Oito obras clássicas inspiradas no Brasil

A estreia da cantata 'Vera Cruz', com música de Nuno Côrte-Real e texto retirado da carta de Pêro Vaz de Caminha a D. Manuel I, dando conta do “achamento” do Brasil, é uma oportunidade para lembrar outras obras clássicas de inspiração brasileira
Pedro Alvarez de Cabral Chegada ao Brasil
©Oscar Pereira da Silva
Por José Carlos Fernandes |
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O Festival de Estoril Lisboa associou-se ao programa Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017 e encomendou ao compositor português Nuno Côrte-Real a Cantata Vera Cruz, para coro e orquestra e narrador. O texto da cantata baseia-se na carta, datada de 1 de Maio de 1500, redigida por Pêro Vaz de Caminha, escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral, dando conta a D. Manuel I do achamento da “ilha de Vera Cruz”. A carta é o primeiro documento escrito da História do Brasil e um fascinante retrato do encontro de duas civilizações completamente diversas: de um lados os europeus, do outro os índios, “todos pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que cobrisse as suas vergonhas”. A interpretação é do Coro do Teatro São Carlos e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, com direcção do compositor e narração de Luís Lima Barreto. O programa inclui a Sinfonia n.º 2, de Schumann.

Teatro Nacional de São Carlos, sábado 1, 21.30, 5-20€.

Oito obras clássicas inspiradas no Brasil

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Il Guarany, de Antônio Carlos Gomes

Ano: 1870, no Teatro alla Scala, Milão
Género: Ópera

Antônio Carlos Gomes (1836-1896) é um caso insólito na música europeia do século XIX: não só foi o único compositor não-europeu a fazer carreira de sucesso na ópera italiana, como tinha a peculiaridade da origem mestiça, numa época em que os compositores de renome eram todos imaculadamente brancos. Foi também o primeiro brasileiro a obter projecção internacional e o escritor brasileiro Rubem Fonseca converteu a sua vida numa fascinante biografia romanceada, O selvagem da ópera (1994).

O libreto de Il Guarany, da autoria de Antonio Scalvini, baseou-se no romance O Guarani, de José de Alencar: decorre nas imediações do Rio de Janeiro, circa 1660, e gira em torno da paixão de Peri, filho de um chefe índio Guarani, por Ceci, filha de D. Antonio de Mariz, fidalgo português que enfrenta os índios Aymoré e o pérfido aventureiro espanhol González.

Foi a primeira ópera de Gomes a estrear em Itália e foi a que lhe trouxe maior fama – consta que, ao ouvi-la, Verdi terá declarado: “Este jovem começa onde eu acabo.”

[Excerto de uma récita de Il Guarany, no Teatro da Paz, em Belém, Brasil]

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Amazonas, de Villa-Lobos

Ano: 1917
Género: Bailado

Heitor Villa-Lobos (1887-1959) é hoje o compositor brasileiro de maior renome internacional, ofuscando a glória de Antônio Carlos Gomes. Tem uma obra vastíssima pelos padrões de qualquer época – 2000 peças – e em particular pelos do século XX, cujos compositores tenderam a ser pouco prolixos. A obra de Villa-Lobos cobre os mais variados géneros e muitas peças exibem influências da música popular brasileira ou aludem a eventos históricos e paisagens brasileiras.

O bailado Amazonas foi composto no Rio de Janeiro em 1917, sobre um enredo delineado por Raul Villa-Lobos, pai do compositor, e, provavelmente, reutilizando material de Myremis, um poema sinfónico de 1916, estreado em 1918 e hoje perdido. Amazonas só estreou em 1929, em Paris, e já foi comparado à revolucionária peça Amériques (1921), de Edgard Varèse.

[Pela Orquestra Sinfónica Simón Bolívar de Venezuela, direcção de Enrique Arturo Diemecke]

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O Descobrimento do Brasil, de Villa-Lobos

Ano: 1936
Género: Banda sonora, convertida em quatro suítes orquestrais

Durante a ditadura de Getúlio Vargas (entre 1930 e 1945), Heitor Villa-Lobos contribuiu para a propaganda nacionalista do regime, nomeadamente compondo a banda sonora para o filme O Descobrimento do Brasil (1937), de Humberto Mauro, que, tal como a cantata Vera Cruz, de Nuno Côrte-Real, recorre a excertos da carta de Pêro Vaz de Caminha. A ambição de erguer um épico nacional não teve recursos técnicos e financeiros à altura, apesar do apoio do Estado brasileiro, o que obrigou a recorrer a expedientes ingénuos ou trapalhões. O filme redundou em fracasso, o que levou Villa-Lobos a reciclar a música sob a forma de quatro suítes orquestrais. A partitura prevê uma vasta panóplia percussiva, que inclui instrumentos tradicionais brasileiros.

