Oito Paixões barrocas para subir ao Calvário

Nesta quadra pascal, Lisboa oferece a oportunidade de ouvir as duas Paixões de Bach que chegaram aos nossos dias e que são as facetas mais visíveis da copiosa produção de oratórias sobre a Paixão de Cristo surgidas no Barroco

[“A coroação de espinhos”, por Michelangelo da Caravaggio, c. 1602-07]

A Semana Santa em Lisboa

Bach: Paixão segundo S. João: Com Eduarda Melo (soprano), Carlo Vistoli (contratenor), Marco Alves dos Santos (tenor), Christian Luján, José Corvelo e Jorge Vaz de Carvalho (baixos), Coro Sinfónico Lisboa Cantat, Orquestra Metropolitana de Lisboa, direcção de Enrico Onofri.

CCB, domingo 25 de Março, 17.00, 10-30€

Bach: Paixão segundo S. Mateus: Com Rachel Harnisch (soprano), Carlos Mena (contratenor), Hans Jörg Mammel (tenor, Evangelista), Christoph Einhorn (tenor), Christian Imler (barítono), André Baleiro (baixo, Cristo), Coro Infantil da Academia de Música de St.ª Cecília, Coro & Orquestra Gulbenkian, direcção de Michel Corboz.

Fundação Gulbenkian, segunda-feira 26 de Março a quarta-feira 28, 20.00, 20-40€

Gesualdo: Responsórios da Quaresma e da Semana Santa: Apresentação integral, pelo ensemble vocal Graindelavoix, direcção de Björn Schmelzer.

Igreja de S. Roque, sábado 24, 18.00, 20€

 

Oito Paixões barrocas para subir ao Calvário

Paixão segundo S. Mateus SWV 479, de Schütz

Ano: 1666

Heinrich Schütz (1585-1672), o mais importante compositor alemão do seu tempo, foi, intermitentemente, mestre de capela em Dresden entre 1615 e 1672. As ausências de Dresden, por vezes prolongadas, deveram-se ao facto de a Guerra dos Trinta Anos ter, durante alguns períodos, reduzido quase a zero a actividade musical na corte da Saxónia, compelindo Schütz a aceitar cargos noutras cortes, nomeadamente em Copenhaga. Entre a sua rica produção – quase toda sacra – legou-nos três Paixões, segundo S. João, S. Lucas e S. Mateus, que foram compostas em 1665-66 e são um marco na evolução do formato que iria conduzir às Paixões de Bach. As três Paixões não recorrem a instrumentos, por ser tradição em Dresden que a música da Semana Santa fosse cantada a cappella.

O título original dado por Schütz é História da Vida e Morte do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo Segundo o Evangelista Mateus (Historia des Leidens und Sterbens Unseres Herrn und Heiland Jesu Christi Nach dem Evangelisten Matthäus), sendo o termo “Historia” usado na Alemanha do século XVII para designar uma obra musical assente nos Evangelhos – Schütz seria também autor de uma “Historia” da Natividade e de uma “Historia” da Ressurreição.

[Coro final “Ehre Sei dir Christe”, pelo ensemble A Cappella Ammersee, ao vivo em Freising, Alemanha, 2012]

Brockes-Passion, de Keiser

Ano: 1712

O teólogo luterano Barthold Heinrich Brockes (1680-1747) publicou em 1712 em Hamburgo um libreto de oratória com o título A História de Jesus, Sofrendo e Morrendo pelos Pecados do Mundo (Der Für Die Sünde der Welt Gemaerterte und Sterbende Jesus) centrado na Paixão de Cristo conforme descrita no Evangelho de S. João. O texto, que ficaria conhecido como Brockes-Passion, revelar-se-ia decisivo para a evolução da oratória da Paixão no mundo germânico, foi musicado pelos grandes compositores alemães do seu tempo – Reinhard Keiser (1712), Georg Philipp Telemann (1716), Johann Mattheson (1718), Georg Friedrich Handel (1719), Johann Friedrich Fasch (1723) e Gottfried Heinrich Stölzel (1725), entre outros – e foi usado parcialmente por Bach na sua Paixão Segundo S. João.

