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Musica, Jazz, Contrabaixo, Carlos Barretto
©José Paulo Ruas Carlos Barretto

Dez contrabaixistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

O contrabaixo é o instrumento menos exuberante num grupo de jazz, mas tal não significa que a sua importância seja menor

Por José Carlos Fernandes
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Começou por ter um papel apagado, mas percebeu-se que poderia ser mais do que um mero marcador de ritmo com Jimmy Blanton (1918-1942), que se juntou à banda de Duke Ellington em 1939 e cujo contributo se revelou tão crucial para o som do grupo que o maestro o colocou no centro da orquestra e na fila da frente, quando naquele tempo o lugar do contrabaixista era recuado e discreto. Nunca saberemos do que teria sido capaz Blanton se a tuberculose não o tivesse levado aos 24 anos, tal como não poderemos adivinhar o que teria feito Scott LaFaro (1936-1961), se não tivesse falecido aos 25 anos num acidente de viação, duas semanas depois de ter gravado um dos mais célebres álbuns da história do jazz, Sunday at the Village Vanguard, como membro do trio de Bill Evans, uma formação em que o contrabaixo e a bateria partilhavam o protagonismo com o piano. A mais formidável figura de contrabaixista dos anos 50-60 foi Charles Mingus (1922-1979), músico e compositor de génio, que se empenhou na luta pelos direitos civis dos afro-americanos e que ficou também conhecido pelo temperamento irascível e pela forma autocrática como geria os seus grupos.

Hoje é consensual que o contrabaixo não é um “instrumento menor”. E não é por acaso que alguns dos mais excitantes projectos do jazz português são liderados por contrabaixistas.

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Dez contrabaixistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

Carlos Barretto

Carlos Barretto (n.1957, Estoril) tem espalhado o seu talento e criatividade por projectos muito variados, que vão do arriscado formato do contrabaixo solo – em articulação com outra das suas vocações, a pintura, diálogo que deu origem ao álbum Solo Pictórico – ao sexteto In Loko, passando pelo duo com o guitolão (variante baixo da guitarra portuguesa) de António Eustáquio e pelo Lisboa String Trio, com a guitarra portuguesa de Bernardo Couto e a guitarra clássica de José Peixoto. Como sideman participou em discos de Mal Waldron, George Cables, Carlos Martins, Mário Delgado, Bernardo Sassetti e Afonso Pais.

O seu projecto de maior longevidade é o trio Lokomotiv, com Mário Delgado (guitarra) e José Salgueiro (bateria), que comemorou em 2018 duas décadas de existência com o lançamento do seu sexto álbum, Gnosis. Após andar em busca de uma síntese de jazz e tradições portuguesas em Suíte da Terra, o trio deu um passo decisivo na definição de uma identidade própria com Silêncios e, após ter ganho impulso, só tem produzido obras-primas: Radio Song (com Louis Sclavis como convidado), Lokomotiv (com François Corneloup como convidado), Labirintos e Gnosis.

[“Distresser”: o trio Lokomotiv ao vivo no Hot Clube de Portugal, 2016]

Carlos Bica

Mais facilmente se agarra água com os dedos do que se arruma Carlos Bica (n. 1958, Lisboa) numa gaveta. Tem ampla experiência na música “erudita” na Orquestra de Câmara Portuguesa, na Bach Kammerorchester e na Wernecker Kammerorchester. Tem colaborado com alguns dos principais nomes do jazz português – Maria João, Mário Laginha, João Paulo, António Pinho Vargas – e internacional – Ray Anderson, Paolo Fresu, Lee Konitz, Alexander von Schlippenbach, Aki Takase, Kenny Wheeler – mas também tem dado inestimável contributo à música de José Mário Branco, Camané, Carlos do Carmo e Janita Salomé.

