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La Fanciulla del West
La Fanciulla del West

Oito óperas de Puccini que precisa de ouvir

A subida ao palco do São Carlos de “La Bohème” serve de pretexto para recordar outras óperas de Puccini.

Por José Carlos Fernandes
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Giacomo Puccini nasceu a 22 de Dezembro de 1858 em Lucca, Itália, num ambiente familiar que se diria não poder ser mais favorável a uma carreira musical: o posto de mestre de capela na Catedral de San Martino estava nas mãos dos Puccini desde 1740 – o primeiro fora o seu trisavô Giacomo (1712-1781). Esta sucessão dinástica foi, todavia, interrompida ao fim de 124 anos, quando, em 1864, Michele Puccini faleceu, pois o seu filho Giacomo, com apenas seis anos, era, claro, demasiado novo para herdar o cargo. O jovem Giacomo, que já fazia parte dos meninos de coro na catedral, prosseguiu os estudos com o tio Fortunato Magi e, depois, no Conservatório de Milão.

Aos 21 anos, como prova de fim de curso, Puccini compôs uma missa, conhecida como Messa di Gloria, que foi estreada na catedral onde os seus antepassados tinham sido mestres de capela, mas terminou aí o seu vínculo à música religiosa: toda a sua carreira foi consagrada à ópera. A primeira, Le Villi (1884) teve recepção morna, mas teve o condão de atrair a atenção de Giulio Ricordi, que estava à frente da editora musical Ricordi, que lhe encomendou uma segunda ópera. Edgar (1889) teve também recepção morna e foi retirada após a terceira récita. Porém, Ricordi não deixou de depositar fé nas qualidades do jovem Puccini e encomendou-lhe uma terceira ópera, Manon Lescaut, que teve acolhimento entusiástico e catapultou Puccini para a primeira linha da ópera mundial.

La Bohème no São Carlos

Oito óperas de Puccini que precisa de ouvir

Manon Lescaut

Data e local da estreia: 1 de Fevereiro de 1893, Teatro Regio, Turim
Libreto: Luigi Illica, Marco Praga e Domenico Oliva, a partir de L’Histoire du Chevalier des Grieux et de Manon (1731), do Abbé Prévost.

Em 1884, estreara em Paris a ópera Manon, de Jules Massenet, inspirada em L’Histoire du Chevalier des Grieux et de Manon, do Abbé Prévost. O romance já tinha inspirado duas óperas anteriores, de Halévy e Auber, mas nenhuma delas obteve o êxito da Manon de Massenet. Puccini não a viu – só estrearia em Itália em 1891 – mas soube do êxito, estudou a partitura e propôs-se compor a sua versão. Ricordi tentou dissuadi-lo do insensato propósito de desafiar comparações com uma ópera que estava a obter um sucesso estrondoso, mas Rossini retorquiu-lhe: “Porque não podem haver duas óperas sobre Manon? Uma mulher como Manon pode bem ter mais do que um amante”.

O início da composição não foi auspicioso: Puccini começou por aceitar o libreto confeccionado por Marco Praga e Domenico Oliva, mas ao fim de pouco tempo estava a exigir que fosse reformulado. Praga abandonou a equipa e para o seu lugar entrou Ruggiero Leoncavallo, que também acabou por desistir; foi então chamado Luigi Illica, com a missão de reescrever todo o libreto e Oliva, não se reconhecendo no resultado, também se desvinculou do projecto. Puccini ficou muito satisfeito com o trabalho de Illica, que se tornou no libretista das suas três óperas seguintes.

A história da jovem Manon é a de uma vacilação entre amor e dinheiro: apaixona-se pelo Chevalier des Grieux, mas quando o dinheiros deste se acaba, deixa-o para se tornar amante de Geronte, que é velho mas rico. Des Grieux aparece na casa de Geronte e a paixão entre ele e Manon reacende-se: ela rejeita Geronte e prepara-se para fugir com des Grieux, mas cede à tentação de levar consigo as jóias que Geronte lhe oferecera e acaba por ser presa, acusada de roubo. É condenada ao degredo na Louisiana e des Grieux consegue introduzir-se no navio que a leva. Em Nova Orleães as coisas não correm bem e Manon e des Grieux fogem da cidade – acabam por perder-se no deserto e Manon sucumbe nos braços de des Grieux.

