Onze concertos unplugged que precisa de ouvir

Habituámo-nos a pensar o rock e a electricidade como um casal inseparável, mas, por vezes, quando os amplificadores se calam descobrem-se virtudes e facetas inesperadas em bandas que julgávamos conhecer bem

©DRFoo Fighters

Onze concertos unplugged que precisa de ouvir

Nirvana: MTV Unplugged

Data e Local: 18 de Novembro de 1993, Sony Music Studios, Nova Iorque.

É, provavelmente, o concerto unplugged mais célebre de sempre e foi aquele que tornou o formato popular junto das massas. Para isso contribuíram dois factores: os Nirvana estavam no zénite da popularidade e eram uma banda ostensivamente eléctrica, agressiva e rude, pelo que muitos terão ficado surpreendidos ao ver como as suas canções tinham belas melodias e davam bem conta de si sem distorção.

À data do concerto, Kurt Cobain só tinha pela frente mais seis meses pela frente e o facto de MTV Unplugged ter sido o último disco de uma banda que, em vida, deixou uma magra discografia de três álbuns de estúdio, ajudou a consolidar a aura deste unplugged, editado poucos meses após o suicídio de Cobain.

[“Come as You Are”, unplugged]

[Versão original, de Nevermind, 1992]

A disparidade entre os Nirvana “eléctricos” e os Nirvana “desligados” assume proporções cómicas na componente não-eléctrica da banda: Dave Grohl, que costuma martelar a bateria como se levasse a cabo um teste de resistência de materiais, assume aqui a postura de um miúdo que foi repreendido por comportamento inadequado e afaga peles e címbalos com infinitas cautelas.

Neil Young: MTV Unplugged

Data e Local: 7 de Fevereiro de 1993, Universal Studios, Los Angeles.

Aqui não há efeito de surpresa pelo desligar da electricidade: Neil Young levou toda a carreira a oscilar entre as mais doces e delicadas sonoridades acústicas e as tempestades eléctricas. Os seus discos anteriores, dão disso testemunho: Ragged Glory (1990) e Weld (1991) estão entre os mais desabridos e eléctricos, e foram seguidos pelo sereno e bucólico Harvest Moon (1992).

Este MTV Unplugged vale, pois, menos pelo efeito de revelação do que pelo estado de graça que gerou versões inolvidáveis de todo o repertório abordado e até “Transformer Man”, que na versão original de Trans (1982) soa como um choque frontal, com feridos graves, entre os Kraftwerk e Young, se torna numa grande canção. Outra grande reviravolta é operada com “Like a Hurricane”, uma canção bem eléctrica de American Stars ‘n’ Bars (1975) que aqui é tocada em harmónio e harmónica.

[“Like a Hurricane”, unplugged]

[Versão “eléctrica”, em Live Rust, 1978]

Publicidade

The Cure: MTV Unplugged

Data e Local: 24 de Janeiro de 1991, Limehouse Studios, Londres.

Os The Cure interpretaram o desligar da electricidade também como um convite ao abandono da atitude tensa e enérgica característica do concerto de rock e à adopção de uma postura relaxada e reclinada, apoiada em muitas almofadas. “Just Like Heaven” é (com toda a justiça) um dos seus temas mais populares e foi um dos singles de Kiss Me Kiss Me Kiss Me (1987).

[“Just Like Heaven”, unplugged]

[Versão original]

R.E.M.: MTV Unplugged

Data e Local: 10 de Abril de 1991, Chelsea Studios, Nova Iorque.

Os rendilhados de guitarras dos R.E.M. prestam-se bem ao formato acústico e a expressiva voz de Michael Stipe, que nos primeiros discos da banda era deliberadamente submersa na mistura, é posta em relevo quando a electricidade é desligada. “Fall on Me” é uma das grandes canções do álbum Lifes Rich Pageant, de 1986 (que, a ver bem, é quase exclusivamente constituído por grandes canções).

Em 2001, os R.E.M. voltariam a fazer um concerto unplugged para a MTV e as duas sessões foram coligidas num disco duplo editado em 2014.

[“Fall on Me”, unplugged]

[Versão original]

Publicidade

Björk: MTV Unplugged

Data e Local: 7 de Novembro de 1994, Nova Iorque.

Este é um dos unpluggeds mais improváveis, já que a maior parte da música de Björk recorria (e recorre) a teclados, caixas de ritmos, samplers, programações e variada maquinaria analógica e digital. O desafio foi enfrentado com audácia e imaginação, com abordagens e instrumentações diferenciadas para cada canção: por exemplo, “One Day” (de Debut, de 1993) troca a parafernália electrónica por uma orquestra de gamelão de Java, tabla indiana e tuba e o resultado, sendo da ordem do miraculoso, tem mesmo de ser visto para se crer.

