Teresa Villaverde: "As pessoas vivem muito afastadas"

Só aparentemente ‘Colo’, de Teresa Villaverde, é um filme sobre a crise que fustigou os portugueses, como ela nos conta
Teresa Villaverde
Por Eurico de Barros |
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Apresentado em competição no Festival de Berlim de 2017, Colo, de Teresa Villaverde, tem a crise como pano de fundo e centra-se numa família de Lisboa. O pai (João Pedro Vaz) ficou desempregado, e começa a quebrar animicamente; a mãe (Beatriz Batarda) é que sustenta a casa com dois empregos que a deixam exausta, e a filha adolescente (Alice Albergaria Borges) sente profundamente o mal-estar que cresce em casa e ameaça dissolver a família. A Time Out falou com a realizadora, que explicou que Colo não se fica por ser um filme sobre a crise que mudou a vida dos portugueses.

 

Colo passa-se durante a crise, mas sentimos que podia existir, enquanto filme sobre uma família em tensão crescente, fora desse contexto temporal e nacional específico. Concorda?

Sim, podia. Quando falamos desse período a que se chamou crise, devíamos talvez falar de algo mais geral, mais abrangente, do que o mero aspecto económico. Pergunto-me se a reacção que estamos a ter agora, quando parece que, como por milagre, a crise desapareceu, e que está a ser exagerada, também não foi exagerada ao que se chamou crise. Será que esse choque foi tão grande porque nós já vínhamos doutras crises, e apareceu mais outra? Por isso é que acho que este filme é tão actual hoje como seria há três anos, e continuará a ser para o futuro. Temos que reflectir sobre o que aconteceu. Se aparecer uma coisa parecida daqui a alguns anos, será que estamos emocionalmente preparados para a enfrentar?

Quase todos os seus filmes têm que ver com a família, que está de novo no centro deste, e neles costuma haver adolescentes em situações difíceis. Colo é uma reiteração desses temas?

Sim, talvez. Mas não tenho um plano, devem ser as coisas que me tocam mais, embora em Colo haja uma coisa que me agrada muito. É o primeiro filme em que a personagem central é um homem: o pai. Isso nunca tinha acontecido antes, são sempre mulheres ou raparigas. É engraçado, porque já tinha tentado antes e não conseguia escrever uma personagem masculina. E desta vez, penso que consegui.

É difícil identificar a zona de Lisboa em que o filme foi feito. Quis deixar deliberadamente pouco clara a localização da história?

Nós filmámos nos Olivais. Isso foi pensado, porque eu precisava de dar o isolamento deles, a bem da economia narrativa do filme. Podia tê-los mostrado sozinhos no meio de muita gente, mas acho que o cinema não funciona assim. Para se dar essa ideia,  o  filme tinha que ser muito mais longo. A imagem acompanha o isolamento interior das personagens e aquele bairro é um pouco despido. Os apartamentos são bons, só que parece quase outro mundo. Mas é Lisboa.

Além desse isolamento em relação ao exterior, há também uma sensação de isolamento interior neles. Apesar de viverem no mesmo apartamento, estão cada vez menos juntos.

Isso tem muito a ver com o facto de as famílias viverem hoje um bocado assim. As pessoas vivem na mesma casa, e as casas tendem a ser cada vez mais pequenas. As pessoas estão fisicamente ao lado umas das outras, por vezes há mesmo uma sensação de promiscuidade, mas ao mesmo tempo há um afastamento. Não falam daquilo que realmente importa. Quando a filha passa uma noite fora e vai parar a lugares com campo e rio, os pais só vão saber disso porque encontram os vestígios de lama no quarto.

Sente-se como que uma relutância da parte da câmara em filmar aquela família. Como se fosse uma pessoa que a conhece mas que não quer intrometer-se na sua intimidade. Foi essa sensação que quis transmitir?

Sim, eu acho que a câmara está ali numa posição de observador, mas um observador púdico. Senti isso enquanto estava a filmar. A casa era muito importante e eu tinha que dar espaço, eles tinham que estar na casa. E se eu fosse lá muito perto, perdia-se isso, tal como a ideia de tempo, e de tempo vazio. E no cinema, muitas vezes, para se dar o tempo, também tem que se dar espaço.

Filmou em película ou em digital?

Em digital, pela primeira vez. E por razões meramente práticas. Hoje em dia, praticamente nenhum cinema tem projecção em 35 mm. Laboratórios, já não há quase em lado nenhum, tinha que mandar o filme para Bucareste. Era demasiado complicado. Mas pensei que ia sofrer mais do que sofri. Custou-me antes de começar, mas depois esqueci-me porque estava a fazer o mesmo trabalho, a dirigir, e o trabalho era igual para toda a equipa.

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