Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Oito óperas do século XX inspiradas na mitologia clássica
Arte, Pintura, Apollo persegue Daphne, Giovanni Battista Tiepolo
©National Gallery of Art Apollo persegue Daphne por Giovanni Battista Tiepolo (1755-60)

Oito óperas do século XX inspiradas na mitologia clássica

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Por José Carlos Fernandes
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A mitologia clássica foi fonte constante de inspiração para a ópera dos períodos barroco e clássico – todavia houve quase sempre o cuidado de expurgá-la de situações traumáticas e sanguinárias. Foi essencialmente uma mitologia edulcorada e reduzida a mero pano de fundo para enredos inverosímeis repletos de equívocos, amores não-correspondidos e intervenções divinas embrulhadas em efeitos especiais, desembocando em desfechos tão felizes quanto improváveis, com os amantes correctamente emparelhados – a telenovela mexicana tem nobres antecedentes. Afinal o público pretendia um serão bem passado, não meditações sobre os abismos da alma humana.

Foi preciso chegarmos ao século XX para a mitologia surgir nos palcos de ópera sem branqueamento ou suavização – ou até para ser reinterpretada de forma jocosa.

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Oito óperas do século XX inspiradas na mitologia clássica

1. Ariane, de Massenet

Estreia: 1906
Libreto: Catulle Mendès

Duas irmãs apaixonadas pelo mesmo homem é coisa que só pode acabar mal. Hesitando entre Ariana e Fedra, Teseu escolhe a segunda. Quando sabe que não foi ela a escolhida, Ariana desfalece. Quando acorda recebe a notícia de que a irmã morreu esmagada pela queda de uma estátua de Adónis. O amor fraternal sobrepõe-se então à paixão por Teseu e Ariana desce ao Inferno para convencer Perséfone, a rainha do Submundo, a deixar a irmã regressar ao mundo dos vivos. As súplicas de Ariana acabam por comover Perséfone e as duas irmãs voltam a subir à superfície, na ilha de Naxos, onde encontram Teseu. Este e Fedra desfazem-se em agradecimentos a Ariana e elogiam a sua abnegação, mas a paixão entre Teseu e Fedra acaba por reavivar-se e Ariane fica a ver navios – literalmente, pois o casalinho zarpa num navio.

Desconsolada, Ariana atira-se ao mar. Embora seja hoje lembrado só por Manon e Werther, Massenet desfrutou de grande popularidade na viragem dos séculos XIX-XX e compôs uma quarentena de óperas – entre elas conta-se Bacchus (1909), também de temática mitológica e que funciona como sequela de Ariane.

[Recitativo e ária “C’Était Si Beau”, por Rima Tawil e a Donauphilharmonie Wien, com direcção de Manfred Müssauer]

2. Elektra, de Strauss

Estreia: 1909
Libreto: Hugo von Hofmannsthal, a partir da sua peça homónima de 1903, inspirada em Sófocles

O enredo do mito original é cruento e o libreto de Hugo von Hofmannsthal não o suavizou: Agamemnon, rei de Creta, foi assassinado pela mulher, Clitemnestra, e pelo seu amante, Egisto. Electra, filha de Agamemnon e Clitemnestra, vive com uma obsessão: vingar o pai, matando Clitemnestra e Egisto. Para tal tenta obter a colaboração da irmã Chyrsotemis e do irmão Orestes. Chrysotemis é a irmã boazinha e só deseja que todos façam as pazes, mas Electra é um dínamo de ferocidade e determinação e impele a acção para uma inexorável espiral de sangue e loucura. Não é a música que arredonda as arestas deste drama macabro, pois Strauss providenciou generoso fornecimento de atmosferas malignas, frenesis extáticos e valsas infernais.

Quando lhe censuraram a violência da música retorquiu o compositor: “Havendo um matricídio em cena, o que querem que eu faça? Que componha um concerto para violino?”

[Leonie Rysanek (Elektra) e Astrid Varnay (Klytämnestra) numa interpretação de gelar o sangue, com a Filarmónica de Viena, direcção de Karl Böhm e encenação e realização de Götz Friedrich (disponível em DVD Deutsche Grammophon)]
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3. Pénélope, de Fauré

Estreia: 1913
Libreto: René Fauchois, inspirado na Odisseia

Fauré é famoso pelo Requiem, pela música de câmara e pelas peças para piano e poucos se lembram que foi também autor de duas óperas, ambas sobre temática mitológica, Prométhée (1900) e Pénélope.