[“One Day”, unplugged]

[Versão original]

Pearl Jam: MTV Unplugged

Data e Local: 16 de Março de 1992, Kaufman Astoria, Nova Iorque.

O unplugged dos Pearl Jam em Nova Iorque até foi gravado antes do dos Nirvana, mas, embora a banda disfrutasse então de um culto comparável ao dos Nirvana, como o registo só foi lançado muitos anos depois e numa edição não-oficial, não teve o impacto do da banda de Cobain.

Embora mais “musculado” – na bateria, Dave Abbruzzese toca como se estivesse um concerto eléctrico – oferece excelentes versões. Uma das mais contrastantes com o original é “Even Flow”, que é uma das mais intensas do álbum de estreia, Ten (1991).

[“Even Flow”, unplugged]

[Versão original]

Publicidade

Smashing Pumpkins: Acoustic 1993

Data e Local: o conteúdo do disco (não-oficial) Acoustic 1993 provém de várias actuações unplugged realizadas (maioritariamente) em 1993, nos estúdios da VPRO Radio em Hilversum (Holanda) e da BBC em Londres, na Maison de Radio France, em Paris, e em Chicago e Milwaukee, nos EUA.

Não só os Smashing Pumpkins eram assumidamente eléctricos como a sua sonoridade assentava na distorção maciça das guitarras, gerando “muralhas de som” opacas e intimidantes, e num denso e implacável trabalho de bateria. A versão unplugged de “Rocket”, extraída da obra-prima que é Siamese Dream (1992), mostra que sob a carapaça de electricidade e fúria existem belas melodias.

[“Rocket”, unplugged]

[Versão original]

Silversun Pickups: MTV Unplugged

Data: 2009

Os Silversun Pickups têm várias afinidades com os Smashing Pumpkins e entre elas estão riffs demolidores, um uso liberal de distorção e uma sonoridade de extrema densidade, o que faz com que o contexto unplugged revele novas facetas das canções – é o que acontece com “Panic Switch” (do álbum Swoon, de 2009) neste concerto em que a banda recebe o reforço de um quarteto de cordas.

[“Panic Switch”, unplugged]

[Versão original]

Publicidade

Beck: Live at KCRW

Data e Local: 31 de Outubro de 2006, no programa “Morning Becomes Eclectic”, da rádio KCRW, Seattle, EUA

Beck começou em modalidade acústica (uma espécie de trash folk ganzado), mas rapidamente incorporou samplers, programações e teclados com todo o ar de terem sido comprados numa loja de penhores, para cumprir o seu desígnio de transformar detritos em ouro. “Cellphone’s Dead” provém do seu sétimo disco, The Information (2006), e vê os seus arranjos serem radicalmente reinventados nesta sessão para a KCRW (e nem um ligeiro despiste aos 2’32’’ compromete o fascínio da performance).

[“Cellphone’s Dead”, unplugged]

[Versão original]

Placebo: MTV Unplugged

Data: 2015

Mais uma banda de forte componente eléctrica, mas cujas canções funcionam bem em formato acústico. “The Bitter End” provém do quarto álbum, Sleeping with Ghosts (2003) e retém toda a tensão e ímpeto da versão eléctrica.

[“The Bitter End”, unplugged]

[Versão original]

Publicidade
Mostrar mais

Playlist Time Out

10 clássicos rock reinventados pelo jazz

Em tempos, julgou-se que o jazz só se alimentava de standards, mas tem vindo a descobrir-se que o seu estômago é capaz de digerir todo o tipo de música, como é o caso destas canções, maioritariamente dos anos 70.

Ler mais
Por José Carlos Fernandes

10 concertos pop-rock ao vivo com orquestra

O pop-rock sofre de algum complexo de inferioridade face à música dita “erudita” e é por essa razão que alguns grupos vêem na actuação com uma orquestra clássica uma forma de ganhar respeitabilidade. Quem pensa assim está equivocado, pois o pop-rock não precisa de envergar traje de cerimónia para ser digno, fica muito bem de calças de ganga rasgadas e t-shirt desbotada. 

Ler mais
Por José Carlos Fernandes
Publicidade

10 pérolas secretas da música pop

O prólogo ao livro de poemas Os conjurados (1985), a derradeira obra de Jorge Luís Borges, é tão precioso e iluminador como o melhor dos seus poemas. Escreve Borges, do alto da infinita sabedoria dos seus 86 anos: “Com o correr dos anos, observei que a beleza, tal como a felicidade, é frequente. Não se passa um dia em que não estejamos, um instante, no paraíso. Não há poeta, por medíocre que seja, que não tenha escrito o melhor verso da literatura, mas também os mais infelizes. A beleza não é privilégio de uns quantos nomes ilustres”. Seguem-se dez comprovativos: músicas pop que poucos conhecem, mas todos deviam conhecer. 

Ler mais
Por José Carlos Fernandes

Comentários

0 comments