10 canções para ouvir de cabeça no ar

Temas com alusões a condições atmosféricas para dias de tempo incerto. Eis 10 canções, de Johnny Mitchell a Nick Cave
Paisagens com Nuvens
©Pixabay
Por José Carlos Fernandes |
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Mesmo para quem não é cloudspotter (os aficionados da observação de nuvens) o céu oferece todos os dias um desfile de prodígios e revelações. Basta que se disponha de sensibilidade e tempo – parece ser o caso de muitos escritores de canções.

 

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10 canções para ouvir de cabeça no ar

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“Both Sides, Now”, de Joni Mitchell

Ano: 1969

“Correntezas e fluxos de cabelos de anjo/ E castelos de gelado no ar/ E desfiladeiros de penas por todo o lado/ Assim tenho olhado para as nuvens”. Na primeira estrofe da canção de encerramento do seu segundo álbum, Clouds, Joni Mitchell oferece-nos esta lírica e “gráfica” descrição das nuvens; porém, a segunda estrofe já nos fala de nuvens metafóricas, que tapam o sol e se interpõem entre nós e os nossos planos. E, conclui Michell: “Tenho olhado as nuvens de dois ângulos/ De cima e de baixo, e ainda assim/ São as ilusões das nuvens que persistem/ Afinal, não percebo nada de nuvens”. O memo concluirá, nas estrofes seguintes, sobre o amor e a vida.

A inspiração para a canção surgiu à cantora canadiana ao contemplar as nuvens durante uma viagem de avião, em 1967. Não foi, todavia, Joni Mitchell a primeira a gravar a canção, que surgiu no álbum Wildflowers (1967), de Judy Collins. Mitchell voltaria a gravar a canção, numa versão sumptuosamente orquestrada, no álbum Both Sides, Now (2000), mas, infelizmente, por essa altura, a sua voz era uma sombra do que fora 40 anos antes.

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“In Bluer Skies”, dos Echo and the Bunnymen

Ano: 1983

Uma relação amorosa doentia empurrou o protagonista para a beira do colapso nervoso, mas ele percebe agora que tem de abandonar este mundo sombrio e rumar a outro, de céus mais azuis. Esta canção de ambiente dramático e hierático faz parte de Porcupine, terceiro álbum da banda de Liverpool.

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“The Big Sky (The Meterological Mix)”, de Kate Bush

Ano: 1986

À maneira das manchas usadas no teste de Rorschach, uma mesma nuvem pode suscitar as mais diversas interpretações e é isso mesmo que exprimem as várias vozes que se ouvem a meio de “The Big Sky”: uns comparam-na a algo muito íntimo e doméstico (“parece a árvore no nosso jardim”), outros têm uma abordagem científica, abstracta e desapaixonada (“parece um cumulus castellanus”), outros imbuem nela o seu receio do porvir (“aquela nuvem só promete sarilhos”), outros têm dela uma visão estritamente prosaica e pragmática (“aquela nuvem é sinal de chuva”.

A pop barroca de Kate Bush assume em “The Big Sky”, do álbum Hounds of Love (1985), o quinto da cantora, uma efervescência sinfónica, onde confluem guitarras rock, baixos funk, coros épicos, camadas sobrepostas de percussões tribais e didgeridoo (na abertura), sobretudo na versão dilatada conhecida como “Meteorological Mix”, lançada sob a forma de single de 12’’, alguns meses depois da saída do álbum.

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“Clouds”, dos American Music Club

Ano: 1987

“As tempestades agarram nas coisas valiosas/ E depositam espelhos aos meus pés/ Um guarda-fatos cheio de sangue/ E mentiras maldosas para serem repetidas”. As “tempestades” são a única conexão que a letra oferece com o título desta canção de Engine, o segundo álbum dos American Music Club. Mas uma canção não tem de ser compreensível para ser uma obra-prima.

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“Atmospheric Conditions”, de Beck

Ano: 1994

One Foot in the Grave é o terceiro álbum de Beck, mas na canção “Atmospheric Conditions” o vocalista que ocupa o primeiro plano é Calvin Johnson (a voz mais grave e solene). A letra conforma-se ao registo surreal usual em Beck e seria vã empresa tentar extrair dela um significado coerente – há alusões desconexas à “atmosfera” e às suas mudanças (parece que está “partida ao meio”). É provável que nem os peritos do Instituto do Mar e da Atmosfera possam elucidar-nos sobre isto.

