10 versões de “Night and Day”

Poucas vezes a obsessão amorosa foi tão intensamente expressa como em “Night and Day”: o objecto amado assombra todos os minutos da vida, dia e noite, na solidão do quarto, no tumulto das ruas fervilhantes de gente, não há mais nada sob o sol ou sob a lua
Cole Porter
Por José Carlos Fernandes |
Publicidade

A canção faz parte do musical Gay Divorce, com música de Cole Porter e libreto de Dwight Taylor e um título que hoje poderia sugerir uma sátira ao casamento gay – porém, em 1932, quando o musical estreou, “gay” era apenas entendido no sentido de “alegre” e o casamento que se encaminha para um inevitável (e nada trágico) divórcio é heterossexual. Cole Porter teve de ajustar a melodia aos modestos recursos vocais de Fred Astaire, naquele que seria o seu último papel na Broadway, antes de rumar a Hollywood. Por coincidência, dois anos depois, Astaire reencontrar-se-ia com a canção, pois ele e Ginger Rogers foram as cabeças de cartaz da adaptação cinematográfica do musical, dirigida por Mark Sandrich. Na transferência para o ecrã, o título sofreu uma ligeira alteração (The Gay Divorcee) e as canções ficaram pelo caminho, sendo “Night and Day” a única sobrevivente.

10 versões de “Night and Day”

Billie Holiday

Ano: 1940
Álbum: Lady Day: The Master Takes & Singles (Columbia)

Billie escolhe um tempo lento e arrasta-se, com espantoso à-vontade, bem atrás do tempo “certo”, gerando uma tensão e uma intensidade que se adequam plenamente à aura obsessiva da canção. A brevíssima introdução de trompete é de Buck Clayton. A canção saiu originalmente como disco de 78 rpm na Vocalion, emparelhada com “The Man I Love”, e está disponível em várias compilações.

Frank Sinatra

Ano: 1956
Álbum: A Swingin’ Affair! (Capitol)

Sinatra registou a canção pela primeira vez em 1942, regressou a ela em 1947 e em 1956 gravou-a uma terceira vez, com a orquestra de Nelson Riddle, e pertence à década de ouro entre o início dos 50s e o início dos 60s em que, de cada vez que entrava em estúdio, rubricava uma obra-prima. Consta que Porter não costumava apreciar as liberdades que Sinatra tomava com as suas músicas, mas esta versão está acima de qualquer reparo e deveria dissuadir os restantes cantores de lhe pegar – e até Sinatra de regressar a ela, o que fez várias vezes, sem nunca se aproximar deste pináculo.

Publicidade

Ella Fitzgerald

Ano: 1956
Álbum: Sings the Cole Porter Songbook (Verve)

O abençoado ano de 1956 viu nascer duas versões magistrais de “Night and Day”, uma para voz masculina (Sinatra) e outra para voz feminina (Ella). Esta última surge no primeiro álbum da esplêndida série de Songbooks de grandes compositores americanos congeminada por Norman Granz para a sua nova editora, Verve (foi também o primeiro disco da editora). Esta série de álbuns de Ella contou sempre com orquestras de primeira água – neste caso é a de Buddy Bregman.

Duke Ellington

Ano: 1957
Álbum: Ellington Indigos (Columbia)

Por ficar “entalado” entre Such Sweet Thunder e Black, Brown and Beige, Ellington Indigos, um álbum preenchido por baladas, costuma ser negligenciado, mas é de bom nível, como tudo o que Ellington gravou para a Columbia. “Night and Day” não foi incluída na edição original de 1958, mas a reedição de 1987 recuperou esse outtake. A abordagem de Ellington é opulentamente preguiçosa e inclui um solo de saxofone tenor por Paul Gonsalves, de sonoridade deliciosamente aveludada. Por trás da elegância e contenção, é uma versão que destila sensualidade.

Publicidade

Bill Evans

Ano: 1958
Álbum: Everybody Digs Bill Evans (Riverside)

Evans precisou de dois anos até se decidir a gravar o seu segundo disco, apesar do incitamento do produtor Orrin Keepnews, mas não havia razões para receios, uma vez que Everybody Digs Bill Evans ultrapassa o anterior Jazz Conceptions. Em “Night and Day” começa com uma original introdução da bateria de Philly Joe Jones que deixa antever que esta não será uma versão ortodoxa. Depois, Philly Joe Jones e Sam Jones (contrabaixo) entram numa pulsação regular, sobre a qual Evans se ocupa a esticar e deformar a a melodia de Porter.

Anita O’Day

Ano: 1959
Álbum: Swings Cole Porter with Billy May (Verve)

Enquanto a versão de Ella aposta na elegância e na postura imperial, Anita O’Day, três anos depois, investe na agilidade e no azougue e até introduz um breve trecho em scat. A orquestra de Billy May, um arranjador do gabarito de Nelson Riddle e Billy Bregman, corresponde com fogosidade e brilho.

