10 acordeonistas jazz que precisa de ouvir

O prodigioso acordeonista Richard Galliano actua no Palácio Nacional de Queluz no dia 26 de Maio. É ocasião para chamar a atenção para outros mestres de um instrumento que levou algum tempo até se afirmar plenamente no meio jazzístico
Richard Galliano
©Vincent Catala
Por José Carlos Fernandes |
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O acordeão surgiu na Alemanha e na Rússia na década de 1820 e rapidamente se implantou na música popular de toda a Europa. A sua infiltração no mundo do jazz foi bem mais lenta e penosa. Art Van Damme (1920-2010) gravou regularmente para a Columbia nas décadas de 1950 e 1960, Tommy Gumina (1931-2013) colaborou com Harry James e Buddy DeFranco, e Angelo DiPippo (n. 1935) formou um quarteto com Sam Most, Tommy Potter e Joe Benjamin que na década de 60 tocou nos clubes Birdland e Café Bohemia e no Festival de Jazz de Newport. Mas, durante muito tempo, o acordeão em contexto jazz continuou a ser encarado como uma curiosidade. Também é verdade que, durante muitos anos o acordeão desenvolveu uma cultura própria, orientada para um virtuosismo mecânico e frio, fomentado pela obsessão com campeonatos regionais, nacionais e mundiais (como se tratasse de uma modalidade desportiva). Foi preciso tempo para que alguns acordeonistas percebessem que este frenesim competitivo era estéril e autista. E foi então que o acordeão começou a desabrochar...

No âmbito do Festival de Música de Sintra, Richard Galliano actua, acompanhado por um trio formado por Betrand Cervera (violino), Jean-Paul Minali-Bella (violoncelo) e Sylvain Le Provost (contrabaixo), no Palácio Nacional de Queluz, sexta-feira 26 de Maio, 21.30, 15€.

10 acordeonistas jazz que precisa de ouvir

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Richard Galliano (n. 1950, França)

Guiado pelo pai, Luciano, que era acordeonista, iniciou-se no instrumento aos quatro anos e quando adolescente ficou fascinado com o trompetista Clifford Brown. Também andou no circuito competitivo – obteve primeiros prémios nos Campeonatos do Mundo de Valencia, em 1966, e de Calais, em 1967 – mas acabaria por trocar a prestidigitação pela música. Estabeleceu duos com o clarinetista Michel Portal – de que resultou o belíssimo álbum Blow Up (1997) –, com o organista Eddie Louiss e o contrabaixista Ron Carter; formou um “trio europeu” com o contrabaixista Jean-François Jenny-Clark e o baterista Daniel Humair, um “trio nova-iorquino” com o contrabaixista Larry Grenadier e o baterista Clarence Penn, e um “trio mediterrânico” (Mare Nostrum), com Paolo Fresu e Jan Lundgren; gravou com Gonzalo Rubalcaba, Charlie Haden e Gary Burton; associou-se à Orchestra della Toscana; homenageou Astor Piazzolla em Piazzolla Forever (2003); reinterpretou Bach, Mozart e Tchaikovsky; e misturou valse musette, tango, flamenco e swing até estas classificações deixarem de fazer sentido.

[“French Touch”, uma das mais belas composições de Galliano, por um quarteto com o guitarrista português Joel Xavier, Jean-Philippe Viret (contrabaixo) e Jean-Luc Danna (bateria), ao vivo no Chivas Jazz Festival, São Paulo, 2014]
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Guy Klucevsek (n. 1947, EUA)

Colaborou com Laurie Anderson, John Zorn, Anthony Braxton, Fred Frith e Bill Frisell, fez parte do trio Charms of the Nightsky, de Dave Douglas, gravou dois álbuns em duo com o pianista Alan Berne (Accordance e Notefalls), outro em duo com o saxofonista Phillip Johnston (Tales from the Cryptic), mais dois à frente da Bantam Orchestra e outros dois com a Ain’t Nothin’ But A Polka Band e foi co-fundador do quinteto de acordeões Accordion Tribe. Nos seus álbuns têm participado músicos como Tom Cora, Erik Friedlander, Bobby Previte ou John Hollenbeck. Tem numerosos discos de acordeão solo, como The Well-Tampered Accordeon e The Heart of the Andes (onde composições de Dave Douglas e Shostakovich se misturam com material de sua autoria). Na sua música cruzam-se a sala de concertos, o clube de jazz, o salão de baile popular e a cervejaria. O seu projecto mais recente, que estreou no início de Maio em Brooklyn, é a Bellows Brigade (“Brigada dos Foles”), um quarteto de acordeões com Will Holshouser (ver abaixo), Nathan Koci e Kamala Sankaram.

