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Folhas de Outono
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Dez versões clássicas de “Autumn in New York”

O Outono em Lisboa é mais ameno que em Nova Iorque, mas nestas paragens as folhas outonais nunca atingem o esplendor que se vê no Central Park.

Por José Carlos Fernandes
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“Autumn in New York” foi composta por Vernon Duke no Verão de 1934, quiçá tentando repetir o sucesso que obtivera dois anos antes com outra canção sobre estações-do-ano-em-cidades-famosas: “April in Paris”. A canção surgira sem um propósito definido, mas não tardou a surgir ensejo para o seu uso, quando Duke soube que o produtor John Murray Anderson precisava de uma canção que louvasse os encantos outonais de Nova Iorque para o musical Thumbs Up!. Duke propôs “Autumn in New York”, esta foi aceite e Thumbs Up! estreou a 27 de Dezembro de 1934.

O acolhimento foi morno, o musical saiu de cena após 156 representações e “Autumn in New York” ficou esquecida até que, em 1947, Frank Sinatra pegou nela e a converteu num sucesso. “Autumn in New York” tornou-se mesmo numa espécie de “hino não-oficial de Nova Iorque” entre os cantores de inclinações jazzísticas, até à aparição em 1977 da espalhafatosa “New York, New York”, composta por John Kander (música) e Fred Ebbs (letra) para o filme homónimo de Martin Scorcese, e que seria celebrizada por Liza Minelli e (novamente) por Frank Sinatra.

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Dez versões clássicas de “Autumn in New York”

1. Jo Stafford

Ano: 1947
Álbum: Autumn in New York (Capitol)

A cantora Jo Stafford (1917-2008), que ganhara fama como voz principal do grupo Pied Pipers e rubricara vários êxitos, acompanhada pela orquestra de Paul Weston, para a Capitol e para a Columbia, foi das primeiras a apanhar a “onda” criada pela versão de Sinatra e em Outubro-Dezembro de 1947, com arranjos e direcção de Paul Weston, registou “Autumn in New York” e mais sete canções. O álbum, que recebeu o título Autumn in New York, foi editado apenas em 1950 como LP de 10’’ (seria reeditado em 1955, como LP de 12’’, com quatro canções extra).

2. Billie Holiday

Ano: 1952
Álbum: A Recital by Billie Holiday (Verve)

Billie Holiday gravou “Autumn in New York” em 1952, com um combo formado por Charlie Shavers (trompete), Flip Philips (saxofone), Barney Kessel (guitarra), Oscar Peterson (piano), Ray Brown (contrabaixo) e Alvin Stoller (bateria), na sessão em que gravou várias canções que deram origem ao LP de 10’’ An Evening with Billie Holiday, editado em 1953 pela Clef de Norman Granz e cuja capa ostenta um retrato tão pavoroso da cantora que seria mais adequado a um álbum intitulado An Evening with the Living Dead. O disco seria reeditado em 1956 como LP de 12’’ pela Verve, com quatro canções extra, um novo título – A Recital by Billie Holiday – e a mesma capa hedionda.

Embora este tenha sido reeditado em CD, hoje não será fácil obtê-lo, pois foi abatido ao catálogo, em favor de uma profusão de compilações que recombinam as gravações de Holiday na Clef/Verve sem critério aparente – de qualquer modo, muitas delas incluem o “Autumn in New York” de 1952.

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3. Gene Krupa

Ano: 1954
Álbum: The Driving Gene Krupa (Clef)

Charlie Shavers, o trompetista no “Autumn in New York” de Holiday, volta a estar em destaque neste disco de Gene Krupa (1909-1973), que disputara com Buddy Rich (1917-1987) o lugar cimeiro da popularidade dos bateristas da Era do Swing e ainda desfrutava de estatuto cimeiro no início da década de 1950.

O álbum foi registado a 2 de Fevereiro de 1954 com Bill Harris (trombone), Eddie Davis (saxofone), Teddy Wilson (piano) e Ray Brown (contrabaixo) e foi editado como The Driving Gene Krupa (algumas edições apresentam-no como The Gene Krupa Sextet Album #3 – sim, as edições Clef/Verve do início dos anos 50 são um quebra-cabeças).