Publicidade

Tuxedomoon

Ano: 1978
Álbum: EP No Tears (Crammed)

“Night and Day” tem exercido forte atracção sobre músicos da área do pop-rock, frequentemente com resultados infelizes (são disto exemplo as versões de Ringo Starr, Rod Stewart ou Thomas Anders – um ex-Modern Talking). Inesperado foi que o grupo experimental californiano Tuxedomoon tivesse escolhido incluir a canção de Cole Porter no seu EP de estreia, dada a distância entre os seus universos. O resultado é fascinante, com as programações e electrónica a gerarem um ambiente de obsessão e monomania, que casa perfeitamente com a voz alucinada de Blaine Reininger e acaba por corresponder melhor ao espírito da canção que a maioria das versões ortodoxas.

Everything But The Girl

Ano: 1983
Disco: single Night and Day

Por coincidência, também os Everything But The Girl escolheram “Night and Day” para se apresentar ao mundo, em 1983. Mas a escolha aqui é menos surpreendente, já que a pop do duo Tracy Thorn & Ben Watt tem uma costela jazzística. A abordagem escolhida é directa, clássica e despojada, só com a voz de Thorn e a guitarra de Watt.

Publicidade

Michel Petrucciani

Ano: 1985
Álbum: Pianism (Blue Note)

Ao contrário do que sugere a capa no videoclip, “Night and Day” faz parte do álbum Pianism e não de Both Worlds. Pianism é um dos grandes discos da breve carreira deste extraordinário pianista francês e revela-o em trio com Palle Danielsson (contrabaixo) e Eliot Zigmund (bateria). Este “Night and Day” é efervescente e pleno de eventos inesperados (e tem espaço para solos de Danielsson e Zigmund).

U2

Ano: 1990
Álbum: compilação Red Hot + Blue (Chrysalis)

“Night and Day” foi o contributo dos U2 para Red Hot + Blue, a primeira de muitas compilações da série Red Hot, destinada a recolher fundos para o combate ao HIV. A canção, que se abria a sonoridades electrónicas e à musica de dança, é uma surpreendente inflexão não só em relação a toda a carreira anterior dos U2, como, em particular, ao álbum anterior, Rattle and Hum (1988), fascinado com os EUA, permeado por blues rock, gospel, folk e rock’n’roll e que representava uma regressão estética considerável face a The Joshua Tree (1987). Mas “Night and Day” não era um mero acidente de percurso (era essa a esperança dos fãs mais ortodoxos) mas um indicador do novo rumo que a banda assumiria em Achtung Baby (1991). Seja como for, é um dos melhores momentos dos U2. O videoclip foi dirigido por Wim Wenders.

Jazz para todos

Chet Baker & Gerry Mulligan Los Angeles 1952
©William Claxton
Música, Jazz

Sete clássicos do cool jazz

Haverá música mais “hot” do que o jazz? Por oposição à música clássica, em que a partitura foi maduramente reflectida e se espera que o intérprete a siga escrupulosamente, o jazz é o reino das reacções instantâneas e espontâneas, sem tempo para reflexão, da entrega total dos músicos, dos solos abrasadores, da sinergia emocional entre os membros da banda que pode chegar ao paroxismo. O termo “hot jazz” foi sinónimo do jazz tradicional nascido em New Orleans, e quando, em 1931, um grupo de aficionados parisienses daquela música proveniente do outro lado do Atlântico decidiu formar um clube para a promover, escolheu chamar-se Hot Club de France. Quando, em 1950, um grupo de lisboetas entusiastas da “música hot” formalizou um clube com o mesmo fito, não teve de discutir muito para a baptizar como Hot Clube de Portugal. Mas nada no mundo é a preto e branco e, no final dos anos 40, houve músicos que descobriram que se se baixasse a temperatura do jazz este ganhava novas propriedades. E o jazz assumiu tempos mais lentos, opôs a descontracção e o distanciamento à tensão e frenesi do bebop, ganhou arranjos elaborados por influência da música clássica (que depois levariam à chamada Third Stream) e privilegiou a elegância e a contenção. Aviso: não vai ouvir nada disto no festival EDP cool jazz.

Publicidade
Hot Club Portugal - Banda
©DR
Bares

Os oito melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa

Encaremos isto como uma espécie de jukebox, mas em vez de chegarmos a um bar e metermos uma moeda no disco que queremos pomos antes uma moeda no bar que queremos, pedimos uma bebida e esperamos que a nossa aposta corra bem ao nível da escolha musical. Isto partindo do pressuposto que não vamos às cegas, que sabemos o que queremos a invadir-nos os tímpanos e que, por muito que não seja a música que queríamos naquela altura, não andará longe. Os bares de jazz ocupam esse lugar, querer Chet Baker e levar com Miles Davis, querer Duke Ellington e levar com Coltrane. Nada mau. Assim se espera nestes que são os melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa. 

Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com