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Música, Reggy Bob Marley
©DRBob Marley ao vivo

Nostalgia de Junho: as músicas que dominavam o airplay há umas décadas

As músicas que estavam a passar insistentemente na rádio neste mês, há 20, 30 e 40 anos.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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Poucas coisas serão capazes de reavivar tantas memórias como a banda sonora de um outro tempo. Para bater uma saudade, nem é preciso escutar a música que outrora nos enchia as medidas - basta que nos façam ouvir a música que por esses dias nos enchia a cabeça, quiséssemos ou não, simplesmente porque estava a tocar em toda a parte (com sorte, às vezes, uma coisa e outra até coincidem). Ora, este tipo de nostalgia involuntária torna-se especialmente viçosa quando falamos dos verões de antigamente, sobretudo daqueles em que tínhamos idade para lhes chamar férias grandes. À porta do Verão de 2021, eis os sons que dominavam o airplay, em Portugal e nos tops de referência do Reino Unido e Estados Unidos, nos meses de Junho de décadas passadas.

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Nostalgia de Junho

Há 40 anos: Junho de 1981

Entre os dias 10 e 20 de Junho, Portugal vive sob uma violenta onda de calor. Registam-se 1900 óbitos a mais em relação ao que seria de se esperar nessa altura do ano. Nas Penhas Douradas, o ponto mais fresco do país, a temperatura mínima teima em não baixar dos 22 graus. No cinema, estreia Os Salteadores da Arca Perdida. Um LP custa, em média, 400 escudos.

Faz seis meses que John Lennon foi assassinado à porta de sua casa, em Nova Iorque, e por cá o ex-Beatle torna-se na voz mais batida nos gira-discos. “Woman”, o segundo single extraído do álbum Double Fantasy, lidera a tabela de vendas de singles em Portugal, ininterruptamente, entre finais de Maio e inícios de Julho.

No Reino Unido, o single mais vendido na primeira semana do mês é “Being With You”, de Smokey Robinson (falamos dele umas linhas adiante), que será rapidamente ultrapassado por Michael Jackson com One Day in Your Life. A canção de 1975, originalmente gravada com uma vozinha angelical de 17 anos e incluída no álbum Forever, Michael, foi repescada em 1981 para um novo álbum a que emprestou o título. Gerou um modesto sucesso nos Estados Unidos, mas fez furor no Reino Unido, onde se tornou a primeira gravação solo de Jackson a alcançar o top do UK Singles Chart.

Mas é um pouco mais abaixo na tabela que vamos desenterrar duas peças que envelheceram bem melhor na memória colectiva. A primeira é “Chariots of Fire”, o tema principal que Vangelis compôs para o filme homónimo (Momentos de Glória, na tradução portuguesa) e que para sempre ouviremos com a banda sonora de qualquer imagem em câmara lenta. A segunda é “No Woman, No Cry”, o hino de Bob Marley originalmente incluído no álbum Natty Dread, de 1974, e um ano mais tarde em Live!, na versão ao vivo que a popularizou. Marley morreu em Maio de 1981 e em Junho “No Woman, No Cry”, versão ao vivo, é incluída numa colectânea de tributo e torna-se no oitavo single mais escutado nas ilhas britânicas.

Nos Estados Unidos, o grande destaque volta a ser este “Bette Davis Eyes”, de Kim Carnes, que já se tinha instalado no top a 16 de Maio e por lá se mantém nove semanas (mais lá para diante conseguirá feito semelhante em Portugal: será o single mais vendido ao longo de dez semanas consecutivas, entre 20 de Setembro e 22 de Novembro). Em segundo lugar está “Being With You”, canção que, curiosamente, Smokey Robinson compôs para Kim Carnes, mas que acabou por gravar ele mesmo. O top norte-americano fica completo com “Stars on 45”, dos Star Sound, projecto de estúdio que se entretém a amalgamar sucessos alheios em medleys com batida disco, e que ainda hoje é capaz de excitar festas de nostalgia.

Há 30 anos: Junho de 1991

Croácia e Eslovénia declaram independência da Jugoslávia. É emitido o último episódio de Twin Peaks. Boris Yeltsin é eleito presidente da Federação Russa. Os Chicago Bulls vencem o primeiro de três títulos consecutivos da NBA, Michael Jordan é eleito MVP na sua primeira final. A África do Sul decide abolir as últimas leis do Aphartheid. Morre Stan Getz. No último dia do mês, 127 mil pessoas atafulham o antigo Estádio da Luz para ver Portugal ser campeão mundial de futebol sub-20 pela segunda vez consecutiva.