Nos grupos que lidera ou co-lidera, o eclectismo não é menor: dos Diz (com a voz de Ana Brandão, o piano de João Paulo Esteves da Silva e cordas) aos Matéria Prima, que associam duas jovens revelações do jazz (Matthias Schriefl e João Lobo) a dois companheiros de longa data de Bica (Mário Delgado e João Paulo Esteves da Silva), passando pelo Move String Quartet, o Bica Piano Trio (com João Figueiredo e João Mortágua), por um trio com Mortágua e André Santos e outro trio Daniel Erdmann e DJ Illvibe, e ainda um duo com João Paulo...

Entre esta multiplicidade de facetas e a constante busca de novos parceiros e geometrias, há um elemento constante: o iconoclasta power trio Azul, com o guitarrista alemão Frank Möbus e o baterista norte-americano Jim Black, que iniciou actividade em 1996 com a gravação de Azul e, em 22 anos, nos deu mais cinco discos indispensáveis: Twist, Look What They’ve Done To My Song, Believer, Things About e More Than This. O seu disco mais recente é I Am the Escaped One (2019, Clean Feed), com os alemães Daniel Erdmann (saxofone) e DJ Illvibe (turntables).

[“Believer”, por Carlos Bica & Azul, ao vivo no Festival de Músicas do Mundo de Sines, 2007]
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Bernardo Moreira

Apesar de ter uma discografia pouco extensa como líder, o contributo de Bernardo Moreira (n.1965, Lisboa) como sideman faz dele uma das figuras centrais do jazz português. Nasceu numa família de forte pendor jazzístico: o pai, também Bernardo e também contrabaixista, foi figura pioneira do jazz português e os irmãos João (trompete), Pedro (saxofone) e Miguel (piano) também têm jazz no ADN. Foi com os irmãos que fundou em 1985 o Moreiras Jazztet, uma formação com uma sonoridade e um repertório enraizado nos anos 50-60. Bernardo Moreira tem vasta experiência de colaboração com grandes jazzmen internacionais, como Benny Golson, Art Farmer, Norma Winstone, Enrico Rava, Bruce Barth, Phil Markowitz ou Rick Margitza, e é um dos contrabaixistas mais requisitados do jazz português, sendo a sua parceria mais duradoura a que o une a Mário Laginha e Alexandre Frazão, trio que já leva mais de 15 anos de existência.

A discografia como líder de Moreira inclui Tudo Muda, em trio com Steve Slagle, e Ao Paredes Confesso, em sexteto, onde convivem composições do contrabaixista e de Carlos Paredes.

[Mário Laginha (piano), Bernardo Moreira e Alexandre Frazão (bateria), ao vivo no Hot Clube de Portugal, 2014]

Mário Franco

Mário Franco (n. 1965, Lisboa) já tinha vasta experiência como sideman – com António Pinho Vargas, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Carlos Martins – quando se estreou como líder em 2006 com This Life, em quinteto (com David Binney como convidado). Seguiu-se Our Door, com Sérgio Pelágio e André Sousa Machado, trio que actuou com o saxofonista britânico Andy Sheppard.

Dois dos melhores discos de jazz nacional 2017 tiveram a rubrica de Mário Franco: Rush, o seu terceiro disco como líder, com Sérgio Pelágio (guitarra), Óscar Graça (piano), Luís Figueiredo (órgão Hammond) e Alexandre Frazão (bateria) e que funde as linguagens do jazz e do rock, e Brightbird, uma improvisação a três, de texturas diáfanas e luminosas, com João Paulo Esteves da Silva (piano) e Samuel Rohrer (bateria).

[“Paralelos Cruzados”, do álbum Rush]
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Hernâni Faustino

Hernâni Faustino foi baixista eléctrico na área do indie rock (K4 Quadrado Azul), antes de tomar o contrabaixo (como auto-didacta) e enveredar pelo jazz mais livre e pela música improvisada.

