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Dez obras para dois pianos que precisa de ouvir

O concerto de Martha Argerich & Lilya Zilberstein é motivo para lembrar algumas das mais notáveis obras compostas dois pianos.

Martha Argerich
©DR Martha Argerich
Por José Carlos Fernandes |
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Se o piano é um instrumento com uma extrarodinária riqueza de timbres e uma dinâmica ampla, dois pianos são, nas mãos de compositores e intérpretes talentosos, capazes de quase substituir toda uma orquestra, o que levou muitos compositores a compor para este formato. A vinda a Lisboa do duo de piano Martha Argerich & Lilya Zilberstein – actua a 27 de Março, às 20.00, na Fundação Calouste Gulbenkian (os preços variam entre os 28,14€ e os 65,66€) – é pretexto para recordar algumas das mais notáveis obras compostas para 2 x 88 teclas.

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Dez obras para dois pianos que precisa de ouvir

Sonata para dois fortepianos op.15 n.º 5, de J.C. Bach

Ano: 1778

No tempo de Johann Sebastian Bach já havia fortepianos, mas o compositor parece tê-lo achado pouco satisfatórios. Porém, o instrumento evoluiu rapidamente e foi conquistando terreno ao cravo, pelo que as obras para tecla do filho mais novo de Johann Sebastian, Johann Christian (1745-1782), já se destinavam, indistintamente, a cravo ou fortepiano. A sonata em apreço faz parte da colecção op. 15, publicada em 1778 e que inclui dois trios com teclado (n.º 1 e 2), duas sonatas para violino e teclado (n.º 3 e 4) e uma sonata para teclado a quatro mãos (n.º 6).

[I andamento (Allegro), por Christopher Hogwood e Christophe Rousset, em instrumentos de época (L’Oiseau-Lyre/Decca)]

Sonata para dois pianos K.448, de Mozart

Ano: 1781

Para lá das bem conhecidas sonatas para piano solo, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) compôs cinco sonatas para piano a quatro mãos, mas apenas uma para dois pianos (a sua outra única produção para este formato é a Fuga para dois pianos K426). A Sonata K.448 não só adopta o estilo galante típico de Johann Christian Bach como o seu Allegro con spirito “pilha” uma melodia da Sonata op.13 n.º 2 do Bach mais novo. Mozart preparou depois um arranjo da sonata para quarteto de cordas.

Foi composta para um recital em duo (cujo programa incluiu também o Concerto para dois pianos K 365) dado por Mozart e Josepha Barbara Auernhammer (1758-1820), uma aluna de piano de Mozart. Auernhammer teve uma paixão (não se sabe se correspondida) por Mozart e a dupla deu alguns concertos em 1781-82; Mozart dedicou-lhe várias sonatas para violino e piano.

[I andamento (Allegro con spirito), pelo duo Anderson & Roe]
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Concerto Pathétique S.258, de Liszt

Ano: 1865

Nasceu em 1850 como peça para piano solo, concebida para servir de teste nas concursos do Conservatório de Paris, e foi publicada no ano seguinte como Grande Solo de Concerto S.176 (Grosses Concert-Solo). Há esboços que atestam que Franz Liszt terá considerado convertê-lo num verdadeiro concerto para piano e orquestra, mas acabou por ficar-se por uma solução intermédia – o arranjo para dois pianos, publicado em 1865. Por outro lado, algum material melódico do S.176 tem afinidades com uma mais célebres e relevantes obras para piano de Liszt: a Sonata S.178, de 1853.

[I andamento, por Sviatoslav Richter e Anton Ginzburg, ao vivo em Moscovo, 1959]

Variações Sobre um Tema de Haydn op.56b, de Brahms

Ano: 1873

Embora sejam muito mais conhecidas na versão orquestral, as oito Variações Sobre um Tema de Haydn foram originalmente compostas para dois pianos. O título da obra assenta num equívoco: o tema em questão – conhecido como “Coral de St.º António” – surge num divertimento para sopros que Carl Ferdinand Pohl, um investigador da vida e obra de Haydn, apresentou ao seu amigo Johannes Brahms como sendo da autoria de Haydn. O seu verdadeiro autor é, ainda hoje, desconhecido, embora se tenha concluído, devido a disparidades estilísticas, não ser de Haydn. Alguns musicólogos sugerem que, independentemente de quem seja o autor do dito divertimento, a melodia em questão poderá provir de uma fonte mais antiga ou da tradição popular. Nenhuma destas considerações musicológicas belisca o valor das Variações de Brahms.

[Por Radu Lupu e Murray Perahia, ao vivo em 1981]

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En Blanc et Noir, de Debussy

Ano: 1915

A (justíssima) popularidade da audaciosa produção de Claude Debussy (1862-1918) para piano solo – Images, Préludes, Études, Estampes – faz esquecer que rubricou obras não menos audaciosas para piano a quatro mãos e para dois pianos. En Blanc et Noir é uma obra de extraordinária liberdade rítmica e tonal, uma efervescência de ideias que nunca coalesce numa forma definida.

