Magnificat de Bach na Gulbenkian – e outras versões que merecem ser ouvidas

Ton Koopman dirige, na Fundação Gulbenkian, o Magnificat de Bach, a mais famosa das muitas versões que este texto conheceu ao longo da História da Música. Recordam-se em seguida nove outras que também merecem ser ouvidas
Visitação de Fra Angelico
Visitação de Fra Angelico
Por José Carlos Fernandes |
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Pouco depois de ter recebido do Arcanjo Gabriel a notícia de que do seu ventre iria nascer Jesus, filho de Deus – o episódio conhecido como “Anunciação” – Maria foi visitar a sua prima Isabel, que, residia numa cidade da Judeia que alguns estudiosos identificam como Hebron – episódio usualmente designado como “Visitação”. Isabel ia por esta altura no sexto mês de gravidez daquele que viria a ser conhecido como S. João Baptista e este, mesmo através do ventre da mãe e do líquido amniótico, sentiu a presença do Messias no ventre de Maria e agitou-se de tal modo que também Isabel percebeu a graça que descera sobre Maria e saudou-a com as palavras “Bendita sois vós entre as mulheres e bendito seja o fruto do vosso ventre”. Maria respondeu com um cântico de acção de graças, onde se misturam o júbilo por uma criatura tão humilde te sido escolhida para tão grandioso desígnio e a celebração do poder divino – o Magnificat. Muitos foram os compositores que revestiram este texto de música que, dada a natureza da ocasião, é invariavelmente luminosa e exaltante.

O Magnificat de Bach na Fundação Gulbenkian

Ton Koopman, um profundo conhecedor da obra de Bach, dirigirá o Coro & Orquestra Gulbenkian e um elenco solista que, além do seu fiel baixo Klaus Mertens, contará com Eduarda Melo (soprano), Maarten Engeltjes (contratenor) e Marco Alves dos Santos (tenor). O programa inclui Magnificat BWV 243 e o Concerto Brandenburgês n.º 3 BWV 1048, de Bach, e a o hino The Ways of Zion Do Mourn (1737), também conhecido por Funeral Anthem for Queen Caroline HWV2 64, de Handel.

Fundação Gulbenkian: quinta-feira 9, 21.00, e sexta-feira 10, 19.00, 15-30€.

10 Magnificats obrigatórios

Camera

Dufay

Guillaume Dufay (c.1397-1474) foi dos primeiros compositores a musicar o Magnificat – e fê-lo por cinco vezes. Dufay nasceu provavelmente perto de Bruxelas, mas terá ido viver ainda em criança para Cambrai, em cuja catedral cantou como menino de coro e à qual ficou associado ao longo da vida, apesar das estadias em Itália, onde trabalhou para o cardeal Louis Aleman, em Bolonha, e para os papas Martinho V e Eugénio IV, em Roma. Após ter sido músico da corte de Sabóia, regressou ao serviço de Eugénio IV, agora em Florença (onde o papa se refugiara devido ao ambiente tumultuoso em Roma). A situação instável em Itália fez Dufay regressar a Cambrai, mas voltaria a empreender viagens a Sabóia e Itália, antes de se instalar definitivamente em Cambrai, onde foi nomeado cónego da catedral. Foi um dos maiores compositores do século XV.

Camera

Palestrina

Giovanni Pierluigi da Palestrina (c.1525-1594) foi um dos mais prolíficos e influentes compositores da Renascença. Nasceu em Palestrina, perto de Roma, aos 12 anos era menino de coro na basílica de Santa Maria Maggiore e passou boa parte da vida como mestre de capela nas principais igrejas de Roma – S. João Latrão, Santa Maria Maggiore, S. Pedro. Entre a sua vasta produção contam-se 35 Magnificats.

[Magnificat primo toni, pelo Choir of Royal Holloway, London]
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Lassus

Palestrina seria, com larga vantagem, o maior compositor de Magnificats da História da Música, não fosse o caso de Orlandus Lassus (c.1532-1594) ter composto mais de uma centena. Lasso nasceu em Mons, no que é hoje a Bélgica, e foi adoptando diferentes nomes ao longo da sua carreira internacional (os francófonos preferem chamar-lhe Roland de Lassus, os italianos Orlando di Lasso), que passou por Mântua, Milão, Nápoles, Roma e Munique – foi nesta última cidade que exerceu o posto de mestre de capela dos duques da Baviera entre 1563 e a sua morte. O Magnificat Praeter Rerum Seriem secundi toni abaixo apresentado usa como matéria-prima o moteto Preater Rerum Seriem de Josquin Desprez (que também serviu de base a uma missa de Cipriano de Rore).

[Magnificat Praeter Rerum Seriem secundi toni a seis vozes, pelo ensemble De Labyrintho, dirigido por Walter Testolin]
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Lobo

Duarte Lobo (1565-1646) é um dos nomes maiores da “era de ouro” da polifonia portuguesa. Tal como Filipe de Magalhães e Manuel Cardoso, este natural de Alcáçovas, no Alentejo, foi aluno de Manuel Mendes na Sé de Évora, onde viria, mais tarde, a desempenhar o cargo de mestre de capela. Seria também mestre no Hospital Real de Lisboa e na Sé de Lisboa, onde ficaria até 1639. Deixou-nos oito Magnificats, do I ao VIII tom.