Dos muitos projectos em que tem participado – ao lado de John Irabagon, Agustí Fernández, Rodrigo Amado, Lotte Anker, Silke Eberhard, Nobuyasu Furuya, Elliott Levin, José Lencastre, Vítor Rua e Sei Miguel, no duo Falaise e nos colectivos Temple of Doom, Théatron, Staub Quartet, Hamar Trio, Clocks & Clouds e Variable Geometry Orchestra – o que tem tido existência mais regular é o RED Trio, com o pianista Rodrigo Pinheiro e o baterista Gabriel Ferrandini, que conta com oito discos, dois deles em parceria com John Butcher (Empire e Summer Skyshift), outro com Nate Wooley (Stem), outro com Mattias Stahl (North and the Red Stream) e outro com Piotr Damasiewicz e Gerard Lebik (Mineral) e os restantes em trio (RED Trio, Rebento e Live in Munich).

Os discos mais recentes com participação de Faustino são Krypton, do colectivo String Theory, Rayon Blanc, do colectivo Suspensão, e Mimus, do colectivo Octopus, todos surgidos no final de 2019.

[RED Trio & John Butcher, ao vivo no Festival de Jazz de Saalfelden, Áustria, 2012]

Nelson Cascais

Nelson Cascais (n.1973, Lisboa) lançou cinco discos como líder – Ciclope, Nine Stories, Guruka, The Golden Fish e A Evolução da Forma – e lidera The Amplectors e The Mingus Project. Após vários discos em quinteto, arriscou o (hoje relativamente raro) formato decateto em A Evolução da Forma, inspirado pelo noneto de The Birth of the Cool, de Miles Davis, e pela Liberation Music Orchestra, do contrabaixista Charlie Haden.

[O decateto de Nelson Cascais ao vivo no Hot Clube de Portugal, em 2013: excertos do concerto + entrevista. Com Diogo Duque (trompete), Luís Cunha (trombone), Nuno Cunha (trompa), Gil Gonçalves (tuba), Ricardo Toscano (saxofone alto), Federico Pascucci (saxofone tenor), Paulo Gaspar (clarinete baixo), Óscar M. Graça (piano), Nelson Cascais e Bruno Pedroso (bateria)]
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Demian Cabaud

Cabaud nasceu na Argentina em 1977, mas uma vez que assentou residência em Portugal e se tornou numa peça fulcral do jazz que por cá se faz, não poderia deixar de figurar nesta lista. Gravou sete álbuns como líder – Naranja, Ruínas, How About You?, En Febrero, Off the Ground e Astah e Aparición –, um com o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg (A Terra É de Quem a Trabalha), faz parte do colectivo Bode Wilson e da Orquestra de Jazz de Matosinhos e colaborou em registos de Leo Genovese, André Matos, João Lencastre, André Fernandes, Ricardo Pinheiro, Gonçalo Marques, César Cardoso, Paula Sousa, Susana Santos Silva, Gonçalo Prazeres, José Pedro Coelho, Nuno Costa e Óscar Graça.

[“Verdes Sempre”, um tema do álbum Astah, ao vivo no 9.º Festival Porta-Jazz, Porto, 2017, com Ariel Bringuez (saxofone), Xan Campos (piano) e Jeff Williams e Iago Fernández (baterias)]

Gonçalo Almeida

O lisboeta Gonçalo Almeida (n.1978) estabeleceu base em Roterdão e desenvolve actividade nas franjas mais exploratórias do jazz. É membro dos colectivos Albatre, LAMA, Roji, Spinifex, Tetterapadequ e The Selva e de trios com Martin van Duynhoven (saxofone, clarinete) e Tobias Klein (bateria) e com Rodrigo Amado (saxofone) e Marco Franco ou Onno Goevert (bateria).

Os LAMA, com a trompetista Susana Santos Silva e o baterista canadiano Greg Smith, têm quatro discos editados pela Clean Feed, um em trio (Oneiros), outro em quarteto com o saxofonista americano Chris Speed (Lamaçal) e dois com o clarinetista belga Joachim Badenhorst (The Elephant’s Journey e Metamorphosis).

O álbum mais recente de Almeida diz respeito ao trio com Duynhoven e Klein: Live at the Bimhuis foi gravado ao vivo no lendário clube de jazz de Amesterdão e foi lançado em 2019 pela Clean Feed.