[Dueto “Tu, tu amore”, por Maria Callas (Manon), Giuseppe Di Stefano (des Grieux), 1957]

La Bohème

Data e local da estreia: 1 de Fevereiro de 1896, Teatro Regio, Turim
Libreto: Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, a partir de Scénes de la Vie de Bohème (1851), de Henri Murgier

Henri Murgier sabia do que falava quando escreveu o folhetim que publicou entre 1845 e 1849 na revista Le Corsaire, descrevendo o quotidiano da boémia no Quartier Latin. Murgier vivia numa mansarda e passava a vida a saltitar entre um biscate e outro. Entre outras coisas, foi alfaiate e porteiro, antes de se tornar “escritor a metro” para toda e qualquer finalidade. Rabiscou poesia e foi editor de um jornal de moda e de um boletim da indústria de chapelaria, antes de enveredar pela ficção. O sucesso chegou quando um dramaturgo o convidou  a adaptar o folhetim ao teatro – o êxito da peça levou a que Murgier refundisse as histórias soltas como romance e o publicasse como Scénes de la Vie de Bohème.

Esta vida de artistas pobres mas desenrascados e bem-humorados, que enfrentam privações e desaires com chalaças, está vivamente retratada no início da ópera La Bohème, mas o libreto vai desviando-se progressivamente do romance de Murgier e o dramalhão romântico cedo sobrepõe-se às divertidas cenas boémias e tudo acaba com tísicas a vomitar sangue e toda a gente a chorar baba e ranho. A música, subtil, trepidante e cuidadosamente planeada, é da melhor que Puccini compôs.

[Dueto “O Soave Fanciulla”, por Jonas Kaufmann (Rodolfo) e Anna Netrebko (Mimi), ao vivo em Munique, 2015]

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Tosca

Data e local da estreia: 14 de Janeiro de 1900, Teatro Costanzi, Roma
Libreto: Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, a partir da peça La Tosca (1887), de Victorien Sardou

Se, parafraseando Alfred Hitchcock, uma ópera é tanto melhor quanto pior for o “mau da fita”, Tosca não tem rival. É que o Barão Scarpia, o chefe da polícia de Roma, não se limita a ser um simples vilão: é um monstro inumano, é a encarnação do Mal. O próprio nome é revelador: “Scarpia” tem uma sonoridade que assenta que nem uma luva numa criatura maligna.

A peça de Sardou atraiu o faro teatral de Puccini logo em 1889, mas só em 1898 se reuniram as condições para que o compositor começasse a trabalhar. A estreia foi um fiasco e a crítica não foi branda, acusando o libreto de ser vulgar e melodramático, mas o público acabou por se entusiasmar e transformou Tosca num sucesso. Hoje é uma das óperas mais populares de todo o repertório, embora alguma crítica tenha persistido em ignorá-la ou em apontar-lhe fraquezas.

Quem conhece a intriga de Tosca já sabe que o final rivaliza em violência com um filme de Tarantino: Scarpia subestima a determinação e audácia de Tosca, julga-se capaz de manipulá-la e acaba apunhalado pela indómita cantora. Pelo seu lado, Tosca subestima a perfídia e matreirice de Scarpia e o seu Cavaradossi acaba fuzilado a sério num fuzilamento que deveria ser a fingir – e Tosca, desesperada com a morte do amante, precipita-se do alto das muralhas do Castelo de Sant'Angelo. As suas últimas palavras vão para Scarpia: “Encontramo-nos perante Deus!”.

[“Recondita Armonia”, por Plácido Domingo (Cavaradossi) e New Philharmonia Orchestra, com direcção de Bruno Bartoletti, 1976]

Madama Butterfly

Data e local da estreia: 17 de Fevereiro de 1904, Teatro alla Scala, Milão
Libreto: Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, a partir da peça Madame Butterfly: A Tragedy of Japan (1900), de David Belasco, que adaptava o conto Madame Butterfly (1898), de John Luther Long, que, por sua vez, se inspirava – sem o creditar – no romance semi-autobiográfico Madame Chrysanthème (1887), de Pierre Loti.

