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Manel Cruz
©PN+MC Manel Cruz

Manel Cruz: “Não consigo ler livros. Não gosto”

“Vida Nova” é o primeiro álbum em nome próprio. O compositor fala sobre essa coisa estranha e especial que é a nobre arte de fazer canções.

Por Ana Patrícia Silva
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A alma inquieta de Manel Cruz já o levou a projectos como Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido, Pluto ou Supernada. Vida Nova é o livro-disco que lança nesta sexta-feira. Vamos vê-lo ao vivo em três concertos: em Carnaxide (dia 12), em Almada (dia 13) e no Capitólio, em Lisboa, a 1 de Maio.

Como é que este disco começou?
Não lançava um disco há sete anos e não é que tenha desistido de fazer música, mas ia nadando. Na reunião dos Ornatos estive só naquilo e depois mais um ano ou dois a gastar o dinheiro que ganhei. Senti aquela pressão de fazer alguma coisa e sentia-me um bocado desabituado e desinspirado. Entrei num capítulo depressivo, não me saía nada. Comecei então a vir para o estúdio tipo função pública. Fazia uma música por dia e muitas deitava logo ao lixo. O trabalho que fazes para trás serve para realização pessoal, mas tem um lado perverso: não te vai servir para sempre. Um artista acaba por se sentir sempre no zero. Tens que te reinventar, precisas de encontrar o retorno daquilo que és naquilo que fazes. Comecei a fazer músicas com o ukulele, a regressar às raízes: para fazer alguma coisa, tenho de ser capaz de fazer com pouco.

Como é que concebeste o livro que acompanha o disco?
Lembrei-me de escrever nas paredes. Perguntei a um empreiteiro amigo se tinha alguma casa antes de ser remodelada que eu pudesse espatifar à vontade. Fui para lá com o Jorge Quintela, que é realizador, fotógrafo, músico. É um artista com uma visão poética das coisas. Fomos percebendo como é que íamos fazer – se era como um artista a intervir nas paredes ou se era mais violento, como estivesse lá um agarrado a desenhar. Passado uma semana, filmei os gajos a deitar abaixo aquilo tudo.

Que tal foi veres o teu trabalho a ser destruído?
Foi muito fixe... [risos] O poder dessa cena é engraçado, porque sabes que vai ser destruído. Sabes que aquilo acaba por ser imortalizado por esse facto, mais imortalizado do que se continuasse nas paredes.

Tens tido projectos a solo, mas nunca verdadeiramente a solo. Aqui também estás rodeado por músicos.
Eu tenho muitas ideias, mas não são todas boas. O input que outro gajo me vai dar vai ser sempre mais original, porque vai criar um mutante daquilo que eu projectei, que não é dominado por nenhum de nós. Tem um factor de abismo que é muito mais rico. Ter que lidar com outra pessoa dá mais trabalho, mas é muito mais desafiante, porque te coloca numa posição mais frágil.

O disco tem muitos instrumentos, mas apesar disso é pouco denso.
Tinha uma vontade de simplificar. Tentei que as ideias mais simples se afirmassem e sobrevivessem no tempo. Numa época em que há coisas incríveis a acontecer, e muitas delas revolucionárias, sobretudo na experimentação tecnológica, começou a atrair-me a ideia de fazer um disco de canções simples. Muitas vezes neste disco apequenámos as coisas. Queríamos que a força não tivesse a ver com o impacto sonoro, queríamos jogar nas fragilidades, na singeleza.

Ao longo da tua carreira tens mostrado que és um músico inquieto e insatisfeito. De onde vem esse desassossego?
Acho que há uma vontade de criar um espaço alternativo a toda a realidade que sabes que não consegues mudar e à qual tens que te adaptar. Tens que ter um mundo onde possas ser o mais livre possível. Na arte não podes fazer concessões, mas às vezes esse teu espaço criativo é aquilo que te vai dar dinheiro. O mais importante desta coisa criativa é a tua comunicação contigo próprio. É teres um espaço para brincar como quando és puto. Se essa inquietude se resumir à parte criativa, é muito benigna. Quando começas a questionar por que não estás a funcionar socialmente é que as coisas são mais duras. Não consigo imaginar a criação sem inquietude. Agora já começo a perspectivá-la com prazer, com liberdade, sem medo.

