Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right "Giro, giro era fazer concertos na banheira"
Bathstage Music
©Duarte Drago Vitor Lopes, Chiara Missagia, Carolina Caldeira, Juliana Lee, Ana Neves

"Giro, giro era fazer concertos na banheira"

Nas casas de banho de Lisboa floresce um dos mais inesperados jardins musicais da actualidade. Fomos conhecer o Bathstage

Por Tiago Neto
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Vivemos de forma tão apressada que nos esquecemos das coisas mais mundanas. O som de um carro a arrancar, o som do vento a atravessar as frestas de uma janela, a mecânica de pressionar um interruptor e fazer-se luz. Mas se ao parar, segundos que sejam, pudéssemos dedicar atenção ininterrupta ao que nos rodeia, o resultado seria surpreendente. Assustador, até. 

Carolina Caldeira parou. E da brutalidade do silêncio resultou uma inspiração. A ideia foi acontecendo, maturando. “Trabalhava num hotel, aqui na Baixa. Uma das funções era cobrir a folga da governanta, então passava muito tempo a olhar para casas de banho, que não era o que mais me entusiasmava na vida. Uma dessas vezes devo ter pensado ‘giro, giro era fazer aqui concertos’. Já que toda a gente canta no banho, podíamos pôr músicos a fazê-lo”. A história do Bathstage – ou do palco de casa de banho – começa como um acaso observacional; sem meios, sem gente, sem estrutura, sem lugar, como os não-lugares que as casas de banho são, tantas vezes.

Contas feitas são nove episódios, nove músicos, nove casas de banho, vezes dois. Duas temporadas de caos funcional, improviso, superação, vontade e desalento e triunfo. Cantautores, emcees, músicos de mão cheia, de Filipa Marinho a Mundo Segundo, de César Lacerda a Chico Bernardes ou a Fred Pinto Ferreira, todos ligados pela fórmula da madeirense de 30 anos, fundadora e directora artística do projecto.

“Na primeira temporada foi um jogo de quem é que aparece. Desta segunda vez sabíamos que para poder captar visualizações tínhamos de ter nomes conhecidos. Porque não vais ao YouTube procurar músicos em banheiras, vais procurar o teu artista. Foi uma mistura entre pessoas que conhecemos e, por ter uma pessoa que aceita, a outra já quer”. Isso não limita o talento que cabe na banheira porque, no final, diversidade é a palavra de ordem.

Voltamos a 2016, ano em que o hotel ficou para trás, ano em que Carolina terminou o curso na Restart e em que, pela primeira vez, materializou a ideia. “O projecto é um chapéu gigante; é música em casas de banho. As Bathstage Sessions são o segmento de série online, em que tens episódios e, por episódio, tens um artista ou uma banda, em casas de banho diferentes.”

Arrancou com um festival ao vivo, só ela, de ideia às costas, amparada por uma equipa de colegas da Restart. Mike El Nite, Surma ou DarkSunn foram os nomes que levou a banhos. Fechou o ano e, em 2017, foi à procura de suporte. “Era fácil abdicar de remuneração mas não podia dizer ‘malta, preciso de alguém que seja realizador e não seja pago’. Fui ter com as marcas, expliquei-lhes a ideia e pedi financiamento. Tens desde avós a crianças, a malta da indústria da música, das marcas, todos se conseguem ligar a esta ideia. Não há por que não funcionar.”

O dinheiro não chegou, mas a equipa cresceu. De contacto em contacto, foram ganhando corpo; oito pernas, de várias geografias, que garantem um movimento sem percalços. “São oito pessoas que em todos os episódios fizeram alguma coisa directamente. Depois temos amigos, pessoas que fazem consultoria de redes sociais, comunicação. Não fazem parte da equipa base mas vão participando”. Dos oito, quatro compuseram a moldura da sala: Chiara Missagia, italiana, é o olho por detrás do vídeo. Juliana Lee, de Curitiba, no Brasil, traz a sensibilidade à fotografia dos concertos; a luso-brasileira Ana Neves é uma das figuras do design e comunicação. Vítor Lopes fecha como o todas-as-coisas produção.

Ainda assim, e apesar do crescimento e visibilidade aumentada, o financiamento continua a ser uma questão em aberto, diz. “Não tivemos apoio financeiro de lado nenhum, nem na primeira nem na segunda temporada. Mas os apoios têm sido enormes de outra forma. Este sítio [co-living SameSame, na Rua da Madalena] não nos cobra para estarmos e gravarmos um episódio aqui. Há episódios em que temos um patrocinador de roupa. A banheira do Fred Ferreira, por exemplo, foi um apoio da Roca, que nos trouxe uma banheira de Leiria para um prédio em construção.”

Isto não os abranda. A segunda temporada está em andamento desde Fevereiro. Todas as segundas-feiras há um novo episódio a chegar ao canal de YouTube, com novidades até 30 de Março. Para acompanhar, há a newsletter, subscrita através do site (bathstagemusic.com), com a sinopse do episódio a ser lançado. E fechada está, também, a parceria com o Canal 180 e a presença no congresso “Quase Congresso de Música Afectiva Portuguesa” de A Música Portuguesa a Gostar dela Própria, dias 30 e 31 de Maio. Sobre o futuro, Carolina não tem dúvida: “Vamos crescer, vamos fazendo as coisas cada vez melhor. Porque se isto é o que fazemos sem recursos, imagina o que podemos fazer se os tivermos.”

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A banhos

Fred Pinto Ferreira

“Foi um desafio diferente, com uma equipa muito jovem, interessante e entusiasmada. Isso chamou-me logo a atenção e gostei mesmo de ter participado. Achei que era tudo muito bem feito, com cuidado. Gosto do projecto e da equipa, são pessoal com boas ideias. Correu tudo muito bem, tanto a comunicação que fomos tendo como o sítio onde foi gravado.”

Francis Dale

“Foi uma cena muito fácil. Já conhecia a Carolina e tinha ouvido falar do projecto, que achava bastante interessante. Quando ela me disse que ia fazer reboot, tinha acabado de lançar uma música. Foi a altura certa. Ela mostrou-me fotos de onde ia acontecer e foi muito impulsivo. Conheço o Bathstage desde 2016 e é muito fixe por aproximar as pessoas num momento com o qual estão tipicamente confortáveis, que é a cantar no banho. Em termos estéticos, tudo aquilo me fazia sentido.”

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Marinho

“A experiência foi supercriativa e feliz. Muitas vezes, como artista, somos convidados para participar nestes projectos de tocar um tema e filmar uma actuação e não há grande colaboração criativa. Houve uma atenção muito grande. Soube-me bem ser incluída na conversa. Toda a gente, mais ou menos, canta na casa de banho, mas daí até fazerem alguma coisa, nunca tinha acontecido. É um conceito fixe porque junta a música com o conforto da casa de banho e o quão pessoal isso pode ser.”

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