O enredo de Madama Butterfly opõe o amor puro e cego de uma rapariga japonesa de 15 anos (Cio-Cio San, aliás Madama Butterfly) ao cinismo distante de um oficial da marinha americana (Pinkerton) de passagem pelo Japão. Butterfly crê que a cerimónia de casamento que os uniu é para a vida, Pinkerton quer apenas gozar uns bons momentos. Pinkerton desaparece, está três anos sem dar notícias e quando regressa traz consigo a esposa “a sério”, Kate. Só então Butterfly, que entretanto dera à luz um filho de Pinkerton, compreende quão vão fora o seu amor e sai de cena com a ajuda de um punhal.

Após Tosca (1900), Puccini considerara e rejeitara incontáveis livros e peças como ponto de partida para a sua ópera seguinte. Inesperadamente, acabou por ficar fascinado por uma peça de David Belasco, a que assistiu num teatro londrino – embora pouco ou nada soubesse de inglês – que, em última análise se inspirava em Madame Chrysanthème, um romance semi-autobiográfico, de Pierre Loti, que já servira de base ao libreto de uma ópera homónima de André Messager, estreada em 1893 em Paris.

Hoje já ninguém se lembra da ópera de Messager (ou sequer de Messager) e a verdade é que os libretos acabam por ter diferenças significativas. Madama Butterfly também poderia ter caído no esquecimento, pois teve uma estreia calamitosa em Milão. Porém, a versão revista, estreada meses depois em Brescia, foi recebida entusiasticamente – e ainda em 1904 já era aplaudida em Buenos Aires, Montevidéu, Alexandria e Cairo. Chegaria ao Japão em 1914.

[“Vogliatimi Bene”, por Ermonela Jaho (Cio-Cio San), Marcelo Puente (Pinkerton) e Orquestra da Royal Opera House, direcção de Antonio Pappano, Royal Opera House, Londres, 2017]
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La Fanciulla del West

Data e local da estreia: 10 de Dezembro de 1910, Metropolitan Opera, Nova Iorque
Libreto: Guelfo Civilini e Carlo Zangarini, a partir da peça The Girl from the Golden West (1905), de David Belasco

Em 1907, quando da sua estadia em Nova Iorque, para assistir às estreias na Metropolitan Opera de Manon Lescaut e Madama Butterfly, Puccini viu mais três peças do mesmo David Belasco que inspirara Madama Butterfly. Na altura não parece ter ficado favoravelmente impressionado, mas uma delas, The Girl from the Golden West, acabou, pouco a pouco, por impor-se como assunto da sua próxima ópera. Após uma Madama Butterfly ambientada no cenário exótico do Japão, o pano de fundo era agora o Oeste Selvagem, sobre o qual Puccini sabia tão pouco quanto sobre o Japão. Na indisponibilidade do habitual colaborador Luigi Illica, o libreto foi confiado a Carlo Zangarini, que tinha como (duvidosa) credencial o facto de a mãe ser americana; mais uma vez, Puccini, insatisfeito com o resultado, forçou o libretista a aceitar que o texto fosse reescrito por outro colaborador, o poeta Guelfo Civilini.

La Fanciulla del West (A Rapariga do Oeste) é a história de como Minnie, a dona de um saloon numa vilória de mineiros, se deixa enredar da “canção do bandido”, apaixonando-se pelo fora-da-lei Ramerrez – que se apresenta sob o disfarce de Dick Johnson. Acaba por meter-se em sérios apuros para salvar a vida do patife, que é perseguido pelo sheriff Jack Rance e por uma turba de mineiros dispostos a fazer justiça pelas suas próprias mãos, mas tudo acaba bem, com Minnie e Johnson/Ramerrez a cavalgar em direcção a um futuro radioso.

[“Ch’ella Mi Creda Libero e Lontano”, por Jonas Kaufmann e Orquestra da Metropolitan Opera, direcção de Marco Armiliato, encenação de Giancarlo del Monaco, Metropolitan Opera, Nova Iorque, 2018]

La Rondine

Data e local da estreia: 27 de Março de 1917, Opéra de Monte-Carlo
Libreto: Giuseppe Adami, Alfred Maria Willner, Heinz Reichert

Um cocktail amargo – assim pode descrever-se, sucintamente, esta ópera pouco conhecida estreada em Monte Carlo, já que a I Guerra Mundial impedia a apresentação no Carltheater de Viena, que a tinha encomendado em 1913.