O compositor que estreou o libreto de Brockes, Reinhard Keiser (1674-1739), é hoje conhecido apenas dos especialistas, mas foi no seu tempo tão popular como Telemann, Handel ou Bach, sobretudo pelas óperas compostas para a Oper am Gänsemarkt, em Hamburgo, instituição que dirigiu (e moldou) durante muitos anos. Mas a sua produção sacra não é menos notável e contribuiu, certamente, para que, em 1728, se tornasse director musical da catedral de Hamburgo.

[Coro de abertura “Mich vom Stricken Meiner Sünden”, pelo coro Vox Luminis e pelo ensemble Les Muffatti, em instrumentos de época, com direcção de Peter Van Heyghen (Ramée)]

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Brockes-Passion TWV5:1, de Telemann

Ano: 1716

Georg Philipp Telemann (1681-1767) foi um dos mais prolíficos compositores de sempre e levou a sério a obrigação de apresentar todas as Sextas-Feiras Santas uma nova Paixão durante os 46 anos – de 1721 a 1767 – em que foi director musical da cidade de Hamburgo, produção assombrosa de que chegaram aos nossos dias “apenas” 23 Paixões.

A primeira Paixão que compôs é anterior e data do período em que foi mestre de capela em Frankfurt (1712-21): é uma obra que recorre ao célebre libreto de Barthold Heinrich Brockes e que Telemann viria a apresentar, em versões revistas, noutras ocasiões, e que Johann Sebastian Bach também daria a ouvir em Leipzig, em 1739.

O libreto de Brockes visa comover o ouvinte e para tal exacerba as emoções e deleita-se na descrição dos momentos cruentos da Paixão de Cristo. Telemann responde com duas horas e meia de drama musical de invenção e variedade inesgotáveis – até os espinhos penetrando na carne se tornam audíveis no accompagnato “Verwegner Dorn”.

[Ária “Mein Vater!”, por Johannes Weisser (barítono) e a Akademie für Alte Musik Berlin, em instrumentos de época, com direcção de René Jacobs (Harmonia Mundi)]

Brockes-Passion HWV 48, de Handel

Ano: 1719

Georg Friedrich Handel (1685-1759) nasceu em Halle e viveu na Alemanha parte da juventude – nomeadamente na Ópera de Hamburgo, onde conviveu com Keiser e Mattheson – mas cedo rumou a outras paragens, primeiro viajando por Itália e, após uma escala em Hannover, fixando-se em Londres. Isto explica a magreza da sua obra em alemão, onde, além de breves peças sacras do seu tempo de estudante, apenas avultam as Árias Alemãs e a Brockes-Passion, que é hoje muito menos conhecida do que as suas oratórias inglesas e italianas.

A versão de Handel do libreto de Barthold Heinrich Brockes estreou na catedral de Hamburgo na Sexta-feira Santa de 1719, mas ignoram-se as circunstâncias da sua encomenda e composição. Há quem sugira que Handel, que estava estabelecido em Londres desde 1712, se terá deslocado à Alemanha para compor a obra, mas os seus biógrafos argumentam que os múltiplos compromissos londrinos do compositor não lhe permitiriam ausentar-se nesse período.

[Coro final, “Ich Bin Ein Glied an Deinem Leib”, pelo coro Collegium Floreum e pelo ensemble Musica Florea, em instrumentos de época, com direcção de Marek Stryncl, ao vivo na Igreja dos Santos Simão e Judas, Praga, 2014]

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Paixão segundo S. João BWV 245, de Bach

Ano: 1724

Entre as múltiplas obrigações de Johann Sebastian Bach (1685-1750) como Kantor de Leipzig contava-se a de fazer executar uma Paixão todas as Sextas-Feiras Santas. Além de várias Paixões de outros compositores – como Keiser, Stölzel e Telemann – que requeriam quase sempre trabalho de adaptação aos recursos vocais e instrumentais da ocasião (ou até uma completa reconstrução, complementada por peças de diversos compositores), Bach providenciou pelo menos três Paixões de sua autoria. Chegaram até nós as de S. Mateus e de S. João e o catálogo da obra de Bach lista mais duas, mas da de S. Marcos (estreada em 1731) apenas restou o libreto e a de S. Lucas é um flagrante erro de atribuição (a obra, de autor anónimo, foi copiada pela mão de Bach, daí o equívoco).