O enredo de Pénélope retoma a parte final da Odisseia, tal como acontecia com a célebre Il Ritorno d’Ulisse in Patria (1640), de Monteverdi: Penélope, rainha de Ítaca, espera pacientemente por Ulisses, partido há dez anos para a Guerra de Tróia, e tenta manter à distância os numerosos pretendentes a ocupar o lugar de Ulisses no leito real. Ulisses regressa disfarçado de mendigo, tão andrajoso que só Ericleia, a velha ama de Penélope o reconhece. O mendigo dá a entender a Penélope que Ulisses vem a caminho e sugere que, para ganhar tempo face às ambições dos pretendentes, organize um concurso para ver qual deles é capaz de dobrar o rijíssimo arco que Ulisses deixara em casa. O certame tem desfecho inesperado quando o mendigo toma o arco nas mãos e dispara uma rápida sucessão de flechas que abatem todos os pretendentes – Penélope cai nos braços do seu esposo e há aclamação geral do povo de Ítaca. O libretista suprimiu, por razões de economia narrativa, a figura de Telémaco, o filho de Ulisses, mas desbaratou os ganhos atribuindo aos pretendentes uma pomposa tagarelice, que talvez explique a escassa difusão da ópera.

[O final da ópera: “Justice Est Faite”, com Régine Crespin (Penélope) e Raoul Joubin (Ulisses), num registo ao vivo de 1956]

4. Les Malheurs d’Orphée, de Milhaud

Estreia: 1926
Libreto: Armand Lunel

Uma reconversão do mito de Orfeu: a acção é transposta da Trácia para a Camargue, em França, onde Orfeu pratica medicina/veterinária alternativa, curando homens e animais com as suas mezinhas, e Eurídice leva uma vida boémia. Como a família dela se opõe ao casamento com Orfeu, o par foge para floresta e encontra refúgio numa cabana de pastores. Aí, Eurídice contrai uma maleita misteriosa e morre. Orfeu regressa às suas antigas práticas, mas depara-se um dia com três Fúrias que o culpam pela morte de Eurídice e se dispõem a trucidá-lo – algo que Orfeu acolhe de bom grado, pois assim irá reunir-se à sua amada.

[Com Jacqueline Brumaire (Eurídice), Bernard Demigny (Orfeu) e a Orchestre de l’Opéra de Paris, com direcção do próprio compositor, 1956]
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5. Oedipus Rex, de Stravinsky

Estreia: 1927
Libreto: Jean Cocteau, a partir de Sófocles

Esta ópera-oratória narra a terrível história de Édipo, filho de Laio e Jocasta, reis de Tebas, sem grandes desvios à essência da tragédia de Sófocles: Laio e Jocasta, têm um filho, Édipo, mas o oráculo adverte que este irá matar o pai, pelo que a criança é condenada a morrer num ermo. Porém, o servo encarregue dessa sinistra missão acaba por entregar o bebé a um pastor. Após muitas voltas do mundo, Édipo, já adulto, cruza-se num caminho com um homem com quem tem uma altercação (naquilo que pode ser qualificado como uma discussão de trânsito) e acaba por matá-lo, ignorando tratar-se do seu pai. A errância de Édipo leva-o até Tebas, que é atormentada por uma Esfinge. Édipo logra derrotar esta, o que lhe confere direito ao trono e à mão da rainha Jocasta, que ele ignora ser sua mãe. Quando a verdade é revelada, alguns anos depois (já o casal tinha gerado quatro filhos), Jocasta suicida-se e Édipo vaza os seus próprios olhos.

Por esta altura da sua carreira, Stravinsky deixara para trás a agitação convulsiva e a violência brutal dos seus primeiros bailados (e sobretudo de A Sagração da Primavera) e atravessava então o seu período neo-clássico, pautado pela contenção e pelo distanciamento e trocando as rupturas pela reciclagem de formas e estilos consagrados do passado. O compositor decidiu retirar parte da fúria e do negrume da tragédia de Sófocles, impondo que o libreto, redigido em francês, fosse vertido em latim, uma língua incompreensível para a maioria dos espectadores, e fazendo intervir um narrador que esbate o dramatismo dos eventos. Porém, a música, na sua simplicidade e despojamento, acaba por veicular eficazmente a torrente de violência e horror da tragédia de Sófocles e Oedipus Rex acaba por ser – em particular nas intervenções do coro – uma peça de arrepiante intensidade emocional.