4. Bud Powell

Ano: 1953
Álbum: The Amazing Bud Powell vol. 2 (Blue Note)

As edições da Blue Note da viragem dos anos 40/50 nem sempre são mais claras. A sessão de 14 de Agosto de 1953 do pianista Bud Powell com George Duvivier (contrabaixo) e Art Taylor (bateria) que contém este “Autumn in New York” começou por ser editada em 1954 como LP de 10’’ e oito faixas com o título The Amazing Bud Powell vol. 2, e dois anos depois foi expandido a LP de 12’’ e 12 faixas (com extras provenientes de sessões de 1949 e 1951), que passou por diferentes configurações nas reedições em CD.

Neste “Autumn in New York” sopra um vento caprichoso, que faz as folhas secas descrever trajectórias imprevisíveis.

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5. Modern Jazz Quartet

Ano: 1953
Álbum: Django (Prestige)

Antes da implantação do LP de 12’’ como padrão editorial no meio do jazz, a partir de 1956, a vacilação entre os formatos 10’’ e 12’’ foi propícia a abundantes confusões. Em 25 de Junho de 1953, o Modern Jazz Quartet – Milt Jackson (vibrafone), John Lewis (piano), Percy Heath (contrabaixo) e Kenny Clarke (bateria) – registou quatro faixas, uma das quais “Autumn in New York”, que foram editadas nesse mesmo ano como LP de 10’’ intitulado Modern Jazz Quartet; sessões realizadas a 23 de Dezembro de 1954 e 9 de Janeiro de 1955 produziram outras quatro faixas, editadas em 1955 como LP de 10’’ intitulado Modern Jazz Quartet vol.2. No ano seguinte, os dois LPs de 10’’ foram fundidos num LP de 12’’ com o título Django, a partir da composição com o mesmo nome de Lewis, escrita em homenagem ao guitarrista manouche Django Reinhardt.

O “Autumn in New York” do MJQ é sereno e ganha no final uma atmosfera impressionista e feérica.

6. Teddi King

Ano: 1957
Álbum: A Girl and Her Songs (RCA)

No final da década de 50, Teddi King tinha conseguido reconhecimento crítico e um modesto sucesso comercial, mas problemas de saúde interromperam-lhe a carreira e só voltaria a gravar em meados dos anos 70. Hoje só os fãs de jazz vocal dos anos 50 se lembram da sua existência, o que é uma grave injustiça para a autora desta versão de “Autumn in New York”, incluída no seu 6.º álbum e gravada com uma orquestra arranjada e dirigida por George Siravo.

Ao contrário da maioria dos cantores, King não suprime as duas primeiras estrofes: “É altura de terminar estas férias solitárias/ E despedir-me apressadamente do campo/ Neste dia cinzento e melancólico/ Mudar-me-ei para um hotel em Manhattan// Descartarei o meu guarda-roupa rosa/ E preparar-me-ei para o meu quinhão de aventuras e combates/ Aqui, neste 27.º andar,/ Contemplando a cidade que odeio e amo”.

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7. Frank Sinatra

Ano: 1957
Álbum: Come Fly With Me (Capitol) Sinatra já tinha gravado a canção em 1947, obtendo grande sucesso, mas no início dos anos 50 a carreira do cantor passou por um período de declínio, de onde só saiu com a série de álbuns registados, a partir de 1953, com a orquestra de Nelson Riddle. A colaboração regular com este foi interrompida em 1957, quando Sinatra se associou ao arranjador Billy May, para gravar Come Fly With Me (um disco “conceptual”, em que todas as canções aludem a lugares distantes ou viagens). A versão de 1957 supera a gravada 10 anos antes, com Sinatra a impregnar de mágoa o trecho “is often mingled with pain” e a envolver numa aura melancólica as palavras “dreamers with empty hands may sigh for exotic lands”.

