronologia a levar a lista para caminhos pouco frequentados e eventualmente mal-entendidos. Mas, caramba, Assalto ao Arranha-Céus não só é passado no Natal, como está cheiinho do espírito da época através da altruísta batalha de um homem só (Bruce Willis, a tentar reconquistar o amor da esposa, interpretada por Bonnie Bedelia, e de preferência safar o coiro) contra a quadrilha comandada pelo terrível mau da fita (Alan Rickman). É claro que a principal atracção do filme de John McTiernan são as cenas de acção e a maneira como o herói – pouco mais do que MacGyver apanhado desprevenido – se sai delas. 

O Estranho Mundo de Jack (1993)

O realizador é Henry Selick, mas tudo por detrás deste bizarro encantamento natalício tem escrito Tim Burton: o poema original, o universo “subterrâneo”, a fascinação pela luz, a técnica de animação, e a produção, que garante o controlo de tudo. E tudo é muito, nesta fábula musical e encantatoriamente alucinada, onde o aborrecimento e um acidente levam Jack Skellington, da sua original Cidade do Halloween, até à Cidade do Natal. Tão encantado fica, tão obcecado, mesmo, perante a luz e a cor e a alegria e os presentes, que decide usurpar a festa e introduzi-la na sua cinzenta cidade. Infelizmente, Jack não compreendeu bem o conceito de Natal. Porém, a coisa compõe-se. 

Elf - O Falso Duende (2003)

Nas personagens de Will Ferrell existe sempre uma mistura entre vulgaridade (facção bronca), realidade, ingenuidade e (com dificuldade se afirma) ternura, que torna difícil levá-lo a sério. Ora, desta vez, quem duvidava deixou de duvidar pois o actor abandona, ou usa exemplarmente a favor da interpretação, os seus tiques habituais e, mais do que tudo, o ar geralmente boçal. Aqui, nesta farsa bem intencionada de Jon Favreau, Ferrel é um dos elfos do Pai Natal. Um particularmente optimista que, carregadinho de espírito natalício e distribuindo boa vontade, parte numa jornada em busca do seu pai biológico espalhando amor terra afora.

Bad Santa – O Anti-Pai Natal (2003)

Esperar de Billy Bob Thornton um Pai Natal de centro comercial bem-comportado e conformado com o desfile de criancinhas e seus desejos irrealistas, enfim, não cabe na cabeça de ninguém. O que foi provavelmente a principal razão para Terry Zwigoff lhe dar o papel de Willie Stokes, um bandideco de meia tijela, com um golpe engatilhado, e para mais egoísta, bêbado, asneirento… Enfim, é só acrescentar adjectivos relacionados com mau carácter. O realizador não tem qualquer intenção de se encontrar com o espírito do Natal. Dirige uma farsa, e uma farsa sem papas na língua, isto é, um constante e saudável desrespeito pelas convenções. Anda por aí uma sequela – que confirma não haver melhor que o original. 

Kiss Kiss Bang Bang (2005)

Não é lá por ter escrito Arma Mortífera (que, aliás, se passa durante a quadra) e dirigido Homem de Ferro 3 que Shane Black não gosta de introduzir o Natal nas suas histórias por tudo e por nada. E neste Kiss Kiss Bang Bang criou na solarenga Los Angeles decerto o seu mais natalício filme. Em cena nesta comédia negra está o ladrãozeco Harry (Robert Downey Jr.), que, para se safar de um sarilho, se faz passar por actor. No processo lá tem de alinhar com o investigador gay Perry van Shrike (Val Kilmer), e ambos, depois de muita peripécia e ainda mais cómicas contrariedades, acabam por resolver um homicídio misterioso. 

Um Conto de Natal (2008)

Ora aqui está o clássico filme em que argumentista e realizador aproveitam a reunião de uma família para mostrar todas as disfuncionalidades que se escondem por debaixo da hipocrisia das festas obrigatórias. Arnaud Desplechin, seguindo o modelo americano deste subgénero, apesar da falta de originalidade do tema, conseguiu ainda assim apresentar uma obra onde equilibra profundidade de observação numa farsa jovial. Aqui, a acção é desencadeada pelo diagnóstico de leucemia à matriarca da família (Catherine Deneuve) e pela chegada da ovelha tresmalhada (Mathieu Amalric), ausente há anos. Mas é no desenvolvimento do entrecho (e na colaboração inspirada de Jean-Paul Roussillon, Anne Consigny, Melvil Poupaud e Chiara Mastroianni) que está a graça e a habilidade de Desplechin.  

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