[“The Asphalt Orchid”, uma homenagem a Astor Piazzolla, com Todd Reynolds (violino), no concerto de lançamento do álbum Teetering on the Verge of Normalcy (2016, Starkland)]
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Jean-Louis Matinier (n. 1963, França)

É cúmplice recorrente do contrabaixista Renaud García-Fons – há um magnífico álbum em duo, Fuera (2009) – e colaborou com Michael Riessler, Louis Sclavis, François Couturier (num projecto inspirado pelos filmes de Tarkovsky), Gianluigi Trovesi e Anouhar Brahem (Le Pas du Chat Noir e Le Voyage de Sahar) e gravou um curiosíssimo disco (Inventio) em duo com o tocador de nyckelharpa Marco Ambrosini.

[“Nachttraum”, ao vivo com Edgar Knecht (piano), Rolf Denecke (contrabaixo) e Tobias Schulte (bateria, percussão), no Staatstheater de Kassel, Alemanha, 08.01.15]
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Klaus Paier (n. 1966, Áustria)

Possui apreciável discografia, a solo, em trio com contrabaixo e bateria e com o Radio String Quartet de Viena (Radiotree, que reinventa de forma genial composições de Joe Zawinul) e lançou três discos (À Deux, Silk Road e Timeless Suite) em duo com Asja Valcic, violoncelista do mencionado quarteto de cordas. Na sua música, Astor Piazzolla convive jovialmente com Bach e Stravinsky.

[“Tango Loco”, por Paier & Valcic, no Festival de Jazz de Zagreb, 2009]
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Will Holshouser (EUA)

Desdobra-se pelos mais diversos projectos musicais, do jazz (tem colaborado com David Krakauer, Regina Carter e Han Bennink) ao pop-rock (Antony and The Johnsons, Loudon Wainwright III), passando pelo cajun. Mantém desde 1998 um trio com o trompetista Ron Horton e o contrabaixista David Phillips, que gravou três álbuns para a Clean Feed (Reed Song, Singing to a Bee e Palace Ghosts and Drunken Songs), o último deles expandido a quarteto pela adição de Bernardo Sassetti. No trio Musette Explosion, com o tubista Marcus Rojas e o guitarrista Matt Munisteri, oferece uma perspectiva nova-iorquina da valse musette parisense.

[Os Musette Explosion, no clube Barbes, Brooklyn, 2010]
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Andrea Parkins (EUA)

Parkins é uma excepção nesta lista por várias razões: é a única representante do sexo feminino, recorre intensivamente a electrónica e samples (desdobra-se pelo acordeão e por teclados) e o seu estilo não bebe nas fontes da musette, tango, klezmer, cajun ou outras músicas populares. Faz parte dos grupos These Arches, do baterista Ches Smith, e do Min-Yoh Ensemble, da pianista Satoko Fujii, mantém trios com Nels Cline & Tom Rainey e com Laurent Bruttin & Dragos Tara e o duo Skein, com a cantora Jessica Constable. Uma das suas associações mais duradouras foi o trio com o saxofonista Ellery Eskelin e o baterista Jim Black, com o qual gravou oito álbuns.

[Ao vivo com Ellery Eskelin e Jim Black, no festival Muzyka z Mózgu, 2007]
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Luciano Biondini (n. 1971, Itália)

Tem sido colaborador regular do alaúdista libanês Rabih Abou-Khalil, participando nos álbuns Morton’s Foot (2003), Em Português (2007) e Hungry People (2011) e formou um trio com Michel Godard (tuba) e Lucas Niggli (bateria), que gravou What Is There What Is Not (2010) e Mavi (2013). Mantém duos com o clarinetista Gabriele Mirabassi, a pianista Rita Marcotulli e o saxofonista Javier Girotto. Em acordeão solo gravou os álbuns Senza Fine e Prima del Cuore.

[No trio de Rabih Abou-Khalil, com Jarrod Cagwin (bateria), ao vivo no festival Like a Jazz Machine, no centro cultural Opderschmelz, em Dudelange, Luxemburgo, 15.05.2015]
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Ted Reichman (n. 1973, EUA)

Estudou com o saxofonista Anthony Braxton, que foi quem o “empurrou” para o acordeão – até agora participou em oito discos de Braxton (incluindo um registo em duo, ao vivo em Leipzig, em 1993). O seu leque de colaborações estende-se da vanguarda jazz – Chris Speed, Ben Perowsky, Marc Ribot, Anthony Coleman – à “nova vaga” do klezmer – David Krakauer – e ao pop-rock – Elysian Fields, Paul Simon – mas o seu vínculo mais duradouro tem sido com o Claudia Quintet de John Hollenbeck, que já leva 15 anos de existência. Tem dois discos em nome próprio, Emigre (Tzadik) e My Ears Are Bent (Skirl).

