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Claude Monet, ‘Snow Scene at Argenteuil’, 1875
© The National Gallery, London© The National Gallery, London

Dez canções pop-rock para dias frios

O frio tem inspirado músicos de todo o mundo e de todos os estilos, e nem a pop escapa. Se lhe falta uma lareira, aqueça com estas canções pop-rock para dias frios.

Escrito por
José Carlos Fernandes
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Apesar de o ameno clima lisboeta só muito raramente proporcionar o convívio com neve e gelo, tal não é obstáculo a que se fruam as canções invernosas de músicos de latitudes mais setentrionais. Aqueça os ouvidos e o coração com estas canções pop-rock para dias frios, escritas por todo o tipo de gente e ao longo de várias décadas, da apropriadamente chamada “Winter Song”, de Nico, ao pós-rock de “Last Day of Winter”, dos Pelican, a encerrar a lista, ou ao lamento nórdico dos Kings of Convenience, em “Surprise Ice”.

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Dez canções pop para dias frios

“Winter Song”, de Nico

Nico (nascida como Christa Päffgen) foi imposta como cantora aos Velvet Underground por Andy Warhol, contra a vontade da banda, mas, após o álbum de estreia da banda, The Velvet Underground and Nico, saído em Março de 1967, Nico regressou à sua carreira a solo, que tivera como primeira etapa o single “I’m Not Saying”, com a colaboração de Brian Jones (dos Rolling Stones) e produção de Jimmy Page (dos Led Zeppelin). Apesar da hostilidade que enfrentou nos Velvet Underground, nunca faltou a Nico uma entourage de músicos de primeiro plano e suas actuações dos pós-Velvet tiveram a participação de guitarristas como Tim Buckley, Tim Hardin e Jackson Browne. Foi com canções compostas por Browne, Hardin, Bob Dylan e (inesperadamente) pelos seus ex-colegas de banda, que Nico ergueu o seu primeiro álbum a solo, Chelsea Girl (gravado em Abril-Maio e lançado em Outubro de 1967), onde figura esta “Winter Song”, da autoria de John Cale: “A neve nas tuas pálpebras que fazem vénia ao tempo/ Congela os olhares nas alas da tirania”.

Chelsea Girl tornou-se num clássico, mas Nico viria a renegá-lo por os arranjos colados a posteriori por Tom Wilson não terem nada a ver com o que ela pretendia – e há que dar-lhe razão, aqueles floreados de flautas podiam estar em voga no ano do Summer of Love, mas envelheceram mal.

“I Do Not Care for the Winter Sun”, dos Beach House

“O que era novo tornou-se velho/ O que era velho tornou-se novo/ Quando te vi pela primeira vez/ [...] Ainda que a escuridão/ tenha chegado tão depressa/ Encurtando os dias/ E alongando as noites/ Acende um fogo azul e ajoelha-te ao lado/ Flocos de neve caem através dos meus olhos/ É a única coisa que importa/ Nesta altura do ano”.

Por incrível que possa parecer, esta magnífica canção do duo Beach House (Victoria Legrande & Alex Scally) não faz parte de nenhum dos seis álbuns da banda: foi disponibilizada como download gratuito em Dezembro de 2010 no website da banda. Mesmo quem viva em latitudes com invernos mais amenos ficará hipnotizado por esta paisagem branca e glacial, que Victoria Legrande canta com serenidade letárgica e hipotérmica.

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“Flowers in December”, dos Mazzy Star

“Flowers in December” partilha da qualidade onírica e narcoléptica de “I Do Not Care For the Winter Sun” e vive da voz extra-terrena de Hope Sandoval e da mais elementar estrutura instrumental folk-country, cujo despojamento é envolto por um discreto arranjo de cordas e um solo de harmónica. Faz parte de Among My Swan (1996), o terceiro álbum da banda.

“Winter Is Coming”, dos Radical Face

Onírico – e espectral – é também o mundo de Ghost (2007), o segundo álbum dos Radical Face (o nom de plume de Ben Cooper) e oferece-nos uma imagem fascinante da chegada de um Inverno em demoníaca encarnação feminina: “Vejo o Inverno, vejo-a a rastejar pela alameda/ Sinto-a respirar sob as palmas das minhas mãos/ Ela desfaz as árvores, enquanto maldições se soltam da sua língua/ Tem olhos como bigornas e tempestades por pulmões”.

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“Surprise Ice”, dos Kings of Convenience

O duo Kings of Convenience – Erlend Oye e Eirik Glambek Boe – é norueguês, portanto está credenciado para falar sobre frio e gelo, pelo que podemos dar crédito ao seu boletim meteorológico-sentimental: “O amor chega como gelo inesperado na água/ O amor chega como gelo inesperado na madrugada/ O amor chega como gelo inesperado na água/ O amor chega de madrugada”. A canção faz parte de Riot on an Empty Street (2004), o seu terceiro álbum.