Por cá, o Verão anuncia-se optimista. No início de Junho, o single mais ouvido é “I Can See Clearly Now”, que já aqui denunciámos como uma das músicas inspiracionais mais contagiosas de sempre. Foi gravada por Johnny Nash em 1971, precisamente 20 anos antes, e regressa ao top em Junho de 1991 à boleia de um carocha e de um anúncio da Nescafé. Poucas vezes a publicidade nos ficou tão colada ao ouvido. O vírus optimista de Nash dissemina-se de tal modo pela população portuguesa que, logo a 15 de Junho, é identificada uma nova variante: entrou directamente para a posição 5 e foi gravada pelos irlandeses Hothouse Flowers. E eis-nos então perante esta situação inédita de termos a mesma canção a ocupar duas posições diferentes entre os dez mais do top nacional de singles.

Mas a playlist nacional por estes dias revela-se especialmente dinâmica e o número 1 do top vai ser ocupado por cinco músicas ao longo do mês. Na segunda semana, a 8 de Junho, a liderança pertence aos Gregorian com “So Sad”, mais um exemplar da praga de erotismo conventual que se abate sobre a música europeia por estes dias. Recorde-se que em Maio o top tinha já sido dominado pelo single “Mea Culpa Parte II”, dos Enigma, extraído de MCMXC a.D, o álbum de estreia do projecto alemão, que acabará por ser o LP mais vendido desse ano em solo nacional.

A 15 de Junho a liderança passa para “Joyride”, single dos Roxette que um mês antes dominava já a Billboard norte-americana. Uma semana depois, a 22, o Verão arranca ao som dos Gipsy Kings. A versão flamenca que criaram para “Hotel California”, dos Eagles, é o single mais vendido e rodado por esses dias. Nada que se compare, ainda assim, com o frenesi que a banda cigana francesa gerou um ano antes com o álbum Mosaique e, em especial, com o single “Volare”. Finalmente, o mês de Junho de 1991 fecha ao som de Snap Megamix”, um medley de quatro singles retirados do primeiro álbum de estúdio gravado um ano antes pelo projecto alemão Snap! (“Ooops Up”, “The Power”, “Cult of Snap” e “Mary Had a Little Boy”, para quem os quiser lembrar separadamente). Em número 3, já agora, estava “Hello Afrika”, de Dr. Alban, outro exemplar da produção de base europeia que dominava as pistas de dança (e que é mais ou menos uma versão hip-hop do tema lançado por Eddy Grant em 1977).

No Reino Unido, o mês abre com a liderança de “I Wanna Sex You Up”, dos Color Me Bad, a boy band que nos recorda que, há não assim tanto tempo, o ideal de rapazola sexy implicava ter voz fininha e sobrancelhas a condizer. Só lá para o final do mês o top muda de mãos e passa para a versão nhó nhó que Jason Donovan fez de “Any Dream Will Do”, canção composta por Andrew Lloyd Webber em finais dos anos 60.

A peça de memorabilia mais interessante na lista britânica desse mês será este “Shiny Happy People”, a música que esteve para servir de genérico à série Friends (como já lhe contámos aqui) e que tem a particularidade de ser o maior sucesso como single dos R.E.M. Apesar de por esses dias encherem estádios em todo o mundo, terem vendido 85 milhões de discos e recebido o Brit Award para melhor banda internacional em 1992, 1993 e 1995, Michael Stipe e companhia nunca conseguiram ir além da sexta posição no Uk Single Charts ou na Billboard Hot 100.

Nos Estados Unidos, o grande acontecimento em single é mesmo “More Than Words”, dos Extreme, que em Abril já tinha sido número 1 da Billboard e número 2 da UK Singles Chart e em Maio chegara ao terceiro lugar em Portugal. E pronto, não nos demoremos mais em 1991.

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Há 20 anos: Junho de 2001

Junho arranca com uma variante nepalesa de loucura. No dia 1, o Príncipe Dipendra, herdeiro da coroa do Nepal, mata o rei, a rainha e quase toda a família real. Suicida-se em seguida. Noutra geografia alheia aos nepaleses, é criada a freguesia de Longueira/Almograve, no Concelho de Odemira. Tony Blair é reeleito primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Kofi Annan é reeleito secretário-geral da ONU, Slobodan Milosevic é entregue ao Tribunal Penal Internacional em Haia. No cinema estreia o primeiro de nove filmes da saga Velocidade Furiosa.