A Paixão segundo S. João sofreu várias remodelações quando das apresentações seguintes (nomeadamente em 1725, 1732 e 1749), o que deixa várias opções aos intérpretes de hoje.

[Coro inicial “Herr, Unser Herrscher”, pelo Bach Collegium Japan, em instrumentos de época, com direcção de Masaaki Suzuki. A música começa aos 0’50]

Paixão segundo S. Mateus BWV 244, de Bach

Ano: c.1727-29

É uma obra monumental, quer nas forças requeridas – duas orquestras e dois coros, a que se soma, pontualmente, um terceiro coro – quer na duração – cerca de três horas – quer na elaboração do libreto, que provém de três fontes: o Evangelho de Mateus, corais luteranos e textos de Christian Friedrich Henrici (sob o nom de plume de Picander) para as árias e recitativos, trabalhados em colaboração próxima com o compositor.

Esta complexidade de pouco serviria se não fosse articulada com uma prodigiosa variedade de invenção e por um meticuloso trabalho de orquestração, com diferentes instrumentos a serem convocados para criar os ambientes apropriados a cada ocasião – o que também pode ser conseguido suprimindo-os, como acontece na ária “Aus Liebe Will Mein Heiland Sterben”, em que a ausência de cordas e baixo contínuo cria uma sensação de desamparo e angústia: “Por amor/ Por amor quer morrer o meu Salvador/ Ele que nada sabe do pecado/ Que a desolação eterna/ E o castigo do Juízo Final/ Recaiam sobre a minha alma”.

[Ária “Aus Liebe Will Mein Heiland Sterben”, por Christian Fliegner (rapaz soprano) e La Petite Bande, em instrumentos de época, com direcção de Gustav Leonhardt (Deutsche Harmonia Mundi)]

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La Passione di Gesù Cristo, de Caldara

Ano: 1730

Pietro Metastasio (1698-1782) obteve um estrondoso sucesso como libretista de ópera, o que por vezes faz esquecer que também os seus textos para música sacra tiveram ampla difusão e aclamação. O mais popular foi a oratória La Passione di Gesù Cristo, que foi primeiro musicada por Antonio Caldara e conheceria mais 52 (cinquenta e duas!) versões até 1812, algumas delas rubricadas por compositores de primeiro plano, como Niccolò Jommelli, Josef Myslivecek, Antonio Salieri e Giovanni Paisiello.

A versão do veneziano Antonio Caldara (1670-1736) estreou em Viena, onde o compositor desempenhou funções de vice-mestre de capela imperial entre 1716 e a sua morte. Muitas das obras que Caldara compôs em Viena utilizaram textos de Metastasio, que era então o poeta oficial da corte.

[Ária “Dovunque il Guardo Giro”, por Lydia Teuscher (soprano) e Capricornus Ensemble Stuttgart, em instrumentos de época, com direcção (e trombone) de Henning Wiegräbe]

La Passione di N.S. Gesù Cristo, de Jommelli

Ano: 1749

O napolitano Niccolò Jommelli (1714-1774) notabilizou-se sobretudo pela torrencial produção de óperas – seis dezenas, muitas delas sobre libretos de Pietro Metastasio. Foi também sobre libreto de Metastasio – o mesmo que tinha sido estreado por Antonio Caldara 19 anos antes – que compôs La Passione di N.S. Gesù Cristo, a mais célebre das 15 oratórias que compôs, e que evidencia a transição do estilo barroco para o galante (e cuja atmosfera amável e nem sempre se adequa bem a exprimir o dramatismo dos eventos da Paixão).

[Dueto “Vi Sento, Oh Dio, Vi Sento”, por Anke Herrmann (soprano), Jeffrey Francis (tenor) e a Berliner Barock Akademie, em instrumentos de época, com direcção de Alessandro de Marchi (K617)]

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