Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Susana Menezes: “É muito mais difícil trabalhar para crianças”

Susana Menezes: “É muito mais difícil trabalhar para crianças”

A directora artística do LU.CA tem um sorriso permanente e muitas razões para estar contente: a celebrar o primeiro aniversário, o pequeno teatro da Ajuda está a crescer, a crescer e a crescer.

Susana Menezes
Duarte Drago Susana Menezes, directora do LU.CA
Publicidade

O LU.CA é o único teatro do país para crianças e jovens. Celebra um ano a 1 de Junho, Dia Mundial da Criança. Susana Menezes, que dirigia o serviço educativo do Maria Matos, assumiu-lhe as rédeas desde início, orientando o edifício e a programação para os mais novos. Uma tarefa de “grande responsabilidade”, incluindo para pais, vizinhos e artistas. O fundamental é ajustar formatos e conteúdos a cada idade.

Qual é o balanço que faz deste primeiro ano?
Positivo. Temos tido boa receptividade. Muitas das pessoas que iam aos espectáculos para crianças e jovens do Maria Matos vieram connosco. Muitas outras foram se aproximando porque este é o único equipamento com estas características em Lisboa.

E no país.
Se calhar também porque tinham curiosidade em redescobrir este espaço, que esteve entregue a uma associação recreativa durante aproximadamente 100 anos. E depois, imagino eu, na cabeça de muita gente um espaço dedicado em exclusivo à programação para crianças pressupõe um sítio onde toda a gente desenvolve esforços para que as crianças tenham uma boa relação com a cultura.

No Maria Matos, os adultos poderiam pensar que as crianças estavam num espaço emprestado?
Não sei. Aquilo que fizemos no Maria Matos era o que era possível. Aqui temos outras condições. Resumindo: estamos muito contentes. Sabemos que, como as crianças, estamos a crescer – e que o próximo ano será ainda melhor. Vamos continuar com a maturidade própria de quem tem dois anos.

Uma frase apropriada no contexto.
É como quando mudamos de casa: chegamos, conhecemos o espaço, desempacotamos malas e caixas, e vamos conhecendo o que está à volta. E este balanço é positivo do ponto de vista do público, mas também porque os artistas têm sido grandes aliados e os nossos vizinhos nos têm acolhido com muita simpatia.

O LU.CA está muito próximo de Belém, mas fica na Ajuda, uma zona quase esquecida e sem salas deste género. Como foram recebidos?
Há um tipo de projectos que tem uma enorme aceitação pela comunidade local, como as sessões de cinema. Precisamente porque é um formato que não existe aqui. Tem sido surpreendente. As escolas da Ajuda também têm uma relação muito, muito próxima com o LU.CA. E a Junta tem-nos acolhido muito bem.

Como é que a articulação com as escolas é feita?
Temos uma pessoa que está só a trabalhar a área das escolas.

É mais difícil programar para crianças do que para adultos?
É muito mais difícil trabalhar para crianças. Faço-o desde 2001 e ainda não mudei de ideias. Quando apresentamos uma proposta artística dirigida às crianças, temos uma grande responsabilidade. Desde logo, porque nem sempre são elas a escolher se vêm ou não. Estão sentadas a receber o que lhes é dado e que elas estão a admitir como uma realidade. Elas tomam aquilo como qualquer coisa para as suas vidas. Por isso é que decidimos que há filmes, livros, espectáculos que não apresentamos aos meninos, porque sentimos que não reúnem condições de serementendidos por uma criança com determinado nível de desenvolvimento.

O que inclui obras que, em princípio, são para crianças.
Há coisas que não são para crianças. Ainda não conhecem suficiente do mundo, nem têm maturidade emocional, para conseguir admitir aquilo, digerir e colocar aquelas questões nos sítios certos. E se não têm ferramentas para as resolver, ficam com um problema para si próprias: o que é que aconteceu ali? Nas histórias para as crianças, lançamos um problema: era uma vez uma menina que ia a passear no bosque e perdeu o lencinho. Como é que o vamos resolver? Há uma série de processos, que normalmente põem à prova a capacidade desta menina (ser destemida, não desistir), ou que a levam a reunir-se com amigos (a activar relações), para resolver o problema. No fim, sai vitoriosa e a sua vida continua. Se interrompermos a história a meio, estamos a passar para as crianças um problema. Então, e esta menina? Naquele momento, colocam-se no lugar dela.

