Teresa Villaverde, ou o que ela andou para aqui chegar

Entre os festivais de Berlim e de Cannes, "Colo", de Teresa Villaverde, venceu, no domingo, em Paris, o 13.º Festival L'Europe Autour de l'Europe ao receber o Prémio Sauvage. Pretexto para rever a carreira da realizadora nos seus sete filmes.
Teresa Villaverde
Por Rui Monteiro |
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Foi actriz, cenógrafa, argumentista, assistente de realização e de montagem. Mas realizar era a sua vontade. Vontade que começou a cumprir em 1991, e que, até agora, se pode ver em sete ficções e uns documentários. Mais do que uma vez premiada, presença constante nos mais importantes festivais, o seu reconhecimento não pára de crescer.

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Teresa Villaverde, ou o que ela andou para aqui chegar

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A Idade Maior (1991)

A Guerra Colonial é, ainda, um dos temas menos tratados pelo cinema português. Em 1991, então, mal se falava nisso, como se um trauma colectivo tivesse provocado uma espécie de amnésia selectiva.

No entanto foi por aqui que Teresa Villaverde resolveu começar, reconstituindo, com Joaquim de Almeida, Teresa Roby e Ricardo Colares no elenco, o Portugal opressivo do início da década de 1970, através da história de uma criança a quem os pais desapareceram em África.

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Três Irmãos (1994)

Ao segundo filme, a realizadora transporta a sua nova ficção para a actualidade de Lisboa no tempo das vacas gordas, proporcionando a Maria de Medeiros uma representação tão vívida e empenhada que a actriz recebeu o respectivo prémio no Festival de Veneza.

No argumento, também assinado por Villaverde, a rapariga e os seus dois irmãos (Marcello Urgeghe e Evgeniy Sidikhin) vivem uma vida despreocupada e aparentemente feliz, até ao dia em que a idade e as circunstâncias os separam. Mas só até Maria (que sempre mostrara uma certa inclinação pelo suicídio) precisar de ajuda – embora talvez um pouco tarde nesta história de redenção.

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Os Mutantes (1998)

Sete anos depois da estreia, Teresa Villaverde vê confirmada a projecção internacional que a sua curta obra ia discretamente ganhando. Os Mutantes, história de três jovens que vivem na rua, voluntariamente, como alternativa aos ambientes familiares disfuncionais onde cresceram, foi apresentado no Festival de Cannes e, no Festival de Roma, premiado com o Prémio das Nações Unidas. Em Portugal ainda foi Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz (Ana Moreira) e Melhor Actor (Alexandre Pinto) nos Globos de Ouro.

Apesar de não existir propriamente uma narrativa, o enredo conta a história de Andreia (Ana Moreira), Pedro (Alexandre Pinto) e Ricardo (Nelson Varela), os tais jovens que não aceitam as coisas como elas são e não encaixam em lado nenhum. Também não se rendem e estão sempre em busca de algo, alguma coisa dentro deles prestes a explodir. Um desejo de mudar as coisas. O problema é como, quando vivem em constante vertigem, recusando o lugar que lhes foi imposto antes de serem capazes de escolher.

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Água e Sal (2001)

Este é, talvez, o filme mais autobiográfico da carreira da realizadora. Obra esteticamente dominada pelo mar e a sua energia em contraste com os sentimentos das personagens, que, embora nomeada para o Leão de Ouro, no Festival de Veneza, é geralmente menos referida, quando não considerada “menor” na filmografia da cineasta.

Com Ana Moreira, Chico Buarque, Joaquim de Almeida e, entre outros, Galatea Ranzi, a película conta a história de Ana, que vive numa pequena aldeia junto ao mar, com o marido e a filha. Em grande equilíbrio sentimental, quebrado quando o marido se ausenta, Ana salva um desconhecido de morrer no mar, conhece Alexandre e Emília e, para compor o ramalhete, a sua amiga Vera aparece de visita. Então, tudo muda.

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Transe (2006)  

Na sua quinta longa-metragem Teresa Villaverde usa a história de Sónia, rapariga de vinte e poucos anos que abandona namorado e família em São Petersburgo, na Rússia, e decide partir sem olhar para trás, acabando por vir parar a Portugal, para traçar um retrato da imigração ilegal e do tráfico de mulheres.

Como é seu hábito, a realizadora aborda o tema de maneira densa, percorrendo o caminho da protagonista como uma via-sacra através do continente, com paragens na Alemanha e em Itália tornadas numa espécie de estações da cruz. Sónia (Ana Moreira num elenco com Viktor Rakov, Robinson Stévenin, Iaia Forte e Andrey Chadov) vai conhecer, numa lenta e eficaz sucessão de planos-sequência, a miséria e a degradação.

Para os espectadores fica a notícia de uma Europa que preferiam não conhecer, através da vida de uma jovem sensível que, para viver, depois de partir em busca de um sonho, se prostitui.

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Cisne (2011)

Beatriz Batarda é Vera, mulher a puxar os trinta, cantora de regresso a Lisboa para o último concerto de uma digressão, com o hábito de seleccionar companhia para as noites de insónia através de questionários.

E com este argumento, digamos, algo esquinado, mais a colaboração de Miguel Nunes e dos músicos Chico Buarque, Ana Moura e Carlos Bica, a realizadora aproveita as contradições da alma da cantora para explorar de maneira particularmente íntima os segredos e as falácias do amor e da justiça.

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Colo (2017)

Chegados a Colo, agora premiado em Paris, estreado no Festival de Berlim e pronto para visionamento em Cannes, encontra-se, segundo o crítico Eurico de Barros aqui, “o último dos filmes portugueses a estrear-se sobre a crise.”

Porém, a realizadora, acrescenta, “usa a crise económica que afectou os portugueses como pretexto para mostrar a crise da família no nosso tempo”, assim acentuando “o crescente distanciamento, a falta de comunicação, o isolamento interior e a alienação emocional entre pai (João Pedro Vaz), mãe (Beatriz Batarda) e filha adolescente (Alice Albergaria), filmados num apartamento de um bairro indistinto de Lisboa, com austeridade sombria e uma câmara que é como uma testemunha pudica e relutante dos acontecimentos.”

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