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“Everybody Thinks I’m a Raincloud (When I’m Not Looking)”, dos Guided by Voices

Ano: 2004

Também as letras de Robert Pollard são quase sempre enigmáticas e surreais e a desta canção do 15.º álbum dos Guided By Voices, Half Smiles of the Decomposed, não é excepção. Aqui e ali parece haver indícios de que o assunto central é a depressão: “Hoje não é um dos meus dias bons/ E ninguém quer saber/ [...] Ninguém me liga/ Porque dizem que sou preguiçoso demais para estar vivo”. Umas linhas à frente fala-se de “uma cura miraculosa para a minha mágoa com almofadas de amor-próprio”. Deprimido ou não, Pollard é um dos mais geniais e prolíficos songwriters da história da pop.

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“I Was a Cloud”, dos Shearwater

Ano: 2008

O deslizar lento e sereno da canção ajusta-se bem aos versos iniciais: “Eu era uma nuvem/ Eu era uma nuvem olhando para baixo/ E os teus acenos frenéticos não me despertaram qualquer emoção”. Mas Jonathan Meiburg é outro letrista críptico, pelo que talvez só ele saiba o que significa esta canção do álbum Rook, o quinto dos Shearwater.

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“A Cloud Story”, dos Dark Dark Dark

Ano: 2008

Desperta-se a meio de uma noite de Verão e percebe-se que “As nuvens caíram do céu/, Depositando-se sem um suspiro na praia/ E esperando pacientemente pela morte// E agora o ar é pegajoso/ O ar transpira/ O ar bloqueia a vista/ O ar parece o do meu sonho/ Quando eu estava deitado na cama, á noite”. Este sonho inquietante e de um surrealismo melancólico faz parte de The Snow Magic, o álbum de estreia dos Dark Dark Dark.

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“The Aleutian Clouds”, dos If These Trees Could Talk

Ano: 2012

Uma vez que a música destes post-rockers de Akron, Ohio, é instrumental, nunca saberemos o que têm de particular as nuvens das Ilhas Aleutas (a sudoeste do Alaska). Mas a música ajusta-se a um mar irrequieto quebrando-se em rochedos negros e sobrevoado por nuvens colossais. “The Aleutian Clouds” faz parte de Red Forest, o segundo álbum da banda.

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“Push the Sky Away”, de Nick Cave & The Bad Seeds

Ano: 2013

Numa viagem de carro ao alvorecer, deitam-se contas à vida: o que fazer quando pareces ter alcançado tudo o que te propuseste alcançar, quando tens tudo e não queres mais nada? Há que continuar sempre em frente, pelo teu próprio caminho, “continuar a empurrar o céu para longe”, ou seja a estabelecer novos objectivos. Serve como metáfora para a carreira de Cave – “Algumas pessoas dizem que é só rock’n’roll/ Ah, mas ele toca-te o fundo da alma” – e como metáfora para a vida.

Apesar de ser uma canção sobre tenacidade e resiolução em seguir em frente, o fatalismo, a desolação e a solenidade que a rodeiam não deixam de ser arrepiantes. Faz parte de Push the Sky Away, que, embora seja já o 15.º álbum de estúdio de Cave com os Bad Seeds, revela uma pujança criativa invulgar.

[Versão ao vivo no Fonda Theater, Los Angeles]

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©Paul Hudson
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Numa passagem de A peste, de Albert Camus, uma personagem interroga-se sobre o “que fazer para não perder tempo” e conclui que a resposta é “senti-lo em toda a sua extensão”. Para isso, deverão “passar-se os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortável; viver as tardes de domingo à varanda; assistir a conferências numa língua que não se conhece; escolher os itinerários de caminho de ferro mais longos e menos cómodos e viajar de pé, claro; fazer fila nas bilheteiras dos espectáculos e não tomar a sua vez”. Nos anos 90 do século passado, houve quem transpusesse para música este conceito e nos desse a sentir o tempo em toda a sua extensão, em canções arrastadas e narcolépticas, cujas letras, muito adequadamente, se focam na marcha do tempo, nos desgastes que causa e na memória como derradeiro reduto onde é possível subsistir quando a corrente imparável do tempo leva consigo, destrói ou erode tudo o que é precioso. Houve quem propusesse arrumar estas bandas – predominantemente norte-americanas – sob a designação genérica de “slowcore” ou “sadcore” (por oposição à hiper-actividade do “hardcore”), mas os rótulos são apenas uma conveniência.

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