[“The Gorky’s Spy”, uma composição de Gonçalo Almeida, pelos LAMA com Joachim Badenhorst (clarinete baixo), 2016]
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Hugo Carvalhais

O portuense Hugo Carvalhais (n. 1978) tem formação na área da pintura, não na da música, onde é auto-didacta, mas o imaginário que entranha os seus discos poderia levar a crer que proviria da astrofísica. Nebulosa, o seu CD de estreia, de 2010, não foi uma supernova, mas projectou um valente clarão, amplificado pelo facto de o sólido trio que Carvalhais mantinha há já alguns anos com Gabriel Pinto (piano) e Mário Costa (bateria) surgir reforçado com um convidado de primeira grandeza: o saxofonista americano Tim Berne. A presença de músicos internacionais de gabarito, manteve-se nos discos seguintes de Carvalhais: Partícula (que figurou nas listas de discos do ano de vários media internacionais ligados ao jazz) contou com o saxofone de Émile Parisien e o violino de Dominique Pifarély, e Grand Valis (um título inspirado pelo escritor de ficção científica Philip K. Dick), contou novamente com Pifarély (e foi, também ele, eleito para muita listas de discos do ano).

[O projecto Nebulosa, ao vivo no 12 Points International Jazz Festival, Casa da Música, Porto, 2012]

João Hasselberg

Apesar da juventude, João Hasselberg (n.1986, Lisboa) já tem ampla e variada discografia em nome próprio, que começou pelo território do jazz, com Whatever It Is You're Seeking, Won't Come in the Form You're Expecting e Truth Has To Be Given In Riddles.

Formou duas parcerias, uma com o pianista Luís Figueiredo, sob o nome de SongBird, que se dedica à recriação, plena de inteligência e sensibilidade, de um vasto espectro de canções pop (Sting, Beatles, Milton Nascimento, Radiohead, Jorge Palma, Regina Spektor, Sérgio Godinho, Chico Buarque, Elliott Smith, Coldplay, Fausto) e gravou dois discos muito recomendáveis; e outra com o guitarrista Pedro Branco, que produziu Dancing Our Way To Death (2016) e From Order To Chaos (2017).

Com a trilogia Debord I-III (2017) e o álbum The Great Square of Pegasus (2019), aproximou-se do experimentalismo electro-acústico, pôs de lado o contrabaixo e passou a ocupar-se da voz e da electrónica.

[“August Winds”, de Sting, recriado pelo duo SongBird]

Outros músicos de jazz portugueses

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Os pianistas de jazz portugueses que precisa de ouvir

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Durante várias décadas, o piano foi visto no meio jazzístico como um instrumento indispensável: a mão esquerda do pianista pode fazer de secção rítmica e a direita ocupar-se da melodia, e pronto, não são precisos mais instrumentos; já os outros instrumentos do jazz tiveram de esperar até à década de 60 para que se tornasse aceitável que pudessem apresentar-se a solo. Nos nossos dias, o piano já não é indispensável, mas continua a estar na primeira linha. E Portugal está bem servido de bons pianistas de jazz.

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©Tiago Fezas Vital/Facebook/Alexandre Frazão

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Em contraste com a música clássica, em que a percussão costuma desempenhar um papel menor, o jazz confiou, desde os seus primórdios um papel importante à bateria. Na era do swing, virtuosos como Gene Krupa e Buddy Rich deram à bateria um novo protagonismo e quando, na viragem das décadas de 1940-50, o bebop fez explodir a linguagem do jazz, havia bateristas como Max Roach e Art Blakey a liderar a revolução. Alguns dos mais excitantes grupos do nosso tempo têm bateristas à frente – e Portugal não é excepção. 

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Susana Santos Silva
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Algumas das maiores estrelas do jazz tocaram trompete. Foram os casos de Louis Armstrong (1901-1971), Bix Beiderbecke (1903-1931), Miles Davis (1926-1991), Chet Baker (1929-1988) ou Dizzy Gillespie (1917-1993), entre muitos outros. Hoje, embora não tenha o mesmo protagonismo, o trompete continua a ser uma peça fulcral do jazz um pouco por todo o mundo. E estes cinco trompetistas contam-se entre os seus melhores intérpretes em Portugal.

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