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Susana Santos Silva
©Filipe Paiva Susana Santos Silva

Cinco trompetistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

As primeiras estrelas do jazz tocavam trompete. Hoje não tem o mesmo protagonismo, mas ainda é uma peça fulcral do jazz

Por José Carlos Fernandes
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A história da trompete não começou com Louis Armstrong (1901-1971) – antes houve Joe “King” Oliver (1881-1938), em cuja banda o jovem Armstrong tocou e que beneficiou dos seus ensinamentos – mas foi ele, com os Hot Five e os Hot Seven, a ganhar renome e a levar o nível de execução do instrumento para outro patamar. O seu contemporâneo Bix Beiderbecke (1903-1931) é visto como sendo a principal influência dos trompetistas mais cool, como Miles Davis (1926-1991) e Chet Baker (1929-1988), sendo Roy Elridge (1911-1989) e Dizzy Gillespie (1917-1993) os representantes do registo mais exuberante e acrobático.

Claro que estas classificações são uma simplificação que dificilmente reflecte artistas com carreiras longas e diversas – é o caso de Miles Davis, que começou, ainda muito novo, em 1949-50, por gravar um disco fundador do cool jazz, The Birth of the Cool, mas que no final da década de 1960 revolucionou o mundo musical com uma escaldante fusão de jazz, rock e funk, que teria no álbum Bitches Brew (1970) a sua mais completa realização.

Hoje, embora não tenha o mesmo protagonismo, o trompete continua a ser uma peça fulcral do jazz. Estes cinco trompetistas contam-se entre os seus melhores intérpretes em Portugal.

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Cinco trompetistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Sei Miguel

No seu website, Sei Miguel (n. 1961) apresenta-se como alguém “com soluções inovadoras (e frequentemente estranhas)”. Que seria da inovação, no jazz ou noutra arte qualquer, sem ideias estranhas? Desde meados da década de 1980 que Sei Miguel espalha estranheza pelos palcos portugueses (logo a começar pelo seu instrumento de eleição, a trompete de bolso), com um leque variado de colaboradores, em que são presença frequente a trombonista Fala Mariam, o percussionista César Burago e os guitarristas Rafael Toral e Manuel Mota. Tem também tocado e/ou gravado com Pedro Gomes, David Toop, Norberto Lobo, o Motion Trio de Rodrigo Amado e o Lisbon String Trio.

O seu disco de estreia foi Breaker, de 1988, os mais recentes em nome próprio são (Five) Stories Untold, de 2016, que reúne registos com diversas formações, de um duo com Fala Mariam (gravado ao vivo na ZDB, em 2014), a um octeto com Mariam, Nuno Torres, Rodrigo Amado, Bruno Parrinha, Paulo Curado, Pedro Lourenço e Hernâni Faustino; From Faust (2018), em parceria com o Lisbon String Trio; e O Carro de Fogo de Sei Miguel (2019), um registo “ao vivo em estúdio”, realizado em 2018 pela quarta encarnação do projecto O Carro de Fogo, que tem sido veículo preferencial da criatividade do trompetista.

[O projecto Carro de Fogo, de Sei Miguel, com Fala Mariam, Nuno Torres (saxofone alto), Guilherme Rodrigues (violoncelo eléctrico), Pedro Lourenço (baixo eléctrico) e Luís Desirat (bateria), ao vivo no Musicbox, Lisboa, 04.06.15]

Susana Santos Silva

A sub-representação das mulheres no jazz é notória, em Portugal ou noutro país qualquer, e as trompetistas do sexo feminino são uma raridade. Susana Santos Silva (n. 1979) não só desafia este enviesamento como é hoje um dos nomes mais internacionais do jazz português: integra o trio LAMA, com Gonçalo Almeida e o canadiano Greg Smith, que tem base de operações em Amesterdão e já gravou com Chris Speed e Joachim Badenhorst; mantém um duo com a pianista eslovena Kaja Draksler (This Love); gravou com o trio belga De Beren Gieren (The Detour Fish) e com o trio escandinavo Aalberg/Kullhammar/Zeterberg (Basement Sessions vol.4: The Bali Tapes); estabeleceu uma profícua cumplicidade com o contrabaixista norueguês Torbjörn Zetterberg, que se manifesta em duo – Almost Tomorrow (2013) –, em trio – If Nothing Else (2015) – e em quinteto – Life and Other Transient Storms (2016) –, tendo este “quinteto escandinavo”, que conta com Lotte Anker, Sten Sandell e Jon Fält, feito parte, em 2017, do muito selectivo cartaz do Jazz em Agosto.

[“The Elephants’s Journey”, pelo trio LAMA, ao vivo no Bimhuis, Amesterdão, 2015]

Por cá, tanto pode ser ouvida com a Orquestra de Jazz de Matosinhos ou com o Coreto, a big band da Associação Porta-Jazz, como em trompete solo no Panteão Nacional (All the Rivers). A sua discografia inclui ainda dois discos em quinteto com elenco maioritariamente nacional: Devil’s Dress (2011) e Impermanence (2015).