[“Non Erubiscite, Reges”, por Jessye Norman e a Orquestra Saito Kinen, com direcção de Seiji Ozawa e encenação de Julie Taymor, no festival Saito Kinen de 1993]

6. Oedipe, de Enescu

Estreia: 1936
Libreto: Edmond Fleg, a partir de Sófocles

A ópera teve uma longa gestação: o libreto foi concluído em 1910, a música em 1922, a orquestração em 1931 e a estreia cinco anos depois. Ao contrário da maioria das versões musicais do mito de Édipo, que costumam começar quando Édipo chega a Tebas, o libreto de Fleg cobre a história desde o nascimento de Édipo.

É uma das mais inspiradas obra do romeno George Enesco e é um marco da história da ópera, embora raramente seja levada à cena.

[Excerto do II acto da versão encenada por La Fura dels Baus, que estreou no La Monnaie, de Bruxelas em 2011, e passou pelo Teatro Colón, de Buenos Aires, em 2012 (de onde provêm estas imagens), e pela Royal Opera House, em Londres, em 2016]

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7. Daphne, de Strauss

Estreia: 1938
Libreto: Joseph Gregor

Daphne, em quem, retrospectivamente, podemos ver uma inclinação hippie/New Age, reparte o seu amor por todas as coisas vivas. O seu amigo de infância, Leukippos, surpreende-a abraçada a uma árvore e tenta convencê-la a abraçar-se antes a ele, mas ela não mostra interesse por relações carnais. Rejeitado, Leukippos tenta aproximar-se de Daphne disfarçado de rapariga, mas entretanto já Daphne despertara a cobiça de outro pretendente – nada menos do que o deus Apolo, que entra em cena disfarçado de vaqueiro. Leukippos consegue, graças ao disfarce, insinuar-se junto de Daphne e dançar com ela, mas Apolo desmascara o travesti. Leukippos, furioso, ousa enfrentar o deus e cai fulminado, o que deixa Daphne tão sensibilizada que lhe jura fidelidade para sempre. É a vez de Apolo, sentindo-se culpado pelo trágico evento, pedir a Júpiter para que concretize o voto de Daphne, transformando-a num loureiro – árvore sagrada para Apolo e cujas folhas servirão para coroar os vencedores das competições artísticas e desportivas.

[Excerto, por Renée Fleming (Daphne), Jeffrey Dowd (Leukippos), Johan Botha (Apolo) e a WDR-Sinfonieorchester Köln, com direcção de Semyon Bychkov, ao vivo em Colónia, 2004]

8. Troilus and Cressida, de Walton

Estreia: 1954
Libreto: Christopher Hassall, a partir do poema homónimo de Geoffrey Chaucer

A história dos amores de Troilo e Créssida passa-se durante o cerco de Tróia, mas não faz parte da Ilíada nem de qualquer outra fonte da mitologia clássica, embora Troilo seja uma personagem da Ilíada (é um dos 19 filhos do rei Príamo e acaba por ser morto por Aquiles). O episódio de Troilo e Créssida é um “acrescento” (hoje seria rotulado como “spin-off”) muito tardio, surgido pela primeira vez no Roman de Troie (1160), de Benoît de Sainte-Maure, retrabalhado por Bocaccio em Il Filostrato (c. 1335-40), que, por sua vez serviu de inspiração ao poema épico Troilus and Criseyde (1385), de Geoffrey Chaucer, no qual Shakespeare se baseou para escrever a tragédia Troilus and Cressida (1602).

A acção decorre no décimo ano do cerco de Tróia e Troilo está apaixonado por Créssida, filha do sumo-sacerdote Calchas. Créssida está também apaixonada por Troilo, mas não é com pares de pombinhos que vivem felizes para sempre que se fazem tragédias e óperas, pelo que uma série de eventos rocambolescos, personagens malignas e reviravoltas inesperadas, fazem com que Troilo acabe apunhalado por Calchas e que Créssida, ao saber do sucedido, se mate com a espada do seu amado.

O libreto é pesadão e enredado – uma tentativa de fazer reviver a tradição da grande ópera histórica oitocentista – e a música, em que Walton labutou ao longo de seis anos, nem sempre é capaz de minorar essa debilidade, pelo que a ópera é raramente levada à cena.

[“If One Last Doubt Remain”, por Richard Lewis e a Royal Opera House Orchestra, com direcção de Malcolm Sargent, ao vivo na Royal Opera House, 1954]

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