“She Hates December”, dos People In The Box

A letra é enigmática, mas percebe-se que fala de uma relação a desfazer-se no frio de Dezembro: “A luz cruel da manhã/ Deixa-me completamente indefeso/ Os meus segredos expostos/ lama e água misturam-se/ E depois transbordam/ [...] Quando a lua desaparecer/ Só restaremos nós”. A canção faz parte de Rabbit Hole, (2006), o mini-LP de estreia dos People In The Box, uma banda formada em 2003 em Kitakyushu, Japão, onde convergem pop, shoegaze e math rock.

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“Melt the Snow”, de Virginia Astley

Um cruzamento afortunado entre uma Christmas carol e uma pop de câmara finamente rendilhada, um contraponto invernal ao esplendor estival do álbum From Gardens Where We Feel Secure, que chamou a atenção para Astley em 1983. A canção, acompanhada por duas versões instrumentais, vem no EP Melt the Snow (1985), que é um disco que opera o milagre de resgatar a má fama dos “discos de Natal”. Porém, será debalde que procurará um para oferecer: quer o vinil original quer a reedição japonesa em CD de From Gardens Where We Feel Secure, que acoplou o dito EP, são hoje peças de colecção.

“Winter Music”, de Roger Eno

Três anos depois de Melt the Snow, Roger Eno, irmão do bem mais famoso Brian e alma-gémea de Virginia Astley, lançou o álbum Between Tides (1988), entre a ambient music e a música de câmara e alicerçado em piano e cordas. Inclui esta “Winter Music”, que poderia ser o lado B de “Melt the Snow”.

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“Freeze Tag”, de Suzanne Vega

 

Nesta canção do seu nunca superado álbum de estreia homónimo, de 1985, Suzanne Vega joga com dois significados de “freeze”. Por um lado, o título alude a uma variante do jogo infantil da apanhada (“tag game”) em que o fugitivo “apanhado” tem de ficar “congelado” até que outro dos fugitivos consiga passar-lhe por baixo das pernas e “libertá-lo”. Por outro, o “freeze” alude à atmosfera invernal em que Vega situa esta cena arrancada à transição da infância para a adolescência: “Vamos para o parque/ Numa tarde de Inverno/ O sol declina rapidamente/ Sobre os escorregas que levam ao passado/ Sobre os baloiços da indecisão/ Numa tarde de Inverno// O brilho minguante dos diamantes/ Espalhados pelo parque/ A excitação/ E o estremecimento/ De jogar freeze tag/ No escuro”. Percebe-se que a narradora e um dos parceiros de brincadeira acabaram por deixar para trás os jogos infantis – apanhada, escondidas – e ensaiar os primeiros passos nos jogos amorosos.

“Last Day of Winter”, dos Pelican

Como não há Inverno que sempre dure, o degelo chega com esta faixa de The Fire in Our Throat Will Beckon the Thaw (2005), o segundo álbum dos post-rockers de Chicago.

Mais que ouvir

  • Música

A autorreferência é um mecanismo relativamente banal na arte. Por exemplo, poemas que se queixam de como as palavras não lhes bastam para dizerem tudo o que precisam dizer, é mato. Nos textos cantados é especialmente frequente encontrar esse tipo de truque estilístico, em particular em canções que se põem a falar sobre canções de amor para, de forma mais ou menos discreta, fingirem que não são elas próprias canções de amor, bajoujas e piegas como todas as canções de amor devem ser.

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Não consta de nenhuma das letras, mas a palavra da moda atravessa todas estas canções. Aqui fala-se de resistência e esperança, optimismo e perseverança, confiança e tenacidade: em suma, fala-se de resiliência, palavra que por estes dias se consome mais do que álcool gel. Eis então uma playlist feita de canções inspiradoras e motivacionais, espécie de vacina contra toda a sorte de atribulações, borrascas, contrariedades, dissabores, e outros sinónimos de coisas chatas, que podíamos continuar a ordenar alfabeticamente até chegarmos a zaragatoa.

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  • Música

No tempo em que não havia Internet e a globalização ainda se fazia ouvir com delay, era comum uma canção fazer sucesso numa língua, sem que a maioria do público alguma vez percebesse que estava a trautear uma toada estrangeira. O caso mais frequente, como se adivinha, é o de uma canção que se celebriza em inglês apesar de ter sido composta em italiano, francês ou outra língua que não gruda bem nos ouvidos americanos. Mas não só. Por exemplo, “Les Champs Élysées”, que foi popularizada por Joe Dassin, fez o percurso contrário.

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