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Música, Rock, The White Stripes, Seven Nation Army Clip
©DR Seven Nation Army, The White Stripes

Quando a música clássica faz pop

Uma dúzia de canções pop/rock nascidas de peças clássicas. Mesmo que nem todas reconheçam a paternidade

Por João Pedro Oliveira
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As influências clássicas sobre o pop/rock são muitas e evidentes. É um acontecimento que se torna tanto mais interessante quanto menos nos empenharmos na caça ao plágio e mais nos interessarmos por compreendê-lo no contexto da longa história de intersecções entre a música erudita e a música popular. Uma história que ganha especial relevância com a explosão de géneros e públicos musicais ao longo do século XX, num tempo recheado de êxitos globais construídos em cima de partituras clássicas. Só as influências de Bach dariam todo um tratado à parte. Há de tudo, desde citações directas a simples inspirações, de pequenos arremedos a gamanços descarados, de imitações involuntárias a paródias declaradas. As influências podem ser inconscientes, assumidas ou envergonhadas, mas estão lá para quem quiser ouvir. Eis uma dúzia de exemplos em que talvez nunca tenha reparado.

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“Whiter Shade of Pale”, Procol Harum

Se pensarmos bem, Johann Sebastian Bach é, além de tudo mais, a primeira estrela rock. Ei-lo aqui a servir de inspiração a uma das mais memoráveis baladas da história da música popular. “Whiter Shade of Pale” foi o single de estreia dos Procol Harum em 1967 e vendeu uns valentes dez milhões de exemplares – a que é preciso somar ainda as vendas do álbum de lançamento homónimo da banda, onde a canção foi incluída, para vendas fora do Reino Unido. A inspiração da composição é óbvia e assumida, e mais depressa apanhamos o rasto à “Suite Orquestral n.º3 em Ré Maior” de Bach (vulgarmente conhecida por “Air”) do que conseguimos decifrar qualquer sentido na letra enigmática escrita por Keith Reid.

“Air”, Bach

“Plug in Baby”, Muse

Ora aqui vai mais um exemplo da influência barroca sobre a pop/rock. Houvesse electricidade no seu tempo, e provavelmente Bach teria ocasionalmente trocado o alaúde por uma Fender Stratocaster ou o cravo por uma Manson como a de Matt Belamy, dos Muse. É ouvir o riff de guitarra do electrizante “Plug in Baby”, guardado no álbum Origin of Symmetry (2001) da banda britânica, e depois atentar na “Tocata e Fuga em Ré Maior”, do compositor alemão (1707). A versão da peça de Bach interpretada neste vídeo com guitarra pela Camerata Florianópolis dá uma ajuda.

“Tocata e Fuga em Ré Menor”, Bach

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“Seven Nation Army”, The White Stripes

O riff de guitarra de Jack White ganhou uma vida própria para lá de Seven Nation Army, que valeu aos White Stripes o Grammy de Melhor Canção Rock de 2003. Hoje, a sequência melódica é usada como cântico em estádios de futebol por todo o mundo, e aquelas sete notas servem para entoar palavras de ordem, nomes de equipas e de jogadores (“Cris-ti-a-no-Ro-nal-do”, por exemplo). Em 2018, a Universal apresentou queixa de plágio contra os compositores de “Toy”, a canção israelita que um ano antes venceu a Eurovisão em Lisboa, alegando que tinha semelhanças com “Seven Nation Army”. Chegou-se então a um acordo e Jack White passou a ser creditado como co-autor da toada galinácea interpretada por Neta Barzilai. Mas não consta que o austríaco Anton Bruckner tenha sido incluído também na lista de créditos, por eventuais semelhanças com uma passagem da sua Sinfonia n.º 5 em si bemol maior, escrita uns anos antes, em 1876.

Sinfonia n.º 5, Anton Bruckner

“Russians”, Sting

Em 1985, Sting quis denunciar a loucura da Mutual Assured Destruction, a doutrina dominante na Guerra Fria, e que casa melhor com o seu acrónimo (MAD), segundo a qual o equilíbrio entre duas partes beligerantes se atinge no ponto em que ambos sabem que qualquer agressão entre si resultará na aniquilação mútua. Para o fazer, recorreu à ajuda de Prokofiev e rogou que os russos temessem tanto pelos seus filhos quanto quem estava deste lado da cortina de ferro. A melodia é composta em cima da segunda parte (o Romance) da suite Tenente Kijé, composta por Prokofiev para um filme homónimo e esquecido de 1933. Está em The Dream of the Blue Turtles, primeiro álbum a solo do ex-Police.

“Romance”, Tenente Kijé, Prokofiev

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“My Reverie”, Lary Clinton (Ella Fitzgerald)

Em 1938, Larry Clinton criou este tema de jazz em cima da peça de Claude Debussy e até manteve a referência no nome (que pode, de facto, ser lido como “a minha versão de Reverie"). O tema sedimentou como um standard de jazz à custa de uma longa linhagem de interpretações, onde achamos nomes como Glenn Miller, Sarah Vaughan, Tony Bennett, Keely Smith, Dizzy Gillespie, Sonny Rollins, Stan Kenton ou Ray Conniff. Escolhemos para audição a interpretação delicada que Ella Fitzgerald emprestou à melodia desenhada pelo impressionista francês.

