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Importa-se de traduzir? Canções que foram escritas numa língua e fizeram sucesso noutra

Não são plágios nem imitações. São versões assumidas, mas cantadas noutras línguas. E que com o tempo fizeram esquecer os originais.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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No tempo em que não havia Internet e a globalização ainda se fazia ouvir com delay, era comum uma canção fazer sucesso numa língua, sem que a maioria do público alguma vez percebesse que estava a trautear uma toada estrangeira. O caso mais frequente, como se adivinha, é o de uma canção que se celebriza em inglês apesar de ter sido composta em italiano, francês ou outra língua que não gruda bem nos ouvidos americanos. Mas não só. Por exemplo, “Les Champs Élysées”, que foi popularizada por Joe Dassin, fez o percurso contrário.

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Oito canções que foram escritas numa língua e fizeram sucesso noutra

“Autumn Leaves / Les Feuilles Mortes”, Édith Piaf (1950)

Esta não será grande segredo para ninguém, até porque Édith Piaf fez o favor de, logo em 1950, juntar as duas versões na mesma gravação. A canção foi composta por Joseph Kosma em 1945 e o título original, dado pelo texto em francês de Jacques Prévert, é “Les Feuilles Mortes”. Foi pensada para a banda sonora de Les Portes de la Nuit, filme sem grande memória realizado em 1946 por Michel Carné, e a primeira gravação em disco foi feita em 1950 por Yves Montand. Ainda na década de 50, faria sucesso nas vozes de Bing Crosby (1950), Nat King Cole (1955), Doris Day (1956) e Frank Sinatra (1957); e seria adoptada como tema instrumental por gente como Artie Shaw (1950), Stan Getz (1952), Erroll Garner e Ahmad Jamal (ambos em 1955), Duke Ellington (1957), e Cannonball Adderley com Miles Davis (1958).

Curiosidade: Philippe Baudoin, compositor e historiador do jazz, chama-lhe “o mais importante standard não-americano”. Baudoin é francês, é certo, mas apoia a afirmação em números: pelas suas contas, o tema foi gravado mais de 1400 vezes por artistas de jazz, o que faz dele o oitavo standard mais registado de sempre. Depois, há ainda que somar largas centenas de versões pop-rock.

“It’s Now or Never”, Elvis Presley (1960)

Esta só vai surpreender quem nunca prestou atenção, mas também é para isso que aqui estamos. De todos os singles milionários de Elvis Presley, “It’s Now or Never” é o recordista, com mais de 20 milhões de cópias vendidas. Ora, acontece que a canção é uma versão quase directa de uma outra escrita seis décadas antes, ainda Umberto I era rei de Itália. “O Sole Mio” foi escrita originalmente em dialecto napolitano pela dupla Giovanni Capurro e Eduardo di Capua, e ao longo do século XX integrou naturalmente o cancioneiro popular transalpino. Antes de Presley, a canção tivera já uma outra versão inglesa, “There’s No Tomorrow”, celebrizada em 1949 por Tony Martin e, uns anos mais tarde, por outro Martin ainda mais famoso, de seu primeiro nome Dean.

Curiosidade: É uma história de morrer a rir que envolve a versão “There’s No Tomorrow”. Em 1958, após pôr uma sala inteira às gargalhadas em Beverly Hills, o comediante Harry Einstein (também conhecido por "Parkyarkarkus") sofreu um ataque cardíaco. Naquele instante de emergência, foi pedido ao cantor Tony Martin que distraísse a sala enquanto o homem era assistido. Mas a única coisa que lhe ocorreu cantar foi – lá está – “There’s No Tomorrow”. E não houve, realmente: Parkyarkarkus foi a enterrar no dia seguinte.

“O Sole Mio”, Giovanni Capurro e Eduardo di Capua (1898), versão de Lucciano Pavarotti.

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“You Don’t Have to Say You Love Me”, Dusty Springfield (1966)

Entre 1963 e 1989, Dusty Springfield inscreveu 20 singles no Billboard Hot 100 e 16 no UK Singles Chart. Este é um daqueles que esteve em ambos. “You Don't Have to Say You Love” foi lançado em 1966 e permanece como uma das canções de assinatura da norte-americana. É a versão inglesa da canção italiana "Io Che Non Vivo (Senza Te)", de Pino Donaggi. O original italiano chegou à final do Festival de Sanremo em 1965 (foi aí que Springfield, que concorria nessa edição, a ouviu) e alcançou o n.º 1 do top italiano em Março desse ano.

Curiosidade: “You Don’t Have to Say You Love” atravessou várias décadas e penteados e voltou regularmente aos tops com novas versões de outros artistas. Elvis Presley levou-a de volta ao Billboard Hot 100 em 1971 (n.º 11) e ao top britânico (n.º 9). A canção voltaria a figurar no UK Singles Chart em 1976, na versão dos Guys 'n' Dolls (n.º 5), e em 1995, interpretada por Denise Welch (n.º 23). É um sucesso cíclico que, aposta-se, um destes dias há-de regressar na voz de uma nova diva.

