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Música, Oscar Jerome
©Denisha Anderson Oscar Jerome

A língua musical de Oscar Jerome

Oscar Jerome lançou o primeiro disco, ‘Breathe Deep’, na semana passada. Falámos com o músico britânico.

Por Tiago Neto
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Se pararmos para ouvir a música de Oscar Jerome com atenção, é perceptível um conjunto de pequenos fenómenos: fibras do dub, do jazz, afrobeat, experimentação, letras como mensagens endereçadas ao mundo, recortes biográficos e de catarse, um enorme novelo que se desenrola pela voz ou pelos acordes da guitarra, o instrumento que o ajuda a decifrar o caminho. As comparações a outros artistas sucedem-se, ainda que não sejam definitivas nem estejam a cristalizar-se. A sonoridade deste britânico de 27 anos é um estranho encontro de influências, levadas à boleia pelos projectos que o ocuparam até ter decidido seguir a solo, em particular o colectivo Kokoroko. É assim que ele quer que seja.

“A música que faço é uma mistura de tudo o que ouço. Sempre fiz parte de um largo espectro musical; estudei jazz mas nunca me vi como um músico de jazz especificamente, foi apenas um treino para mergulhar em música mais complexa”, diz-nos Oscar Jerome, por telefone. “Mas é muito instintivo, eu toco em muitos estilos e toquei muitos estilos em muitas bandas. Se formos a ver, no final, há coisas que ficam de fora porque não serviam a narrativa do disco, e outras que são diferentes.”

O disco de que fala é Breathe Deep, o seu primeiro trabalho de assinatura própria, editado a 14 de Agosto e de onde já saíram os temas “Joy Is You”, “Give Back What You Stole From Me”, “Your Saint”, “Sun For Someone” ou “Gravitate”, todos eles de estética diferente, além de contar com a participação de inúmeros nomes, entre os quais Lianne La Havas ou Jake Long. A formação em jazz explica muitos dos caminhos que cabem nas faixas, ou a liberdade como são construídas, uma transversalidade que se ouve em outros artistas do jazz underground britânico.

Ele, que faz parte da tribo, não a vê da mesma forma. “Todas as pessoas que estão consideradas neste movimento são minhas amigas (Yussef Dayes, Moses Boyd e Shabaka Hutchings, entre outros). Viemos todos da mesma cena. Penso é que sou um pouco diferente porque escrevo música, ao invés de muitos deles, que se focam mais nos instrumentos. Portanto sim, identifico-me, mas também penso que chamar-lhe ‘jazz’ não é justo – é influenciado pelo jazz.”

A escrita é uma paixão antiga. Antes de aprofundar a garra pelos instrumentos, pelo jazz, era para as músicas acústicas, construídas na cabeça, que endereçava as letras. Com o tempo, ganhou profundidade, e a mensagem adensou-se para uma semi-autobiografia. “Há coisas que vêm do exercício de processar os meus pensamentos ou de falar da minha vida amorosa, coisas com as quais estou a tentar chegar a um termo, e que talvez ajude outras pessoas a pensar nisso. Há dias em que tens muita coisa a acontecer em ti e no mundo, e outros em que não. Como músico, tens essa função de narrador, tudo o que fazes reflecte os tempos que vives.”

Mesmo quando o músico se torna um produto? A questão leva-o a pensar uns segundos. “Não sinto vontade de me expor”, recomeça. “Isto de ter a personalidade, publicar fotografias da tua cara o tempo todo... Não gosto. Faz parte do jogo, eu sei, mas esta quarentena fez-me pensar na forma como quero conduzir-me nesse sentido. E acredito que não é tão necessário como algumas pessoas nos fazem crer.”

Mas a pressão existe e ele sabe-o, é tudo uma questão de compreender os limites. “É como quando és novo. A pressão nem vem tanto da tua equipa mas mais do mundo exterior. É preciso perceber se a rede social é uma boa ferramenta, que te aproxima das pessoas, e eu gosto disso, estar próximo das pessoas e que elas estejam próximas da minha música, desde que não percas a noção de que é uma ferramenta”, sublinha.

É por isso que ele prefere que o ouçam mais do que o vejam – “não é o ser cool, sou um guitarrista, não sou um modelo”. Se a arte é forte, fala por si. Oscar Jerome acredita que, para chegar a este conforto, é preciso ter uma “perfeita compreensão de quem és, daquilo que queres, e de teres a confiança para o expressar”, e ele tem-no feito, single após single, com a voz sobre a guitarra e vice-versa, até encontrar o seu espaço.

Um espaço que o próprio não sabe qual é, mas que começa a conseguir perceber. “Tenho a sorte de poder ajudar outros artistas e fazê-los crescer e acredito que através da música podemos chamar a atenção das pessoas para que elas possam chegar a quem tem o poder de mudar as coisas. Cantar sobre alguma coisa não vai necessariamente ajudar alguém que foi alvejado pela polícia. Temos de repensar a forma como a sociedade foi criada. Mas é uma ferramenta importante.”

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