La Rondine (A Andorinha) tem ambiente frívolo – começa com o poeta Prunier a anunciar que a nova moda em Paris é o “amor romântico” – e tem por cenário salões do jet set parisiense, cabarets e casas de verão à beira-mar, mas o desenlace desta feira de futilidades acaba por ser sombrio e desencantado.

Talvez por achar o libreto pouco inspirador, Puccini também não está aqui no seu melhor – após La Fanciulla del West, almejava renovar-se e dar um audacioso salto em frente e acabou por dar alguns passos atrás. As coisas não começaram bem, pois Puccini achou detestável o libreto original, de Alfred Maria Willner, e só conseguiu engoli-lo após duas revisões/adaptações, primeiro por Heinz Reichert, depois por Giuseppe Adami. Também não ficou satisfeito com o seu próprio trabalho, pois fez sucessivas revisões que geraram três versões, com finais diferentes, mas faleceu antes de ter produzido uma versão definitiva.

[Quarteto “Bevo al Tuo Fresco Sorriso”, por Renée Fleming (Magda), Jonas Kaufmann (Ruggero), Barbara Vignudelli (Lisette), Paolo Cautoruccio (Prunier) e Coro & Orquestra Sinfónica de Milão, direcção de Marco Armiliato, do álbum Verismo (Decca)]

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Gianni Schicchi

Data e local da estreia: 14 de Dezembro de 1918, Metropolitan Opera, Nova Iorque
Libreto: Giovacchino Forzano, a partir de um trecho do Inferno de Dante

O tom é de comédia: a família do abastado Buoso Donati chora lágrimas de crocodilo pela sua morte, mas rapidamente aquelas dão lugares a lágrimas sinceras quando descobrem que o falecido deixou a fortuna a um convento. Gianni Schicchi é um arrivista que propõe à chorosa família ocultar a morte do patriarca e fazer-se passar pelo falecido perante um notário. Os abutres acolhem entusiasticamente a ideia, mas ficam estarrecidos quando descobrem que o testamento ditado por Schicchi/Donati lhes distribui umas migalhas e reserva o grosso da maquia para o próprio Schicchi. Gianni Schicchi deveria ter feito parte de uma trilogia de óperas de um acto cada uma delas baseada numa das parte da Divina Comédia, mas, as duas outras óperas de Il Trittico (O Tríptico), Il Tabarro e Suor Angelica, acabaram por ter temas diversos. As três óperas foram estreadas em simultâneo, mas hoje em dia é frequente que sejam acopladas com óperas breves de outros compositores.

[“O Mio Babbino Caro”, por Ekaterina Siurina (Lauretta) e Orquestra da Royal Opera House, direcção de Antonio Pappano, encenação de Richard Jones, Royal Opera House, Londres, 2011]

Turandot

Data e local da estreia: 25 de Abril de 1926, Teatro alla Scala, Milão
Libreto: Renato Simoni e Giuseppe Adami, a partir da peça Turandotte (1762), de Carlo Gozzi, que fora alvo de uma encenação moderna em Berlim, em 1911, por Max Reinhardt

A roleta russa todos sabem o que é, mesmo os que não viram O Caçador, de Michael Cimino. A lotaria chinesa é menos conhecida e ainda mais arriscada e rege-se por estas regras: por decreto do imperador da China, Altum, o pretendente de sangue real que seja capaz de adivinhar os três enigmas postos pela sua filha, a princesa Turandot, receberá a sua mão e o trono imperial. A proposta é tentadora, mas as letras pequenas do contrato são capazes de arrefecer os ânimos dos potenciais concorrentes: quem falhar a resolução dos enigmas será decapitado. É o que acontece ao Príncipe da Pérsia logo no início da ópera, o que não dissuade Calaf, filho de Timur, rei da Tartária, de apresentar a sua candidatura.

Tal como houve uma Madame Chrysantème de Messager a preceder Madama Butterfly, também em 1917 estreara a Turandot de Ferruccio Busoni, o que não dissuadiu Puccini de musicar a peça. E com tanto empenho o fez que Turandot é por muitos considerada o cume da sua obra, embora um cancro na garganta tenha impedido o compositor de a terminar.

[“Nessun Dorma”, por Plácido Domingo e Orquestra da Metropolitan Opera, direcção de James Levine, Metropolitan Opera, Nova Iorque, 1987]

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