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Arte, Pintura, O Cantor Espanhol, Édouard Manet
©DR Quadro de Édouard Manet

Seis concertos para guitarra que precisa de ouvir

A guitarra domina o rock, mas tem papel discreto na música clássica, o que não impede que tenha sido escolhida como solista de vários concertos

Por José Carlos Fernandes
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Apesar da sua popularidade noutros géneros, a guitarra sempre teve dificuldade em impor-se na música clássica e nenhum compositor de primeiro plano lhe deu atenção, o que pode explicar-se, em parte, por o instrumento não ser muito expressivo e produzir fraco volume sonoro, pelo que se arrisca a ser submerso pela orquestra. O problema do limitado volume sonoro do instrumento, que já ditara a escassa produção de concertos para alaúde no período barroco, foi agravando-se com o aumento da dimensão das salas de concerto e das orquestras ao longo do século XIX. Não é, pois, de estranhar que um único concerto para guitarra tenha logrado obter aceitação geral: o Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo. Mas há mais.

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Seis concertos para guitarra que precisa de ouvir

1. Concerto para guitarra n.º 1 op.30, de Giuliani

Ano: 1812

Mauro Giuliani (1781-1829) começou por estudar violoncelo, mas assim que descobriu a guitarra fez nela progressos formidáveis. Em 1806 mudou-se para Viena, que se tornou na base para sucessivas tournées europeias como virtuoso da guitarra, embora não tivesse deixado de tocar o seu primeiro instrumento (foi como violoncelista que integrou a orquestra que estreou a Sinfonia n.º 7 de Beethoven, em 1813). O apreço dos vienenses por Giuliani como guitarrista não teve correspondência no seu sucesso como compositor, mas as suas peças para guitarra solo, os três concertos para guitarra e as transcrições para uma e duas guitarras de obras orquestrais famosas tiveram algum curso pela Europa. Em 1819 Giuliani regressou a Itália, onde acabou por encontrar acolhimento favorável à sua música em Nápoles, sobretudo a partir de 1823, quando começou a apresentar-se em concerto com a sua filha Emilia, que se tornara numa dotada guitarrista.

[I andamento (Allegro maestoso), por Narciso Yepes (guitarra) e English Chamber Orchestra, com direcção de Luis Antonio García Navarro (Deutsche Grammophon)]

2. Concierto de Aranjuez, de Rodrigo

Ano: 1939

Aranjuez, hoje com 54.000 habitantes, foi residência de Primavera dos reis de Espanha, tem boa quota de venerandos monumentos e está classificada como Património da Humanidade pela UNESCO, mas não foi palco de eventos decisivos nem berço de figuras importantes pelo que poucos, fora de Espanha, saberiam da sua existência, não fosse um filho da terra, Joaquín Rodrigo (1910-99), ter dado o seu nome a um célebre concerto para guitarra.

O Concierto de Aranjuez é também a única obra do compositor que a maioria dos melómanos conhecerá, embora Rodrigo tenha deixado apreciável produção, em que a guitarra tem papel de relevo. Além de um vintena de obras para instrumento solista, compôs seis obras concertantes: o dito concerto, a Fantasía para un Gentilhombre (1954), o Concierto Madrigal para duas guitarras (1966), o Concierto Andaluz para quatro guitarras (1967), o Concierto para una Fiesta (1982) e os Rincones de España (1990).

[I andamento (Allegro con spirito), por John Williams (guitarra) e Orquestra Sinfónica da BBC, com direcção de Paul Daniel, ao vivo nos Proms 2005, no Royal Albert Hall, Londres]
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3. Concerto para guitarra, de Castelnuovo-Tedesco

Ano: 1939

Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968) nasceu numa família de banqueiros judeus sefarditas, pelo que seria legítimo explicar a sua propensão para compor para guitarra pelas suas raízes espanholas. É certo que Castelnuovo-Tedesco compôs copiosamente para todos os instrumentos, formações e géneros, mas deu muito maior atenção à guitarra do que a maioria dos compositores: além de 26 peças para guitarra solo, escreveu dois concerto para guitarra, outro para duas guitarras e uma serenata para guitarra e orquestra. O Concerto n.º 1 coincide com uma ano atribulado na sua vida, quando começou a sofrer com a perseguição anti-semita promovida pelo fascismo italiano e foi forçado a mudar-se para os EUA, onde viveria até ao final da vida. O Concerto n.º 1 foi dedicado ao virtuoso Andrés Segovia, que o estreou em Montevideo e é o segundo concerto para guitarra mais frequentemente executado, a seguir ao Concierto de Aranjuez (composto no mesmo ano).