[“Arabic”, pelo Claudia Quintet, com Reichman, Chris Speed (clarinete), Matt Moran (vibrafone), Drew Gress (contrabaixo) e John Hollenbeck (bateria), ao vivo na Jazz Baltica 2009]
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Vincent Peirani (n. 1980, França)

O duo é o seu formato favorito e tem no curriculum parcerias com o saxofonista Vincent Lê Quang (Gunung Sebatu, 2009), o violoncelista François Salque (Est, 2011), o saxofonista Emile Parisien (Belle Époque, 2014) e o pianista Michael Wollny (Tandem, 2016). Em trio registou Tanguillo (com Salque e Tomas Gubitsch) e Thrill Box (com Wollny e Michel Benita). A sua música combina musette, canção francesa, tango, jazz clássico, tradições balcânicas e orientais e música erudita.

[Com Michael Wollny, ao vivo na ECHO Deutscher Musikpreis, 2015]
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João Barradas (n. 1992, Portugal)

É, por larga margem, o mais jovem desta lista, mas já tem provas dadas. Começou a tocar aos seis anos e aos onze começou a coleccionar primeiros prémios em competições internacionais de acordeão. Estreou-se em disco aos 19 anos, com Surrealistic Discussion, em duo com o tubista Sérgio Carolino e não tardou a chamar a atenção do saxofonista Greg Osby, que o convidou a gravar para a sua editora, Inner Circle – o disco de estreia, Directions (2015), contou com a produção e participação de Osby. Além do projecto Directions e de um trio, lidera também o sexteto Home, que foi o grupo vencedor do Prémio Jovens Músicos na categoria jazz.

[“Directions”, uma composição de João Barradas, com Greg Osby, André Fernandes (guitarra), André Rosinha (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria), o elenco que registou o disco homónimo]

Jazz para todos

Chet Baker & Gerry Mulligan Los Angeles 1952
©William Claxton
Música, Jazz

Sete clássicos do cool jazz

Haverá música mais “hot” do que o jazz? Por oposição à música clássica, em que a partitura foi maduramente reflectida e se espera que o intérprete a siga escrupulosamente, o jazz é o reino das reacções instantâneas e espontâneas, sem tempo para reflexão, da entrega total dos músicos, dos solos abrasadores, da sinergia emocional entre os membros da banda que pode chegar ao paroxismo. O termo “hot jazz” foi sinónimo do jazz tradicional nascido em New Orleans, e quando, em 1931, um grupo de aficionados parisienses daquela música proveniente do outro lado do Atlântico decidiu formar um clube para a promover, escolheu chamar-se Hot Club de France. Quando, em 1950, um grupo de lisboetas entusiastas da “música hot” formalizou um clube com o mesmo fito, não teve de discutir muito para a baptizar como Hot Clube de Portugal. Mas nada no mundo é a preto e branco e, no final dos anos 40, houve músicos que descobriram que se se baixasse a temperatura do jazz este ganhava novas propriedades. E o jazz assumiu tempos mais lentos, opôs a descontracção e o distanciamento à tensão e frenesi do bebop, ganhou arranjos elaborados por influência da música clássica (que depois levariam à chamada Third Stream) e privilegiou a elegância e a contenção. Aviso: não vai ouvir nada disto no festival EDP cool jazz.

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Hot Club Portugal - Banda
©DR
Bares

Os oito melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa

Encaremos isto como uma espécie de jukebox, mas em vez de chegarmos a um bar e metermos uma moeda no disco que queremos pomos antes uma moeda no bar que queremos, pedimos uma bebida e esperamos que a nossa aposta corra bem ao nível da escolha musical. Isto partindo do pressuposto que não vamos às cegas, que sabemos o que queremos a invadir-nos os tímpanos e que, por muito que não seja a música que queríamos naquela altura, não andará longe. Os bares de jazz ocupam esse lugar, querer Chet Baker e levar com Miles Davis, querer Duke Ellington e levar com Coltrane. Nada mau. Assim se espera nestes que são os melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa. 

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