Oito bateristas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Longe vai o tempo em que o baterista ficava lá atrás a marcar o ritmo. Hoje a bateria desempenha um papel tão importante no jazz como qualquer outro instrumento e em Portugal não faltam bateristas em posição de liderança
©Sara Rafael Gabriel Ferrandini
Publicidade

Em contraste com a música clássica, em que a percussão costuma desempenhar um papel menor e há obras em que o percussionista passa meia hora imóvel e apenas intervém no “tcham-tcham” final, o jazz confiou, desde os seus primórdios um papel importante à bateria. Na era do swing, virtuosos como Gene Krupa e Buddy Rich deram à bateria um novo protagonismo e quando, na viragem das décadas de 1940-50, o bebop fez explodir a linguagem do jazz, havia bateristas como Max Roach e Art Blakey a liderar a revolução. Alguns dos mais excitantes grupos do nosso tempo têm bateristas à frente – e Portugal não é excepção.

Recomendado: Os oito melhores sítios para ouvir jazz em Lisboa

Oito bateristas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Camera

Alexandre Frazão

Frazão não é português – nasceu em Niterói, Rio de Janeiro – mas veio para Portugal aos 19 anos, em 1987, e tornou-se num dos pilares do jazz português. Na verdade o seu talento espalha-se generosamente por outras áreas musicais, pelo que até quem não se interesse por jazz o conhecerá dos Resistência, Ala dos Namorados, Pedro Abrunhosa, Rui Veloso, Júlio Pereira, Joel Xavier, Rão Kyao ou até da recente colaboração com os Dead Combo. Frazão não tem discos em nome próprio, mas o seu contributo para o jazz nacional – ao lado de Bernardo Sassetti, Maria João, Mário Laginha, Mário Delgado ou Carlos Martins ou no colectivo TGB (que co-fundou em 2002, com Mário Delgado e Sérgio Carolino) – é inestimável e a sua versatilidade é assombrosa.

[Hot Clube, Lisboa, 23.12.17: o Mário Laginha Trio, com Bernardo Moreira e Alexandre Frazão, toca “Tráfico”, composição do álbum Espaço (2007, Clean Feed)]
Camera

José Salgueiro

Tal como Alexandre Frazão, Salgueiro é um sustentáculo não só do jazz português como do pop-rock e da música portuguesa, tendo feito parte dos Trovante e tocado com Sérgio Godinho, Resistência, Vitorino, Janita Salomé, Gaiteiros de Lisboa e Pedro Jóia, entre outros. Integrou os Cal Viva (um super-grupo com Maria João, José Peixoto e Carlos Bica) e colabora (ou colaborou) com Bernardo Sassetti, António Pinho Vargas, José Peixoto, João Paulo Esteves da Silva e Carlos Barretto, com quem mantém há 20 anos o trio Lokomotiv, de que também faz parte Mário Delgado. Esta intensa actividade como sideman ajuda a explicar que só em 2017 tenha surgido o seu primeiro disco em nome próprio, Transporte Colectivo.

[Entrevista com José Salgueiro e excertos de concerto dos Transporte Colectivo no Hot Clube, Lisboa, 12.05.17, com Guto Lucena (saxofone, clarinete baixo), Mário Delgado (guitarra), João Paulo Esteves da Silva (piano) e Cícero Lee (contrabaixo)]
Publicidade
Camera

Bruno Pedroso

Bruno Pedroso (n. 1969) é, juntamente com Alexandre Frazão e José Salgueiro, responsável pela componente rítmica de boa parte da música que se faz em Portugal, seja na área do jazz – João Paulo Esteves da Silva, Bernardo Sassetti, Afonso Pais, André Fernandes, Júlio Resende, Nelson Cascais, Paulo Curado, Luís Figueiredo, Gonçalo Marques – ou não – Paulo de Carvalho, Joel Xavier. Tem também dado o seu contributo aos discos das novas promessas do jazz português, como João Hasselberg e João Barradas.

[Com Júlio Resende (piano) e André Rosinha (contrabaixo), ao vivo na Fábrica Braço de Prata, Lisboa, 07.04.17]
Camera

Marco Franco

Começou pelo rock e pelo metal, derivou para o jazz e para a música improvisada, voltou ao rock (na vertente instrumental) e acabou por se envolver num jogo de sedução com o piano que resultou em Mudra, um disco de piano solo lançado em 2017. Sim, o Marco Franco de Mudra é o mesmo que tocou com os Peste & Sida e os Braindead e faz parte do duo Memória de Peixe (com o guitarrista Miguel Nicolau) e coincide com o baterista que lidera os Mikado Lab (que registaram Baligo e Coração Pneumático), que formou um trio com o contrabaixista Gonçalo Almeida e o saxofonista Rodrigo Amado (que gerou o disco The Attic), que faz parte dos colectivos Clocks & Clouds e Deux Maisons e que tem tocado com Norberto Lobo.

[Os Mikado Lab, no Festival de Músicas do Mundo de Sines, 2011]
Publicidade
Camera

João Lencastre

O veículo das ideias de João Lencastre enquanto líder são os Communion, um grupo de formação flutuante por onde já passaram David Binney, Bill Carrothers, Phil Grenadier, Leo Genovese, Ben van Gelder e André Matos e que nos últimos anos tem contado regularmente com o pianista Jacob Sacks e o contrabaixista Thomas Morgan. Os Communion lançaram cinco discos – One, B-Sides, Sound It Out, What Is This All About e Movements in Freedom – em que se regista uma deslocação do jazz mainstream (One) para estruturas soltas e fluidas (Movements in Freedom, o título está mesmo a dizê-lo). Lencastre faz também parte do colectivo No Project, com João Paulo Esteves da Silva (piano) e Nelson Cascais (contrabaixo).