“Io Che Non Vivo (Senza Te)”, Pino Donaggio (1965)

“My Way”, Frank Sinatra (1969)

É um daqueles casos evidentes em que a versão expatriou o original para a terra do esquecimento. Do repertório colossal de Sinatra, “My Way” arrisca ser a canção mais cantada, reproduzida e imitada, entre as centenas de covers (em que, obviamente, se destaca o delicioso “A Mi Manera”, dos Gipsy Kings) e os milhões de interpretações anónimas e alcoolizadas em bares de karaoke de todo o mundo. E no entanto, “My Way” é, ela mesma, um cover de “Comme d’ Habitude”, composto por Jacques Revaux, com texto e interpretação de Claude François. Foi Paul Anka quem, em 1967, ouviu o original em França e decidiu reescrever o texto em inglês para Sinatra.

Curiosidade: “My Way” é, provavelmente, a mais mortífera canção alguma vez escrita. A sua letalidade foi diagnosticada nas Filipinas, país há muitos anos assolado por uma violenta epidemia de karaoke. Há registo de, pelo menos, sete mortes resultantes de desacatos violentos em bares que começaram por discussões em torno de interpretações da canção ao microfone. Algumas, nascidas de acusações de desafinação. O fenómeno, reconhecido pelas autoridades do país, é referido como “My Way Killings”.

“Comme d’habitude”, Claude François (1967)

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“Les Champs Élysées”, Joe Dassin (1969)

É outro daqueles casos em que a versão fez esquecer o original, mas aqui passa-se ao contrário: foi adaptada do inglês para o francês. Em 1969, Joe Dassin chilreava sobre a graça e os encantos dos Campos Elísios, da Praça da Concórdia ao Arco do Triunfo, dos cafés e esplanadas, das montras de sonhos e dos passeios de namorados. O que muita gente não saberá é que a canção original fala da bem menos sedutora Waterloo Road, estendida entre St. George's Circus e a ponte de Waterloo sobre o Tamisa. Foi escrita em 1967 pelos Jason Crests, banda britânica que nasceu no ano anterior e desapareceu no seguinte sem deixar grande rasto nem memória.

“Waterloo Road”, Jason Crest (1968)

“Minha História”, Chico Buarque (1971)

Em 1969, Chico Buarque exilou-se em Roma, fugindo à repressão dos anos de chumbo do regime militar brasileiro. Foi então que estabeleceu uma relação profunda com a cultura italiana e foi aí que começou a construir um dos seus maiores monumentos em disco. Construção, que sairia em 1971 (faz 50 anos, palmas!), é um disco de dez canções inéditas que hoje nos soa a colectânea ("Deus Lhe Pague", "Cotidiano", "Construção", "Samba de Orly", "Valsinha" …) A penúltima delas, “Minha História”, é uma adaptação de “Gesubambino”, um original de Lucio Dalla, que foi apresentado pela primeira vez no Festival de Sanremo e trepou ao n.º 1 do top italiano nesse mesmo ano de 1971.

“Gesubambino”, Lucio Dalla (1971)

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“Gloria”, Laura Branigan (1982)

Em 1982, Laura Branigan bateu um recorde com esta música: manteve-se 36 semanas no Billboard Hot 100, o máximo que uma artista mulher alguma vez alcançara até à data. No auge do êxito, “Gloria” chegou à segunda posição do top norte-americano. A canção é uma versão do original de Umberto Tozzi, lançado em 1979.

Curiosidade: “Gloria” foi incluído no álbum de estreia da norte-americana, o homónimo Laura Branigan, que em 1982 passou relativamente despercebido nos tops portugueses. Já a canção original de Umberto Tozzi, mais ou menos ignorada fora da Europa continental, tinha atingido o número 3 do top nacional de singles em 1980. Porém, dois anos e dois álbuns mais tarde, Branigan tornar-se-ia omnipresente nas rádios portuguesas com outra canção. Chamava-se “Self Control” e foi o quarto single mais vendido por cá no ano da graça de 1984.

“Gloria”, Umberto Tozzi (1972)

“Torn”, Natalie Imbruglia (1997)

Já lhe tínhamos trazido este caso numa outra lista (canções que provavelmente não sabia que são covers) e recuperamo-la aqui. A maior parte do mundo que conhece a australiana Natalie Imbruglia conhece-a pelo single “Torn”, que foi êxito global em 1997. Outra parte mais pequena do mundo que conhece os Ednaswap, banda que medrou em Los Angeles durante cinco anos, conhece-os por terem composto “Torn”, lançado no seu álbum de estreia em 1995. E pouca gente fora da Escandinávia conhecerá Lis Sørensen, a primeira a gravar a canção, dois anos antes, sob o título “Brændt” — que na romanticíssima língua dinamarquesa significa “Queimada”.

“Brændt”, Lis Sørensen (1993)

Música para os seus ouvidos

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