Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right A nobre arte de Tom Misch e Yussef Days: oferecer alegria
Tom Misch e Yussef Dayes
©Bardha Krasniqi Yussef Dayes e Tom Misch

A nobre arte de Tom Misch e Yussef Days: oferecer alegria

Em 2018, um guitarrista e um baterista fizeram do estúdio um tubo de ensaio. Agora, Tom Misch e Yussef Days mostram o resultado em ‘What Kinda Music’.

Por Tiago Neto
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Não há rótulo que caiba na definição sonora de What Kinda Music, o disco que colocou lado a lado os britânicos Tom Misch e Yussef Dayes e que saiu na passada quinta-feira. Não é estranho que assim seja, se os ouvidos se debruçarem sobre ele. Afinal, há tanta experiência que lhe cabe dentro, tanto augúrio e tanta satisfação na ausência de barreiras que quase podíamos jurar não se tratar de um disco mas de uma jam session, gravada do lado de lá da cortina, num dia em que a guitarra de Misch e a bateria de Dayes se entrelaçaram. “Foi uma coisa muito simples, dissemos ‘vamos para o estúdio’ e fomos. E foi uma conexão musical imediata. Não pensávamos fazer um disco mas foi uma coisa que acabou por acontecer. Foi muito improviso, não havia pressão para fazer um disco à partida e não há forma de o colocar numa caixa.”

O duo conheceu-se em 2018, por altura do lançamento de Geography, disco de Tom Misch, mas foi através do rapper Loyle Carner que cruzaram caminhos no estúdio. O que aconteceu de seguida foi uma série de encaixes improváveis: Misch, mais dado à estrutura, bate de frente com o ritmo desaçaimado de Dayes. A música brota depois de um terreno fértil para os dois, longe das canções plácidas que fizeram dele um fetiche musical público e, ao mesmo tempo, estranhamente perto delas.

Ele explica-a com o apego que cada um tem à extensão instrumental do corpo. “Temos muito em comum, na medida em que ambos somos muito apaixonados pelos instrumentos que tocamos. Ele passou muitos anos a improvisar e eu também. E, apesar de fazer canções, comecei por tocar coisas de improviso e fazer loops na guitarra com o que saía. As minhas raízes são o improviso, fazer beats, também.”

Doze faixas carregadas de bagagem, um ano e meio de estúdio e uma estética indecifrável – talvez seja um resumo justo mas curto. Porque na gaveta ficaram ideias de corpo feito, prontas a integrar uma aventura pós-presente confirmada por Misch, e porque da coragem de unir duas peças tão paradoxais surgiu um novo jardim de que a indústria desconhecia a necessidade. Até agora.

“O melhor de tudo foi o não ter pensado onde é que o disco encaixa. Tivemos também dias em que nos limitávamos a improvisar; começávamos numa onda mais hip-hop e às tantas estávamos numa coisa completamente diferente. É um disco de experiências, não tem grande estrutura por trás. Tornou-se uma experiência no seu todo.”

Sobre o momento de edição e a importância que a música pode ter nesta altura, Misch recusa a ideia de What Kinda Music servir um propósito humanitário. Esse cabe aos artistas. “Acho sinceramente que os artistas são mais importantes. Porque as pessoas estão presas em casa, então acabam por ver mais filmes, ouvem mais música. É uma forma de lhes aliviar a cabeça. É sempre importante [um disco], mas acho que é muito nobre poder trazer alegria às pessoas. E acho que isso está a acontecer.”

No futuro imediato, o britânico mantém acesa a vontade de continuar o projecto que todas as semanas leva covers suas ao YouTube, as Quarantine Sessions, e transformá-las em disco, porque a vontade de “fazer um EP de guitarra e as circunstâncias alinharam-se de forma perfeita”. Já a digressão de What Kinda Music tem data de arranque em Setembro.

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