[Os Communion ao vivo no Rive Rouge/Mercado da Ribeira, Lisboa, a 07.03.2018. Nesta ocasião, os Communion são Ricardo Toscano (saxofone alto), Alberto Cirera (saxofone tenor e soprano), João Paulo Esteves da Silva (Fender Rhodes), André Fernandes (guitarra) e Nelson Cascais (baixo)]
Camera

João Lobo

João Lobo (n. 1981) travou conhecimento com Enrico Rava num workshop em Siena (Itália), em 2003 (tinha o baterista 22 anos) e o trompetista não tardou a convidá-lo para integrar o seu quinteto New Generation – é o que se chama entrar no jazz pela porta principal. Desde então, Lobo tem tocado com muitos outros músicos internacionais – Giovanni Guidi, Scott Fields, Alexandra Grimal, Riccardo Luppi, Manuel Hermia – e nacionais – Júlio Resende, Hugo Antunes, Carlos Bica. Fundou os colectivos Tetterapadequ, Norman, Going e Mulabanda e associou-se num duo com o guitarrista Norberto Lobo (sem relação de parentesco), que entretanto se converteu no sexteto multinacional Oba Loba. Para lá dos cerca de 40 discos que gravou com estes grupos, pode ser ouvido em bateria solo em Nowruz (2017, Three:Four Records).

[Lobo a solo nas MagaSessions, Lisboa]
Publicidade
Camera

Marco Santos

Marco Santos (n. 1981) estudou na Holanda e lá assentou base, pelo que não é de estranhar que a sua estreia como líder – Ode Portrait (Sintoma Records), gravado em 2013 – misture holandeses – o pianista Laurens Hoppe e o contrabaixista Boris Oud – e portugueses – Santos e o guitarrista Rui Silva. O baterista lidera também o projecto Marco Santos Unity e faz parte do colectivo Triktopus.

[Excerto de “Both of Me”, composição de Marco Santos incluída em Ode Portrait, ao vivo no FestJazza Koprivnica, Croácia, 08.07.16, com Rodolfo Neves (trompete), Michiel Stekelenburg (guitarra), Jeroen van Vliet (piano) e Boris Oud (contrabaixo)]
Camera

Gabriel Ferrandini

É o benjamim desta lista – nasceu em 1986 – embora a extensão, variedade e riqueza do curriculum, que se espraia pelo jazz, pela música improvisada e pelas franjas experimentais do rock, não o deixe adivinhar. Lidera o trio Volúpia das Cinzas (com Pedro Sousa e Hernâni Faustino), faz parte do Motion Trio e do Wire Quartet de Rodrigo Amado, do RED Trio, do Nobuyasu Furuya Trio, da VGO, da Lisbon Connection, do SONE Quartet e dos Pão, gravou em duo com David Maranha e em trio com Thurston Moore e Pedro Sousa (Live at ZDB) e com Pedro Sousa e Johan Berthling (Casa Futuro) e tem-se desdobrado por encontros pontuais com improvisadores de gabarito internacional (como Evan Parker).

[Ferrandini a solo na Galeria Zé dos Bois, Lisboa, 30.01.2011]
Publicidade
Camera

Tim Tim Por Tim Tum

Tim Tim Por Tim Tum não é um baterista, são quatro. Este original grupos foi fundado em 1996 por músicos portugueses, inspirados por um workshop do mítico baterista Max Roach no Jazz em Agosto do ano anterior. A formação tem variado ao longo do tempo, mas Alexandre Frazão, José Salgueiro, Bruno Pedroso e Marco Franco têm sido elementos regulares nos últimos anos. Quem imagine que um quarteto de baterias é sinónimo de monotonia, terá de rever as suas ideias após ouvi-los. Neste videoclip, o convidado Jim Black (um norte-americano que visita frequentemente o nosso rectângulo) toma o lugar de Bruno Pedroso.

Jazz em Portugal

Carlos Bica
©Jorge Monjardino
Música

Dez contrabaixistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Começou por ter um papel apagado e discreto, percebeu-se que poderia ser mais do que um mero marcador de ritmo com Jimmy Blanton, emancipou-se com Charles Mingus e Scott LaFaro. Hoje é consensual que o contrabaixo não só não é um “instrumento menor” como pode assumir protagonismo equivalente ao do saxofone ou do piano e não é por acaso que alguns dos mais excitantes projectos do jazz português são liderados por contrabaixistas.

Rodrigo Amado Trio
©Nuno Martins
Música, Jazz

13 discos indispensáveis de jazz português

A famosa dupla Maria João e Mário Laginha, Carlos Bica e Azul, L.U.M.E. e Júlio Resende são alguns dos nomes que constam desta lista de discos indispensáveis de jazz português. Porque nunca é demais lembrar que o nacional é bom.

Publicidade
Esta página foi migrada de forma automatizada para o nosso novo visual. Informe-nos caso algo aparente estar errado através do endereço feedback@timeout.com