É o que fazemos com a arte no geral.
Sim, mas nós temos outro tipo de ferramentas. Se não resolvermos isso, vamos para casa pensar e isso pode ser um divertimento. Mas as crianças têm de fechar este assunto. No fim, o espectáculo tem de ser reconfortante. Têm que ir para casa descansadas. Tiveram um bom momento de relação com a obra, que as convocou para dentro dela, que as prendeu, e no fim acaba e as crianças voltam outra vez aos seus lugares.

A grande diferença entre uma obra para crianças e outra para adultos é que a primeira tem de apresentar uma solução e de devolver o espectador a um lugar de conforto?
Não, não. Tem de ter um conteúdo e um formato ajustados a cada faixa etária. Por isso é que não contamos todas as histórias às crianças. Ou contamos até certa altura. E à medida que eles vão crescendo, vamos contando mais. Porque sentimos que estão preparadas para compreender.

As crianças são um público bastante franco. Já tiveram pateadas?
Não, mas tivemos um momento muito engraçado. Num espectáculo em que uma personagem estava a cometer uma injustiça, uma criança disse: “Ele está a ser injusto!” E começaram todos [ao mesmo tempo]: “Ele está a ser injusto! Ele está a ser injusto!” Não foi textualmente assim, mas isto só acontece se nos envolvermos.

Qual tem sido a reacção dos adultos?
Hoje recebemos uma carta de uma senhora que dizia ter ficado em cuidados porque tínhamos posto uma peça no Entrepiso [“Fragmentos da Instalação Uma Cidade das Crianças”, Oupas! Design], e que se podia estragar. É muito estimulante porque quer dizer que as pessoas estão enturmadas, que se preocupam. Foi uma mudança muito grande de um sítio para o outro e estávamos na expectativa, claro.

O Maria Matos distinguia-se de todos os outros teatros. Qual é a identidade que estão a criar para o LU.CA?
É um teatro em que todos os adultos têm responsabilidade. Quando se faz um teatro para crianças, faz-se um teatro com a ajuda de todos. Há muitos adultos e artistas que têm coisas para dizer às crianças. Queremos resgatar a contemporaneidade das propostas apresentadas em muitos teatros de Lisboa e termos os mesmos artistas a apresentar projectos para as crianças.

O desafio de dirigir um equipamento autónomo está só na programação?
É um programa e é um edifício. O que queremos é que o LU.CA seja um sítio aonde os pais vêm com as crianças e encontram não só um programa regular, mas também relações de mediação e aproximação aos espectáculos – com livros escolhidos pelos artistas ou, a partir de 1 de Junho, com três pontos de escuta em que os meninos podem ouvir recados dos artistas, bandas sonoras, partes dos textos, ou alguma explicação em detalhe. Devagarinho, vamos construir um discurso mais conhecedor já nas crianças.

Como vai ser a festa de aniversário? Ouvi dizer que há bolo.
Todas as festas de aniversário têm de ter um bolo! Vai ser um programa de três dias. Vamos esticar-nos até ao passeio e instalar-nos um pouco aqui fora. Vamos ter na sala principal o Smashed, dos Gandini Juggling. É um espectáculo de circo contemporâneo que consegue criar várias camadas de entendimento e chegar a adultos e crianças. Portanto, pode ser uma tarde divertida para todos.

No dia de abertura, no ano passado, as pessoas estavam entusiasmadas com o que se ia passando na rua. Foi por isso que voltaram a sair?
Não tínhamos espaço suficiente cá dentro. Achamos que seria boa ideia esticarmo-nos até ao passeio. Gostaríamos de ter uma zona chill out, para as pessoas poderem ficar e saborear o bolo e os refrescos. Achámos que seria giro também ter actividades ali para os meninos poderem estar na rua, porque no Verão gostamos todos um bocadinho mais de estar lá fora.

Mais ideias para o Dia da Criança

Publicidade
Publicidade