10 obras clássicas para o Outono

Para os poetas e para os compositores, o fim do Verão não é apenas uma data no calendário astronómico – é uma metáfora para o fim do amor e da vida. É por isso que, a partir do século XIX, as composições de inspiração outonal tendem a ser tão desoladas
Outono
©Crisferrari1500
Por José Carlos Fernandes |
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10 obras clássicas para o Outono

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October, de The Monthes, de Simpson

A Inglaterra dos séculos XVI e XVII conheceu um luxuriante florescimento da literatura para ensemble de violas da gamba. O gambista Christopher Simpson (c.1602/6-1669), embora não esteja entre os mais famosos, merece ser destacado por nos ter deixado duas colecções de Fantasias para viola soprano, duas violas baixo e baixo contínuo, com os títulos The Monthes e The Seasons, que evocam, de forma subjectiva e sem “ganchos” programáticos, as várias épocas do ano.

[Pelo ensemble Sonnerie]
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Concerto para violino RV Outono RV 293, de As Quatro Estações, de Vivaldi

As Quatro Estações são a parte mais famosa da colecção de 12 concertos para violino Il Cimento dell’Armonia e de l’Inventione (O Certame da Harmonia e da Invenção), publicada em 1725, e constituem um exemplo pioneiro de música programática, em que os sons abstractos pretendem ilustrar eventos concretos.

Vivaldi fez acompanhar cada concerto de As Quatro Estações com um soneto que lhes serve de programa e que, embora sendo de escasso interesse literário, fornece uma chave para perceber que cenas e situações pretendeu o compositor representar pela música. Reza assim o do Outono:

Allegro: “Celebram os camponeses com danças e cantos/ A alegria de ter obtido uma rica colheita/ E aquecidos pelo licor de Baco/ Muitos acabam os festejos caindo no sono”

Adagio molto: “Faz cada um por esquecer afãs com cantos e danças/ O ar temperado é agradável/ E convida muitos a entregar-se a um dulcíssimo sono”

Allegro: “Com a madrugada ergue-se o caçador/ E com trompas, escopetas e cães parte/ No encalço da presa que foge/ Aterrada e exausta pelo grande tumulto/ Das armas e cães e ferida tenta ainda escapar/ Mas é encurralada e morre”

[Por Fabio Biondi (violino e direcção) e Europa Galante]

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Outono, de As Estações, de Haydn

A oratória As Estações (Die Jahreszeiten), estreou em Viena em 1801, primeiro num espectáculo privado para os aristocratas que tinham contribuído para a sua composição (a 24 de Abril) e depois num espectáculo público (a 19 de Maio).

A ênfase do libreto, confeccionado pelo Barão Gottfried van Swieten a partir de um longo poema publicado em 1730 pelo escocês James Thomson, está menos na celebração da natureza em si mesma e mais na representação das relações do homem com um mundo natural em que é omnipresente a presença de Deus.

No início do Outono, após um recitativo que celebra a exuberância das colheitas e a prodigalidade na Natureza, o trio “So Lohnet die Natur den Fleiss” comporta uma “lição de moral”: a prosperidade só pode ser alcançada com trabalho árduo.

“Assim recompensa a natureza os que trabalham/ Chama-os, sorri-lhes/ Encoraja-os, incute-lhes esperança/ De bom grado os ajuda/ Apoia-os com todas as suas forças// Só o trabalho árduo propicia bençãos/ A cabana que nos abriga/ A lã que nos mantém quentes/ O alimento que nos dá força/ São a tua dádiva, o teu quinhão”.

[Trio com coro “So Lohnet die Natur den Fleiss” (até 5’33), por Tünde Sazabóki (Hanne), Timothy Bentch (Lukas), István Kovács (Simon), Purcell Choir & Orfeo Orchestra, com direcção de György Vashegyi)]
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Outono D945, de Schubert

Não podia ser mais diversa a perspectiva da canção Outono (Herbst), sobre poema de Ludwig Rellstab (1799-1860). Estamos em Abril de 1828 e Schubert a quem restam sete meses de vida, oferece uma visão do Outono que é afim do ciclo de canções Viagem de Inverno, que compusera no final do ano anterior. “Murmura o vento, outonal e frio, desolando o vale e desnudando o bosque. Ah, prados floridos, ensolarados e verdes! Agora neles definham os botões da vida que passou. Apressam-se as nuvens, tão sombrias e cinzentas, desvanecem-se as estrelas no azul celeste [...] Assim morrem as rosas do amor que passou”.

[Por Dietrich Fischer-Dieskau (barítono) e Gerald Moore (piano)]
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Setembro de O Ano, de Fanny Mendelssohn

Fanny Mendelssohn (1805-1847) é bem menos famosa do que o seu irmão mais novo, Felix, e das 460 peças que compôs, a maior parte para piano, o seu instrumento, poucas são as que têm alguma visibilidade. Ainda assim, a suíte para piano em 12 partes O Ano (Das Jahr), de 1841, é das que surge mais frequentemente em programas de recitais. Em Setembro, Fanny Mendelssohn escolheu situar-se “Junto ao Rio” e faz o piano emular a agitação incessante das águas.