[Magnificat octavi toni, pelo Pro Cantione Antiqua, dirigido por Mark Brown, do disco Voces Angelicae: Música sacra portuguesa da Renascença (Teldec)]
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Monteverdi

De Claudio Monteverdi (1567-1643) chegaram-nos quatro Magnificats. O mais conhecido é o luxuriante Magnificat septem vocibus et sex instrumentis (a sete vozes e seis instrumentos), das Vespro della Beata Vergine (1610), em que cada versículo tem um tratamento diferente, numa prodigalidade de invenção que faz a maior parte dos compositores parecer avarentos. Embora Monteverdi seja contemporâneo de Duarte Lobo, os Magnificats deste estão firmemente ancorados na tradição polifónica renascentista, tendo Palestrina como modelo, enquanto o Magnificat septem vocibus de Monteverdi é uma obra que pertence claramente ao barroco. As Vespro della Beata Vergine incluem, como opção, um Magnificat menos opulento, para seis vozes e órgão, e a colecção Selva Morale e Spirituale (1640), contém mais dois, um para oito vozes e instrumentos e outro para quatro vozes e baixo contínuo.

[Magnificat septem vocibus et sex instrumentis, pelo ensemble La Fenice, dirigido por Jean Tubéry]
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J.S. Bach

De acordo com investigações recentes, o Magnificat BVW 243 estreou a 2 de Julho de 1723, data correspondente à Festa da Visitação, na Thomaskirche de Leipzig, onde Johann Sebastian Bach assumira, dois meses antes, o posto de Kantor. Voltaria a ser ouvido, agora na Nikolaikirche, dia de Natal desse ano, data que, durante muito tempo, se acreditou ter sido a da estreia. Se a ideia era impressionar os seus novos empregadores, o Magnificat não poderia ser mais convincente: é uma obra de um colorido e vitalidade deslumbrantes, apoiado num rico instrumentário com três trompetes, timbales, duas flautas, dois oboés, fagote, cordas e baixo contínuo, para lá de cinco vozes solistas e coro a cinco vozes. Para a Festa da Anunciação de 1733, Bach transpôs a tonalidade original (mi bemol maior) para ré maior e fez ajustamentos na orquestração – é a versão de 1733 que hoje costuma ser executada.

[I andamento (“Magnificat Anima Mea”), pelo Coro & Orquestra Barroca de Amesterdão, dirigidos por Ton Koopman, ao vivo na Thomaskirche de Leipzig, 2003]
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Zelenka

O boémio Jan Dismas Zelenka (1679-1745) trabalhou durante a maior parte da vida para a sumptuosa corte de Dresden, embora nunca tivesse conseguido obter o cobiçado posto de mestre de capela. A sua produção inclui dois Magnificats (um terceiro perdeu-se), tendo o ZWV 108, em ré maior, sido composto em 1725. O estilo de Zelenka combina a invenção melódica italiana com a densidade polifónica germânica e tem afinidades genéricas com o de Bach, que tinha a sua música em grande estima, a ponto de ter instruído o seu filho mais velho, Wilhelm Friedemann, para copiar um trecho do Magnificat ZWV 108 a fim de ser usado na Thomaskirche.

[Magnificat ZWV 108, pelo Bach Collegium Japan, dirigido por Masaaki Suzuki (BIS)]

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C.P.E. Bach

O Magnificat Wq.215 (H.772) de Carl Philipp Emanuel Bach foi composto em 1749, quando estava em Berlim ao serviço de Frederico II da Prússia e é a sua primeira obra sacra e também a única que compôs nos seus anos berlinenses, que se estendem de 1738 a 1768. Uma vez que as atribuições de CPE Bach na corte de Frederico II tinham a ver com música de câmara, ignora-se para que fim terá sido composto este Magnificat – uma possibilidade é que fosse uma peça de candidatura ao posto de mestre de capela da princesa Amália, irmã de Frederico, outra é que visaria o posto de Kantor em Leipzig, uma vez que por esta altura o seu pai já estaria gravemente enfermo. A ser verídica a segunda hipótese, CPE Bach deve ter assumido que o concelho municipal de Leipzig pretenderia uma “evolução na continuidade”, pois o seu Magnificat segue de perto (até na tonalidade de ré maior) o de Johann Sebastian, mas apresenta uma textura menos contrapontística, mais consoante com o estilo então em voga.

[I andamento (“Magnificat Anima Mea”), pelos Stuttgarter Hymnus-Chorknaben, RIAS Kammerchor e Akademie für Alte Musik Berlin, dirigidos por Hans-Christoph Rademann]

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Howells

Após uma profusão de Magnificats da Idade Média até ao final do Barroco, os grandes compositores do Classicismo revelaram escasso interesse em musicar o texto, os do Romantismo ignoraram-no e as vanguardas do início do século XX pouco compuseram no domínio sacro. Porém, a veneranda e sólida tradição coral britânica levou a que vários compositores do lado de lá do Canal destinassem obras aos muitos coros de rapazes do país. Um dos mais importantes compositores britânicos de música sacra do século XX, Herbert Howells (1892-1983) compôs dois Magnificats (acoplados ao cântico Nunc Dimittis), um em 1945, para o King’s College, de Cambridge (conhecido como “Collegium Regale”) e outro em 1951, para a catedral de St. Paul, em Londres (conhecido como “St. Paul”).

[Magnificat & Nunc Dimittis (Collegium Regale), pelo Coro do Trinity College, de Cambridge, dirigido por Stephen Layton]
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Pärt

O estónio Arvo Pärt (n. 1935) é um dos mais proeminentes compositores de música sacra do nosso tempo. O seu Magnificat foi composto em 1989 e afasta-se do tom exultante usual nos seus congéneres e tem a beleza estática, velada e solene, típica da música do compositor.

[Pelo Erebus Ensemble, ao vivo no Clifton International Festival of Music, na Clifton Cathedral, Bristol]

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