Por cá, Junho traz cinco nomes fortes. Deftones, Rui da Silva, Radiohead, Nelly Furtado e Dido. Serão eles a ocupar o top de singles, à vez e por esta ordem, até final do mês. A 2 de Junho, a liderança pertence a “Back to School”, tema em que os Deftones cantam o drama de ter de ir à escola num tom de quem parece que vai fazer reféns no intervalo. Uma semana depois, a 9, Rui da Silva retomava o top que já tinha sido seu em Maio, com “Touch Me”, o tema com que em Janeiro desse ano se tornou o primeiro português a conquistar o número 1 do top inglês de singles (como falámos aqui). Depois, a 16, é a vez de passar a tocha a “Pyramid Song”, o primeiro singles extraído de Amnesiac, quinto álbum de estúdio dos Radiohead. A 16, um novo líder no top: desta feita, Nelly Furtado, a canadiana luso-descendente que nos inchou o ego pátrio com mais uma lufada de ar (no mês passado tinha sido Nuno Bettencourt) com este “I’m Like a Bird”, primeiro single do seu primeiro álbum de estúdio, com que conseguiu apanhar logo o Grammy para Best Female Pop Vocal Performance (em português não tem a mesma graça). A fechar o mês, a 29, o top é ocupado por “Thank You”, de Dido, de quem também já por aqui falámos em Maio.

Lá fora, Junho tem o som de “Lady Marmelade”, na versão que Christina Aguilera, Lil' Kim, Mýa e Pink gravaram como cover da banda sonora do filme Moulin Rouge. A canção do filme, na verdade, é ela própria uma adaptação do original “Lady Marmelade”, escrita por Bob Crewe e Kenny Nolan e originalmente lançada com grande sucesso (número 1 da Billboard Hot 100) pelo grupo Labelle, como single do álbum Nightbirds, de 1974. Depois disso, voltou a conhecer sucesso com a versão das All Saints (número 1 do Reino Unido, em 1998). Com Aguilera & Companhia, “Lady Marmelade” alcança o número 2 nos Estados Unidos, a 7 de Junho, e o número 1 no Reino Unido, no dia 30.

Depois disso, a Billboard Hot 100 coroa “U Remind Me”, de Usher, e antes disso a UK Single Charts serve de trono para “Angel”, do jamaicano Shaggy (que também já tinha alcançado o número 1 da Billboard no mês anterior). A canção baseia-se fortemente em Angel of the Morning, que se tornou num êxito na voz de Juice Newton, 20 anos antes, em 1981, e utiliza samples de The Joker, de Steve Miller, de 1973. O resto a modos que é original.

Música para os seus ouvidos

  • Música

O reino misterioso do sono nunca deixou de atrair os compositores de canções. Estas sete substâncias hipnóticas podem ser tomadas sem receita médica, mas há que ter em atenção que algumas poderão produzir, nas almas mais sensíveis e quando consumidas repetidamente, efeitos secundários imprevisíveis. O importante é reter que as canções de embalar, apesar de talvez terem sido as primeiras criações musicais do Homo Sapiens, não são um género esgotado. A prova está aqui.

  • Música

A autorreferência é um mecanismo relativamente banal na arte. Por exemplo, poemas que se queixam de como as palavras não lhes bastam para dizerem tudo o que precisam dizer, é mato. Nos textos cantados é especialmente frequente encontrar esse tipo de truque estilístico, em particular em canções que se põem a falar sobre canções de amor para, de forma mais ou menos discreta, fingirem que não são elas próprias canções de amor, bajoujas e piegas como todas as canções de amor devem ser.

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  • Música

Não consta de nenhuma das letras, mas a palavra da moda atravessa todas estas canções. Aqui fala-se de resistência e esperança, optimismo e perseverança, confiança e tenacidade: em suma, fala-se de resiliência, palavra que por estes dias se consome mais do que álcool gel. Eis então uma playlist que é uma espécie de vacina contra toda a sorte de atribulações, borrascas, contrariedades, dissabores, e mais uma série de sinónimos de coisas chatas, que podíamos continuar a ordenar alfabeticamente até chegarmos a “zaragatoa”.

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