[Por Riccardo Bovino, num piano histórico construído por Sébastien Érard em 1852; registo na Wildt’sches Haus, Basileia, 2015]
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Outono, de As Estações, de Glazunov

O bailado As Estações, de Aleksandr Glazunov, estreou em 1900, no Teatro Imperial do Hermitage, em São Petersburgo, e teve coreografia de Maurice Petipa. Glazunov revela um entendimento festivo e ruidoso do Outono, mas entre a “Bacanal” de abertura e a “Apoteose” de fecho, há um breve, sereno e melancólico Adagio que está entre o melhor que o compositor escreveu.

[Adagio]
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O Solitário no Outono, de A Canção da Terra, de Mahler

O Solitário no Outono (Der Einsame im Herbst) é o II andamento de A Canção da Terra (Das Lied von der Erde), que Gustav Mahler compôs em 1908, sobre textos de diversos poetas chineses, em tradução livre para o alemão de Hans Bethge.

Mahler, que sofrera no ano anterior três rudes golpes – a morte da filha mais velha, o despedimento do cargo de director da Ópera de Viena e a revelação de que sofria de um doença cardíaca incurável –, deve ter sentido afinidade para as tonalidades crepusculares do poema O Solitário no Outono, de Chang Tsi: “As azuladas névoas outonais ondulam sobre o mar/ Cada folha de erva está coberta de geada/ E é como se um artista tivesse polvilhado pó de jade sobre os delicados botões/ A doce fragrância das flores desvaneceu-se/ Um vento frio dobra os seus caules/ Não tardará que as pétalas douradas das flores de lótus/ Sejam espalhadas sobre as águas/ O meu coração está cansado, a minha pequena candeia/ extinguiu-se com um estalido”.

[Christa Ludwig (contralto) e Orquestra Filarmónica de Israel, dirigida por Leonard Bernstein]
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November Woods, de Bax

Arnold Bax (1883-1953) faz parte de um grupo de compositores do século XX que é muito popular nas Ilhas Britânicas e raramente ouvido fora delas. A sua produção de música orquestral inclui sete sinfonias, três bailados e 18 poemas sinfónicos, entre os quais está November Woods (1917).

A obra não possui programa definido e, reconheceu o compositor, foi influenciado pela turbulência emocional que vivia à data, em resultado da paixão pela pianista Harriet Cohen, que o levou a abandonar a esposa e os filhos. Hoje, familiarizados como estamos com o cinema e as suas bandas sonoras, seríamos tentados a ver em November Woods a influência da “música para filmes”, mas, atendendo à data de composição, seria mais fácil passar-se o contrário. Seja como for, o dramatismo arrebatado da música de November Woods sugere o desenrolar de uma narrativa e não lhe assenta mal o adjectivo “cinemático”.

[Pela Orquestra Sinfónica da BBC, dirigida por Vernon Handley]
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Setembro de Quatro Últimas Canções, de Strauss

O título Quatro Últimas Canções (Vier Letzte Lieder) é para ser entendido literalmente: são a derradeira obra de Richard Strauss e ele, que tinha 84 anos quando as compôs, em 1948, sabia-o. Não chegaria a ouvi-la, pois faleceu em Setembro do ano seguinte e as canções foram estreadas em Maio de 1950, por Kirsten Flagstad, a Philharmonia Orchestra e Wilhelm Fürtwangler.

A escolha dos poemas foi feita nessa perspectiva crepuscular e é difícil imaginar melhor epitáfio do que “Setembro”, de Hermann Hesse: “O jardim lamenta-se/ A chuva fria abate-se sobre as flores/ O Verão estremece e encaminha-se para o seu fim/ Douradas caem as folhas, uma a uma,/ Do alto da acácia/ O Verão sorri, surpreso e enregelado,/ Para o jardim moribundo/ Demora-se longamente junto às rosas/ Ansiando pelo repouso/ E lentamente, cerra os seus/ Imensos e cansados olhos”.

[Por Kiri Te Kanawa (soprano) e a Orquestra Filarmónica da BBC, com direcção de Georg Solti, ao vivo no Free Trade Hall de Manchester, 1990]
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Autumn Gardens, de Rautavaara

Einojuhani Rautavaara (1928-2016) é o compositor finlandês de maior projecção internacional depois de Jean Sibelius e deixou uma obra vasta e variada, mas não é muito apreciado pela crítica, que o vê como retrógrado por compor em moldes tonais. Quem não seja intolerante ao romantismo tardio, achará encantos em Autumn Gardens (1998), uma colorida e opulenta peça orquestral em três andamentos, encomendada pela Orquestra de Câmara Escocesa.

[III andamento (Giocoso e leggiero), pela Orquestra Filarmónica de Helsínquia, dirigida por Vladimir Ashkenazy (Ondine)]

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