[O Descobrimento do Brasil, filme de 1937 de Humberto Mauro]
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Saudades do Brasil, de Milhaud

Ano: 1921
Género: Suíte de peças para piano solo ou para orquestra O francês Darius Milhaud (1892-1974) foi um dos mais prolíficos compositores do século XX, embora as suas 443 obras não rivalizem com as 2000 de Villa-Lobos. Em 1917-19, Milhaud foi secretário de Paul Claudel, quando este era embaixador de França no Brasil, e as influências que absorveu nesse período são audíveis em várias obras suas.

A suíte Saudades do Brasil assenta em ritmos de samba ou de tango e cada uma das suas 12 peças tem o título de um bairro do Rio de Janeiro – “Botafogo”, “Leme”, “Copacabana”, “Ipanema”, “Gávea”, “Corcovado”, “Tijuca”, Laranjeiras” – ou de uma cidade brasileira – “Sorocaba”, “Sumaré”, “Paineiras”, “Paiçandu”.

[“Ipanema”, pelo próprio compositor, gravação c.1928-30]
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Le Boeuf sur le Toit, de Milhaud

Ano: 1919
Género: Bailado surrealista

Le Boeuf sur le Toit recorre a melodias de uma trintena de músicas populares brasileiras (maxixes, tangos, rumbas e até, ao que consta, um fado); entre elas está “O Boi no Telhado”, um tango composto em 1918 por José Monteiro (ou Zé Boiadeiro), cuja melodia faz 15 aparições.

O bailado, com enredo de Jean Cocteau e cenografia de Raoul Dufy, estreou em Paris em 1920. Apesar de a música estar impregnada de Brasil, a acção desenrola-se num bar dos EUA durante a Lei Seca; não é nada de grave, atendendo a que Milhaud concebeu originalmente a peça para servir de banda sonora a um filme de Chaplin (o que não se concretizou); existe uma versão destinada a esse fim, para violino e piano e com o título Cinéma-Fantaisie sur des Airs Sud-Américains.

[Pela Orchestre National de France, com direcção de Leonard Bernstein]
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Sinfonia n.º 10 Ameríndia, de Villa-Lobos

Ano: 1953
Género: Sinfonia/oratória

A Sinfonia n.º 10, que tem por título completo Sumé Pater Patrum: Sinfonia Ameríndia com Coros, foi composta para assinalar o quadricentenário da fundação da cidade de São Paulo, em 1554, mas só estreou em Paris em 1957. O texto provém do poema De Beata Vergine, do missionário jesuíta José de Anchieta (1534-1597), que foi um dos fundadores da cidade de São Paulo.

[Excertos da Sinfonia n.º 10, por Leonardo Nieva (barítono), Saulo Javan (baixo), Coro & Orquestra Sinfónica de São Paulo, direcção de Isaac Karabtchevsky (Naxos). Esta gravação integral (ainda em curso) das sinfonias de Villa-Lobos na Naxos, pela Sinfónica de São Paulo, vale a pena ser investigada]
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Floresta do Amazonas, de Villa-Lobos

Ano: 1958
Género: Banda sonora, convertida em suíte sinfónica

Meio século depois do bailado Amazonas e pouco antes da sua morte, Villa-Lobos regressou ao tema, através da Metro Goldwyn Mayer, que lhe solicitou uma banda sonora para o filme Green Mansions, de Mel Ferrer, cuja acção decorre na selva venezuelana e tem Audrey Hepburn no papel de Rima, “a rapariga imaculada da selva virgem” (!), que se apaixona por Anthony Perkins, no papel de explorador venezuelano (!).

[Trailer de Green Mansions]

É um filme caricato e não admira que tenha sido um fiasco de bilheteira e de crítica; por outro lado, Villa-Lobos não apreciou os cortes, reorquestrações e outras alterações introduzidas na sua extensa partitura por Bronislau Kaper, durante a fase de inserção da banda sonora nas imagens, pelo que acabou por reciclar a música numa suíte sinfónica.

[Esta versão da suíte sinfónica Floresta do Amazonas é creditada no YouTube como sendo a da gravação de estreia, realizada em 1959 para a EMI, com Bidu Sayão (soprano) e The Symphony of the Air & Chorus, com direcção de Villa-Lobos, mas a nitidez do som sugere que se tratará de um registo muito posterior]
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Águas da Amazônia, de Glass

Ano: 1993-1999
Género: Bailado

A obra começou por chamar-se Seven or Eight Pieces for a Ballet (1993) e destinou-se a uma performance de uma companhia de dança de Belo Horizonte, o Grupo Corpo. O grupo brasileiro de percussão Uakti arranjou a música de Glass para o seu efectivo instrumental e editou o disco correspondente, Águas da Amazônia, em 1999.

Cada uma das peças de Águas da Amazônia tem o nome de um afluente do Amazonas – Negro, Madeira, Xingu, Japurá, etc. – e o resultado final, pelo menos na versão dos Uakti, não anda longe da música New Age ou de música de fundo relaxante para consultórios de dentista.

[“Japurá River”, n.º 2 de Águas da Amazónia, pelos Uakti (Orange Mountain Music)]

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©Georges Seurat
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