Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right “A Night in Tunisia”: a imaginação à solta de Dizzy Gillespie
Dizzy Gillespie
Roland Godefroy Dizzy Gillespie em França, em 1991

“A Night in Tunisia”: a imaginação à solta de Dizzy Gillespie

Jazz com perfume árabe nascida da imaginação de um pai fundador do bebop, que nunca fora à Tunísia, em dez versões clássicas de “A Night in Tunisia”.

Por José Carlos Fernandes
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“A Night in Tunisia” foi composta por Dizzy Gillespie em 1941-42, quando fazia parte da banda de Benny Carter e costuma ser também atribuída a um certo Frank Paparelli, obscuro pianista que parece nela não ter metido prego nem estopa, tendo a sua creditação como co-autor sido uma forma encontrada por Gillespie para lhe pagar trabalhos de transcrição que Paparelli realizara para si. Pelo seu lado, o pianista Earl Hines, a cuja orquestra Gillespie se juntou em 1943, embora não reclamando crédito na música, alegava ter sido ele a baptizá-la, o que Gillespie contestou, fazendo notar que, embora a composição tenha começado por ter o anódino título de “Interlude”, já tinha sido tocada como “A Night in Tunisia” antes de ele se juntar à banda de Hines.

Passado algum tempo, “A Night in Tunisia” ganhou letra da autoria de Raymond Leveen, que muito provavelmente nunca pôs pé na Tunísia ou no Norte de África e se limitou a evocar uma vaga atmosfera exótica e nocturna em sintonia com o título e o pendor orientalizante da melodia, uma tendência que também gerou peças como “Caravan” ou “Isfahan”. Seria preciso mais algum tempo até o jazz mergulhar mais profundamente nas tradições musicais do Norte de África e Médio Oriente.

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Dez versões clássicas de “A Night in Tunisia”

1. Sarah Vaughan

Ano: 1944

Foi ainda sob título “Interlude” que Sarah Vaughan gravou a composição de Gillespie, acompanhada por uma orquestra dirigida pelo próprio autor, com George Auld (saxofone), Aaron Sachs (clarinete), Leonard Feather (piano), Chuck Wayne (guitarra), Jack Lesberg (contrabaixo) e Morey Feld (bateria), a 31 de Dezembro de 1944. A canção está disponível em várias compilações de Vaughan, nomeadamente em The Complete 1944-47 (Le Chant du Monde).

2. Charlie Parker & Dizzy Gillespie

Ano: 1945
Álbum: Town Hall, New York City, June 22 1945 (Uptown Jazz)

Dizzy Gillespie gravou várias versões de “A Night in Tunisia” ao longo da sua carreira, mas Charlie Parker, outro “pai fundador” do bebop, faz-lhe concorrência, com uma vintena de registos realizados em período bem mais curto, já que faleceu em 1955, com apenas 34 anos. Os dois músicos e “A Night in Tunisia” coincidiram neste registo ao vivo no Town Hall de Nova Iorque, a 22 Junho de 1945, num concerto em que tiveram o apoio de Al Haig (piano), Curley Russell (contrabaixo) e Max Roach (bateria) e que se manteve inédito até 2005.

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3. Dizzy Gillespie

Ano: 1954
Álbum: Afro (Norgran) Das muitas versões por Gillespie – que podem ser ouvidas em álbuns como World Statesman, Birks Works ou At Newport 1957 – vale a pena realçar esta, de carácter marcadamente africano, tocada por uma big band com músicos que depois teriam notável carreira em nome próprio (como Quincy Jones, Hank Mobley ou Mongo Santamaria) e que dá papel de relevo à percussão.

4. Modern Jazz Quartet

Ano: 1957
Álbum: The Modern Jazz Quartet (Atlantic) Se a versão de “A Night in Tunisia” que surge em Afro é uma das mais escaldantes, a versão incluída no 6.º álbum do Modern Jazz Quartet é provavelmente a mais cool. Os músicos são, como habitualmente, Milt Jackson (vibrafone), John Lewis (piano), Percy Heath (contrabaixo) e Connie Kay (bateria)

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5. Lee Morgan

Ano: 1957
Álbum: The Cooker (Blue Note)

No mesmo ano, o precoce trompetista Lee Morgan, então com apenas 19 anos, registou esta versão tórrida de “A Night in Tunisia”, liderando um quinteto com Pepper Adams (saxofone), Bobby Timmons (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Philly Joe Jones (bateria). Na gíria jazz, “to cook” significava tocar de forma fogosa e inspirada e é isso, sem dúvida, que acontece neste álbum de Morgan.

6. Max Roach +4

Ano: 1958
Álbum: At Newport (EmArcy)

Após o acidente de viação que vitimou Clifford Brown e Richie Powell, em Junho de 1956, e que pôs termo ao estupendo quinteto co-liderado por Brown e Roach, o baterista criou novo quinteto, baptizado como Max Roach +4, que se estreou nesse mesmo ano com álbum homónimo. A actuação no festival de jazz de Newport, em Rhode Island, a 6 de Julho de 1958, foi o derradeiro registo do Max Roach +4 e fez alinhar uma formação pouco ortodoxa pelos padrões de então, com trompete (Booker Little), saxofone (George Coleman), tuba (Ray Draper) e contrabaixo (Art Davis).

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7. Anita O’Day

Ano: 1958
Álbum: Anita Sings the Winners (Verve)

Como o título indica, o conceito deste álbum era uma selecção dos grandes êxitos que dominavam os tops da época – quando a pop ainda não destronara o jazz no gosto das massas. Em “A Night in Tunisia”, os arranjos, da responsabilidade de Marty Paich, sugerem algum desnorte geográfico, pois apontam mais para as Caríbas do que para o Norte de África.

8. Art Blakey

Ano: 1960
Álbum: A Night in Tunisia (Blue Note)

“A Night in Tunisia” tornou-se num tema emblemático de Art Blakey, a ponto de o baterista ter baptizado dois álbuns dos Jazz Messengers com esse título. A versão de 1957, gravada para a Vik, tem méritos, mas não atinge a temperatura escaldante da versão de 1960 para a Blue Note, com Lee Morgan (trompete), Wayne Shorter (saxofone), Bobby Timmons (piano) e Jymie Merritt (contrabaixo). Esta é seguramente daquelas noites em que o calor não deixa pregar olho. De realçar o arranque tempestuoso , só com bateria, percussão e contrabaixo.

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9. June Christy

Ano: 1962
Álbum: Big Band Specials (Capitol)

June Christy, que fora cantora na orquestra de Stan Kenton e iniciou carreira a solo em 1955 com Something Cool, recorreu frequentemente na sua carreira a solo aos arranjos e direcção de Pete Rugolo, um dos principais responsáveis pela renovação da sonoridade da orquestra de Kenton. Aqui, todavia, os arranjos são repartidos entre Shorty Rogers, Bob Cooper (esposo de Christy) e Bill Holman, sendo este último o responsável pela exuberante e colorida versão de “A Night in Tunisia”.

10. Dexter Gordon

Ano: 1963
Álbum: Our Man in Paris (Blue Note)

Em1962, o saxofonista Dexter Gordon mudou-se de Nova Iorque para a Europa, onde iria viver durante os 14 anos seguintes, repartidos entre Copenhaga e Paris. Our Man in Paris, o penúltimo de uma brilhante série de sete álbuns para a Blue Note, dá a ouvi-lo na companhia de outros dois expatriados americanos em Paris, Bud Powell (piano) e Kenny Clarke (bateria), e do francês Pierre Michelot (contrabaixo).

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