[I andamento (Allegreto giusto), por Andrés Segovia (guitarra) e a New London Orchestra, com direcção de Alec Sherman (EMI)]

4. Concerto para guitarra, de Villa-Lobos

Ano: 1951

O brasileiro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) não só foi um dos mais prolíficos compositores do século XX, como repartiu a sua criatividade por diversos géneros e formatos: nove óperas, 17 quartetos de cordas, 12 sinfonias, uma trintena de poemas sinfónicos, aberturas e bailados e uma vintena de obras para solista e orquestra. Parte desta torrencial produção contempla a guitarra (“violão”, na designação brasileira), com três colecções de peças a solo – 12 Estudos, Cinco Prelúdios e a Suíte Popular Brasileira –, mais o n.º 1 da famosa série de 12 Choros, e um concerto. Este foi composto para Andrés Segovia (que já tinha sido o destinatário dos Cinco Prelúdios), que o estreou em 1956 em Houston, com a orquestra sinfónica da cidade, dirigido pelo próprio compositor.

[I andamento (Allegro preciso), por Pepe Romero (guitarra) e Academy of St. Martin-in-the-Fields, com direcção de Neville Marriner (Decca)]

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5. Concierto Mágico, de Balada

Ano: 1997

Atendendo a que a guitarra nasceu no século XVI em Espanha e aí teve o seu principal foco, não é de estranhar que a maioria dos concertos para guitarra provenha de compositores do mundo latino. É o caso de Leonardo Balada (n.1933), que, embora seja cidadão dos EUA desde 1981, nasceu em Barcelona e aí viveu até 1956, quando foi estudar para Nova Iorque. Tal como Villa-Lobos e Castelnuovo-Tedesco, é um compositor prolífico, pelos padrões do século XXI, com sete óperas, seis sinfonias e uma vintena de concertos, onde avultam dois concertos para guitarra, um concerto para quatro guitarras e uma sinfonia concertante para guitarra. O Concierto Mágico (o seu segundo concerto para guitarra) é o seu concerto com marcas mais evidentes da música popular espanhola; divide-se em três andamentos – Sol, Luna e Duende – e foi estreado por Angel Romero (guitarra) e a Sinfónica de Cincinatti, sob a direcção de Jesús López-Cobos.

[III andamento (Duende), por Eliot Fisk (guitarra) e Orquestra Sinfónica de Barcelona i Nacional de Catalunya, com direcção de José Serebrier (Naxos)]

6. Concerto para guitarra n.º 9 Benicàssim, por Brouwer

Ano: 2002

O cubano Leo Brouwer (n.1939) nasceu numa família de músicos (é sobrinho-neto de Ernesto Lecuona) e começou a tocar guitarra aos 13 anos e prosseguiu estudos nos EUA. A suas composições, centradas na guitarra, têm acolhido quer influências tradicionais cubanas quer as técnicas aleatórias da vanguarda e destinam-se a formações muito variadas, da guitarra solo a uma mega-orquestra de 200 guitarras. No cerne da produção daquele que é visto como o mais importante e prolífico compositor de música para guitarra dos séculos XX/XXI estão 12 concertos para guitarra, o primeiro datado de 1972, o mais recente de 2016.

O Concerto n.º 9 foi composto para comemorar o 150.º aniversário do nascimento de Francisco Tárrega (1852-1909), estrela de primeira grandeza da guitarra romântica e “pai da guitarra clássica”, o que justifica os laivos de Romantismo na obra. O concerto estreou na cidade valenciana de Benicàssim, onde tem lugar anualmente o Concurso Internacional de Guitarra Francisco Tárrega, daí o título que lhe foi atribuído – outros concertos de Brouwer estão também vinculados a cidades: é o caso do n.º 4 (Toronto), n.º5 (Helsínquia), nº 7 (Havana) e n.º 8 (Perugia).

[III andamento (Allegro), por Miguel Trápaga (guitarra) e Real Filharmonía de Galicia, com direcção de Óliver Díaz (Naxos)]

Clássicos da clássica

Orquestra Metropolitana de Lisboa
©DR

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O mais frequente na música orquestral é que só um galo cante na capoeira, ou seja, a maioria dos concertos destina-se a um único solista. Porém, no período barroco, era frequente que dois solistas partilhassem o protagonismo.

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