8. Ahmad Jamal

Ano: 1958
Álbum: Ahmad Jamal Trio vol. IV (Argo) As sessões de 5 e 6 de Setembro de 1958 no The Spotlite Club, em Washington DC, com Ahmad Jamal (piano), Israel Crosby (contrabaixo) e Vernel Fournier (bateria) produziram dois álbuns editados pela Argo: Ahmad Jamal Trio vol.4 (editado em 1958 e que conheceu reedições sob diversos títulos) e Portfolio of Ahmad Jamal (editado em 1959). Os dois seriam reunidos pela editora Gambit no álbum Complete Live at the Spotlite Club 1958, que, com este título ou outro similar e sob diversas etiquetas, é hoje a forma mais corrente de aceder a esta música – que é, como a que o trio tocou em Janeiro de 1958 no Pershing Hotel, em Chicago, uma peça indispensável de qualquer discoteca jazz.

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9. Ernestine Anderson

Ano: 1958
Álbum: It’s Time for Ernestine (Metronome)

Ernestine Anderson (1928-2016) iniciara carreira profissional aos 18 anos, andando em tournée durante um ano com a orquestra de Johnny Otis. Quando gravou o seu álbum de estreia em nome próprio, em 1956, com orquestra arranjada e dirigida por Harry Arnold, já tinha, pois, uma sólida experiência, que incluía uma tournée de três meses pela Suécia. E foi na Suécia que It’s Time for Ernestine foi editado originalmente, pela Metronome, chegando aos EUA, pela mão da Mercury, poucos meses depois, sob o título Hot Cargo.

A voz e os arranjos são sumptuosos, mas o tempo para a afirmação de Ernestine Anderson não chegou, nem com este nem com os outros excelentes álbuns que gravou na viragem das décadas de 1950/60.

10. George Russell

Ano: 1958-59
Álbum: New York, NY (Decca, reed. Impulse!)

O programa do 2.º álbum do compositor e maestro George Russell, New York, NY, inclui, além das composições de temática nova-iorquina do próprio, o tema “Manhattan” (de Richard Rodgers & Lorenz Hart) e um “East Side Medley” que aglutina “Autumn in New York” e “How About You? (de Burton Lane & Ralph Freed). As ousadas concepções musicais de Russell conquistaram a estima dos seus pares, mas nunca as do público e nem os nova-iorquinos mostraram grande interesse por este álbum conceptual em torno da Big Apple, pese embora a qualidade das partituras e da big band de elite recrutada por Russell, onde brilhavam nomes como Art Farmer, Bob Brookmeyer, Phil Woods, John Coltrane, Benny Golson, Bill Evans ou Max Roach.

No “East Side Medley”, “Autumn in New York” estende-se até aos 4’30.

Outono em lisboa

Círculo Ecuestre
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Adeus Verão, olá festivais de Outono

Música

Falamos habitualmente deles na altura do calor, mas cada vez mais os festivais acompanham-nos ao longo de todo o ano. O mês de Outono começa com o Santa Casa Alfama, que enche (ainda mais) o bairro de Alfama de fado, e termina com o Super Bock em Stock e música indie na Avenida da Liberdade e nas ruas paralelas. Pelo meio, há ainda o barreirense OUT.FEST, o Jameson Urban Routes ou o Misty Fest. Eis os festivais de Outono a não perder em Lisboa e arredores nos próximos meses. Aponte na agenda. Recomendado: Concertos em Lisboa

Outono
©Crisferrari1500

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Quando mais alto está, maior é a queda. O provérbio português tanto é verdade metaforica como literalmente – é o caso das folhas e das suas flutuantes saltos para o precipício. Quem de baixo olha, bonito lhe parece. Também deve haver um adágio nacional equivalente. Por isso, vestimos o casaco e fomos à procura dos melhores sítios para a prática deste desporto outonal e contemplativo: ver as folhas, no seu vestusto castanho avermelhado, a desprenderem-se dos ramos e a regressar à terra, para dali vir vida nova. E pode fazê-lo com mantinha sobre o joelho e em plena happy hour. Do que precisa mais?

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