O que te motiva hoje para criar?
Há momentos em que um gajo está mais deprimido e parece que a coisa já secou, mas depois voltas a sentir-te um puto. Continuo com o mesmo entusiasmo, mas nem a coisa é totalmente pura nem totalmente metódica e manipulada. Há uma parte que tem a ver com uma necessidade quase fisiológica de sobrevivência do ser humano, de criar coisas. Quase como uma droga, algo que te ajude a suportar a existência. E isso é muito especial e vale pelo processo, nem tem a ver com a finalidade. Depois há uma outra parte que é mais da vaidade e da aceitação. Se achares que as pessoas só vão gostar de ti porque fazes coisas fixes, é uma merda, não é assim que as coisas funcionam. Tens que lutar para que as pessoas gostem de ti, mesmo que o teu trabalho não seja especial. E para isso ajudam as fases em que não fazes nada de jeito e percebes que há pessoas que estão-se cagando para isso e que gostam de ti.

Este disco é de certa forma positivo, afirma uma vontade de viver.
Isso foi um reflexo do que eu estava a viver, mas também uma vontade que eu tinha de estar bem e de transmitir isso para os outros. Mas se estás numa fase lixada não podes forçar-te. Tens de tentar ter alguma honestidade. Alguma. Porque toda a honestidade não sei se algum dia um gajo vai conseguir, nem sei se interessa, não sei se alguém quer ouvir as tuas merdas. Ninguém tem paciência para ouvir um gajo ser completamente honesto. Havia pelo menos uma vontade de estar bem. É aquela cena de perceberes que tens Manel Cruzmais vida para trás do que para a frente, portanto há sérios riscos de eu já estar mais definido no que já fiz do que no que vou fazer. Já fiz a minha penitência. Apesar de saber que sou egocêntrico, não duvido que preciso dos outros, e que vivo para os outros. Quero ajudar a fazer um mundo mais fixe.

As tuas músicas partem das tuas experiências mas também de observações. Como é que as fazes?
Não sou muito informado do ponto de vista político. Não consigo ler livros, disperso-me, não gosto de ler. Eu sou muito virado para o próprio prazer. Se uma coisa não me dá pica aprender, não me esforço nada. Tenho a minha análise da sociedade que não acho que seja inválida. Sou muito atento às pessoas. Gosto muito de ouvir pessoas que não têm nada a ver com o meio  artístico e que dizem coisas completamente reveladoras. O conhecimento é uma coisa global, está em tudo.

Como é que um gajo que não gosta de ler consegue escrever como tu?
Isso é um mito. A sociedade adora cenas absolutas, detesta estar perdida, e enquanto não assumir que está perdida nunca se vai encontrar. A maior preocupação deve ser comunicar. Falar é uma forma de escrita, é uma escrita no ar. Fazer música é uma escrita, pintar também. As palavras são coisas ao teu serviço. Não pode haver cerimónia, religiosidade. Tens que as tratar mal porque elas não têm vida, és tu que lhes dás vida.

Crítica: Manel Cruz

★★★★☆

Manel Cruz passou anos num interregno criativo, mas reinventou-se na sombra. O primeiro registo que edita em nome próprio é um disco- -livro onde a música e as artes plásticas se intoxicam. Para as imagens do livro, atirou as canções às paredes, cravou as letras e espatifou-as artisticamente. Destruiu, para criar. Para fazer o disco, esboçou ideias num ukulele e despiu a essência frágil das canções – algumas foram deixadas nuas, outras coloridas com músicos como Nico Tricot, António Serginho e Eduardo Silva. Diferentes instrumentos dão diferentes tonalidades, mas não abafaram as canções. Esta é música simples, como são as melhores coisas da vida. Manel Cruz é um homem que faz grandes canções mesmo quando as desenha pequenas. As canções mais simples são agigantadas com as suas palavras e o modo como as respira no sotaque saboroso do Porto. Tem uma maneira particular de observar o mundo. As letras ambíguas, livres a interpretações, buscam palavras nas entrelinhas do pensamento. Dedica-se a descobrir a música do mundano, a música que habita nas pessoas. Percorre os labirintos que tem dentro dele e usa a arte como veículo para a violência e a vulnerabilidade. A sua melancolia alicia, tão sedutora quanto destrutiva. São canções simples, mas que ardem com vida por dentro. Ana Patrícia Silva

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