[N.º1 (Avec emportement), por Martha Argerich e Stephen Kovacevich, 1977]

La Valse, de Ravel

Ano: 1920

Desde 1906 que Maurice Ravel acarinhava a ideia de compor um poema sinfónico “em homenagem à memória do grande Strauss, não o Richard, mas Johann”, pois tinha “afinidade pelos ritmos admiráveis e pela alegria de viver dessa dança”. O poema sinfónico acabou por converter-se num “poema coreográfico”, destinado aos Ballets Russes de Sergei Diaghilev, mas quando Ravel lhe apresentou a obra (ainda por orquestrar) na versão para dois pianos, o empresário rejeitou-a, declarando não se tratar de um bailado. Ravel ficou profundamente magoado e as relações entre os dois homens cortaram relações. Foi o próprio Ravel, em parceria com o pianista e compositor italiano Alfredo Casella a estrear, em Viena, a versão para dois pianos de La Valse a 3 de Outubro de 1920; a versão orquestral estreou a 12 de Dezembro de 1920, em Paris. Existe ainda uma versão para um só piano, que é raramente tocada devido à sua extrema dificuldade.

Também a ideia de homenagear Johann Strauss sofreu alterações entre 1906 e 1920: La Valse é uma obra irónica, subversiva, alucinada e caricatural (mas não isenta de lirismo), que submete a tratos de polé a amável valsa vienense.

[Por Martha Argerich e Nelson Freire, ao vivo em Tóquio, 2003]
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Concerto para dois pianos, de Stravinsky

Ano: 1935

Apesar do “concerto” no título, não há orquestra envolvida: a obra destina-se apenas a dois pianos. A produção para piano de Igor Stravinsky é, se excluirmos as transcrições dos bailados, relativamente breve e este “Concerto” é uma das suas páginas mais inspiradas. Foi estreado em Paris, pelo próprio compositor e pelo seu filho, Sviatoslav Soulima (então com 25 anos), dupla que gravaria a obra em 1938.

[I andamento (Con moto), por Vladimir Ashkenazy e Andrei Gavrilov (Decca)]

Scaramouche op.165b, de Milhaud

Ano: 1939

Scaramouche começou por ser uma música de cena composta em 1937 para a peça Le Médecin Volant, de Molière. Em 1939, Darius Milhaud (1892-1974) reciclou parte do material como Suíte para saxofone e orquestra op.165, que depois transcreveria para dois pianos.

[Por Martha Argerich e Cristina Marton, ao vivo na Tonhalle de Zurique, 2014]
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Variações Sobre um Tema de Paganini, de Lutoslawski

Ano: 1941

Não se trata de uma obra inteiramente original mas de uma reinterpretação em dois pianos do Capricho para violino solo n.º 24 de Niccolò Paganini. Na Varsóvia sob ocupação nazi, a única fonte de rendimentos do compositor polaco Witold Lutoslawski (1913-1994) eram as actuações como pianista nos cafés da cidade; o seu duo com o pianista Andrzej Panufnik tinha um repertório de duas centenas de arranjos de obras clássicas, mas todas as partituras se perderam na Insurreição de Varsóvia, em 1944, com excepção das Variações Sobre um Tema de Paganini.

[Por Martha Argerich e Nelson Freire, ao vivo em Tóquio, 2003]

Visions de l’Amen, de Messiaen

Ano: 1943

Olivier Messiaen (1908-1992) deixou uma vasta obra para piano solo, mas esta é a sua única obra para dois pianos, concebida para ser tocada por si mesmo e por Yvonne Loriod, que era então sua aluna no Conservatório de Paris e que se tornaria na sua musa e na encarregada de estrear todas as peças para piano que compôs daí em diante – Loriod tornar-se-ia também a segunda esposa de Messiaen, em 1959, após o falecimento da primeira.

Visions de l’Amen é uma suíte em sete andamentos – “Ámen da Criação”, “Ámen das Estrelas, do Planeta com Anel”, “Ámen da Agonia de Jesus”, “Ámen do Desejo”, “Ámen dos Anjos, dos Santos, do Canto das Aves”, “Ámen do Julgamento” e “Ámen da Consumação” – que atinge por vezes uma densidade sinfónica e cuja execução integral se estende por quase três quartos de hora. A partitura inclui uma nota de Messiaen com as inflamadas divagações místicas que lhe são características e onde se cruzam a sua profunda fé cristã e considerações sobre numerologia.

[N.º 7 “Ámen da Consumação”, por Thomas Adès e Gloria Cheng, ao vivo no Zipper Hall, Los Angeles, 2015. O “Ámen da Consumação” é, segundo Messiaen, uma “evocação dos corpos gloriosos no Paraíso”]

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