Os registos mais recentes da sua discografia em crescimento veloz são The Ocean Inside a Stone (2020), pelo projecto Impermanence, Hi! Who Are You? (2019), pelo trio com Zetterberg e Lindwall, Fish Wool (2019), álbum de estreia do colectivo homónimo; All the Rivers (2018), a solo na acústica reverberante do Panteão Nacional, e Child of Illusion (2018), pelo trio com Zetterberg e Chris Pitsiokos.

[All the Rivers: Live at Panteão Nacional]
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Luís Vicente

Quem tenha como modelo de trompetista Louis Armstrong poderá não sentir apelo imediato na música de Luís Vicente, cujo foco está na improvisação sem rede. Faz parte dos colectivos Fail Better! (com João Guimarães, Marcelo dos Reis, José Miguel Pereira e João Pais Filipe), Clocks and Clouds (com Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Marco Franco), Frame Trio (com Marcelo dos Reis e José Miguel Pereira), WAS (com Federico Pascucci, Roberto Negro, André Rosinha, Vasco Furtado), Deux Maisons (com Théo Ceccaldi, Valentin Ceccaldi e Marco Franco), Chamber 4 (com Théo Ceccaldi, Valentin Ceccaldi e Marcelo dos Reis), In Layers (com Kristján Martinsson, Marcelo dos Reis e Onno Govaert) e Metric Conversion 4tet (com Federico Pascucci, André Rosinha e Vasco Furtado), bem como de um trio com Francesco Valente e Oori Shalev, de outro com Seppe Gebruers e Onno Govaert e de outro com Olie Brice e Mark Sanders e dum duo com Jari Markamäki.

[Os Chamber 4, ao vivo em Les Soirés Tricot Festival, Paris, 28.04.16]

Há certamente uma coisa que não atormenta Vicente: enfadar-se por tocar sempre a mesma coisa com os mesmos músicos. O seu disco mais recente é A Brighter Side of Darkness (2019), em duo com o baterista Vasco Trilla.

[“Where You Belong”, de A Brighter Side of Darkness]

Gonçalo Marques

Gonçalo Marques estudou no Berklee College of Music, em Boston, é membro da big band do Hot Clube e dirige um trio com Demian Cabaud e Bruno Pedroso, que gravou Da Vida e Morte dos Animais (2010), com Bill McHenry como convidado, e Cabeça de Nuvem Só Tem Coração (2016), com Zé Pedro Coelho e André Santos como convidados, Canção do Homem Simples (2017), com o pianista Jacob Sacks como convidado).

A parceria com Sacks foi reatada em Linhas (2019), em quarteto, e em Puzzle (2019), pelo duo Golpe!, projecto que une Marques ao baterista João Lopes Pereira.

[Gonçalo Marques Quarteto, com João Carreiro (guitarra), André Ferreira (contrabaixo) e Guilherme Melo (bateria), ao vivo no Hot Clube, Lisboa, 20.04.16]

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Gileno Santana

Gileno Santana é baiano, mas está radicado em Portugal desde 2006, onde lidera o naipe de trompetes da Orquestra de Jazz de Matosinhos. Estreou-se como líder em 2011 com Início, em quarteto com o bandolinista Hamilton de Holanda, seguido em 2014 por Metamorphosis, que faz um casamento ditoso de jazz e electricidade. A sua lista de colaborações inclui músicos tão diversos como Hermeto Pascoal, Gregory Porter e Sara Tavares.

[O quinteto de Gileno Santana apresenta o álbum Metamorphosis, com uma formação diversa da que o gravou – Sérgio Alves (teclados), Pedro Peixe (guitarra), Sérgio Marques (baixo) e José Marrucho (bateria) –, ao vivo no Hot Clube, Lisboa, 03.12.15]

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Começou por ter um papel apagado e discreto, percebeu-se que poderia ser mais do que um mero marcador de ritmo com Jimmy Blanton, emancipou-se com Charles Mingus e Scott LaFaro. Hoje é consensual que o contrabaixo não só não é um “instrumento menor” como pode assumir protagonismo equivalente ao do saxofone ou do piano e não é por acaso que alguns dos mais excitantes projectos do jazz português são liderados por contrabaixistas.  

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Em contraste com a música clássica, em que a percussão costuma desempenhar um papel menor e há obras em que o percussionista passa meia hora imóvel e apenas intervém no “tcham-tcham” final, o jazz confiou, desde os seus primórdios um papel importante à bateria. Na era do swing, virtuosos como Gene Krupa e Buddy Rich deram à bateria um novo protagonismo e quando, na viragem das décadas de 1940-50, o bebop fez explodir a linguagem do jazz, havia bateristas como Max Roach e Art Blakey a liderar a revolução. Alguns dos mais excitantes grupos do nosso tempo têm bateristas à frente – e Portugal não é excepção. 

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