“Reverie”, Debussy

“Bourrée”, Jethro Tull

Em 1969, Ian Anderson inscreveu esta variação da peça de Bach em Stand Up, o segundo álbum dos Jethro Tull. O original foi escrito na alvorada do século XVIII para alaúde e popularizou-se como peça para guitarra, mas Anderson adaptou os oito primeiros compassos à sua flauta endiabrada (em inglês, lute e flute estão a apenas uma letra de distância). Paul McCartney, que em gaiato estudou a obra barroca, já admitiu que também se inspirou nela para compor as entradas de guitarra de “Blackbird” e de “Jenny Wren”. Mas se escancararmos esta conversa às simples inspirações, arriscamos ter de creditar metade da música pop decente deste mundo em nome do alemão.

“Bourrée em Mi Menor”, Bach

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“Never Forget”, Take That

É difícil imaginar uma chusma de adolescentes a entrar em histeria às primeiras notas de uma peça de Verdi. A não ser, claro, que estivessem algures na década de 90, plantadas frente a um palco ocupado pelos Take That. Gary Barlow mordiscou sem pejo a fanfarra de metais do Requiem de Verdi para arrancar uma das canções mais populares do grupo. Está guardada em Nobody Else, álbum de 1995, e foi o sétimo single dos britânicos a atingir o número 1 de vendas no Reino Unido.

Curiosidade: Robin Williams abandonou os Take That no meio da promoção desta canção, coisa que a banda nunca vai esquecer – se é permitida a chalaça.

“Tuba Mirum”, Requiem, Verdi

“Can't Help Falling In Love With You”, Elvis Presley

Em 1859, quando Berlioz recuperou e orquestrou a canção composta 75 anos antes por Jean-Paul-Égide Martini, não a terá imaginado cantada um século mais tarde por Elvis Presley. Em rigor, a canção não é a mesma, mas a inspiração é clara e perfeitamente assumida por Hugo Peretti, Luigi Creatore e George David Weiss, que assinaram este “Can’t Help Falling in Love With You”, pedindo emprestados os primeiros compassos da melodia de Martini. E assim nasceu uma segunda canção que por duas vezes trepou aos tops de referência do Reino Unido e dos Estados Unidos: em 1962, na voz de Elvis, e em 2003, com a versão dos UB40.

Curiosidade: a canção original também foi fazendo caminho no século XX, nas vozes de Nana Mouskouri, Marianne Faithfull ou Joan Baez.

“Plaisir D'Amour”, Jean-Paul-Égide Martini (orquestração de Berlioz)

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“Altogether Now”, The Farm e “Go West”, Village People

A quantidade de canções que se baseiam no “Cânone em Ré Maior” de Pachelbel é extensa ao ponto de já terem classificado o compositor alemão (1653-1706) como o avô da música pop. Seja discretamente, copiando a progressão harmónica, seja importando o desenho melódico às claras, os exemplos mereciam toda uma lista à parte (no fundo, reforçando a ideia de cânone). Por isso, excepcionalmente, escolhemos duas. A primeira é “Altogether Now”, o hit single que os The Farm lançaram em 1990, e que presta tributo directo e evidente à peça clássica.

A segunda é “Go West”, dos Village People, um hino à exuberância que segue a exacta sequência barroca de acordes.

Cânone em Ré Maior, Pachelbel

“Little Me”, Little Mix

A ideia temática de abertura de “Pavane”, uma das obras fundamentais de Gabriel Fauré (1845-1924), é usada como um motivo recorrente num dos temas mais populares das Little Mix. Dito de outra forma, a peça do francês serve de sample às inglesas. Está lá, bem audível, e não carece de grande explicação. Pode ser encontrada em Salute, de 2013, o segundo álbum da girls band.

“Pavane”, Fauré

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“Lady Lynda”, Beach Boys

A abertura é óbvia: “Lady Lynda”, canção dos Beach Boys, arranca com o tema principal de “Herz und Mund und Tat und Leben”, cantata de Bach vulgarmente conhecida pela sua tradução inglesa, “Jesu, Joy of Man’s Desiring” (ou, simplesmente, “Joy”). Mas mesmo a melodia composta por Al Jardine e Ron Altbach para o L.A. (Light Album), de 1979, segue toda ela, discretamente, a linha melódica de Bach.

Curiosidade: a letra da canção refere-se à então mulher de Jardine, Lynda Jardine. Acabaria por ser rescrita anos mais tarde, depois do seu divórcio, com o título "Lady Liberty" e convertida num tributo à Estátua da Liberdade.

“Herz und Mund und Tat und Leben”, Bach

“All By Myself”, Eric Carmen

Em 1975, Eric Carmen criou o seu maior sucesso de sempre em cima do segundo movimento (Adagio sostenuto) do Concerto para piano n.º 2 de Rachmaninoff. Na verdade, toda a linha melódica de “All By Myself”, à excepção do refrão, é uma citação directa da peça clássica concluída em 1901. Com isto Carmen ganhou uma nova legião de fãs e uma cartinha dos gestores da herança do compositor russo a questioná-lo sobre direitos de autor. Carmen assumia claramente a citação. Mais que isso, reconhecia também que um outro dos seus temas, "Never Gonna Fall in Love Again", se baseou no terceiro movimento da Sinfonia n.º 2 de Rachmaninoff. Acontece que o americano pensava que a obra de Rachmaninoff fosse então do domínio público em todo o mundo, como o era já nos Estados Unidos. Só que não. A questão ficou resolvida com a cedência de 12% dos direitos sobre cada canção à Fundação Serge Rachmaninoff. Considerando o sucesso de “All By Myself”, amplificado com a ajuda de Frank Sinatra e, sobretudo, vinte anos depois com a versão de Celine Dion, parece que ninguém ficou a perder.

“Adagio”, Concerto para Piano n.º 2, Rachmaninoff

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