Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right Sérgio Godinho no Coliseu: três amigos e seis surpresas
Sérgio Godinho
©Manuel Manso Sérgio Godinho

Sérgio Godinho no Coliseu: três amigos e seis surpresas

Um novo romance, regresso às grandes salas para apresentar o último disco, um novo álbum para miúdos. Em vésperas do concerto no Coliseu, tiramos as medidas ao desassossego criativo de Sérgio Godinho e dizemos-lhe o que pode esperar ouvir nesta sexta-feira

Por João Pedro Oliveira
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Se acaso pára, dá-lhe comichões. É por isso, explica, que precisa de criar continuamente. “Criar qualquer coisa, sejam canções, sejam todas estas outras coisas que senti necessidade de fazer”, dizia-nos na última conversa, entre apresentações do novo disco. “Esse prazer, esse impulso, se não o pratico durante muito tempo, crescem-me borbulhas”. Ora, aos 73 anos e meio (provavelmente não fará festa, mas completa-os a 3 de Março), Sérgio Godinho mantém o desassossego criativo do costume e dir-se-ia que continua sem tempo para se coçar. Na sexta-feira, dia 22, vai ao Coliseu cantar Nação Valente, disco que nos mereceu cinco estrelas entusiasmadas e foi um dos álbuns de 2018 para a Time Out. Será assessorado pela banda do costume e acompanhado por três convidados de excepção: Manuela Azevedo, Camané e Filipe Raposo. Mas há muito mais a acontecer e isto, como se sabe, anda tudo ligado.

Godinho acaba de lançar Estocolmo, o seu segundo romance (edição Quetzal), que há-de apresentar no festival literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, no dia seguinte ao concerto do Coliseu. Se tiver juízo, fica lá por cima, que no dia 28 tem de se apresentar no Coliseu do Porto. Entretanto, trinta anos depois do último episódio d’ Os Amigos do Gaspar (outra data que que não há-de ser celebrada, mas que evocamos com nostalgia), vai ter um espectáculo para miúdos no CCB baseado n’ O Pequeno Livros dos Medos, que escreveu e ilustrou há quase 20 anos (Assírio & Alvim) e que agora recupera em três apresentações (8, 9 e 10 de Março, Pequeno Auditório), com textos 
e canções inéditas, servidos pelo piano e pelos arranjos de Filipe Raposo e pelas imagens e trabalho de iluminação do realizador André Godinho, que acontece ser seu filho. No meio disto, participa do muito promissor Canções de Roda, Lenga Lengas e Outras que Tais, disco com canções infantis onde entram também Ana Bacalhau, Jorge Benvinda e Vitorino, com direcção musical e arranjos de Filipe Melo (edição aguardada para Março).

Nação Valente, o disco que justifica este regresso ao Coliseu, é o primeiro trabalho de estúdio em sete anos – o antecessor, Mútuo Consentimento, era já 
de 2011. Mas também durante esse tempo a coisa não parou e não se crê que Godinho tenha sentido necessidade de procurar um dermatologista. As contas são dele: “houve as Caríssimas Canções’ [um livro de crónicas que se transformou num espectáculo e num disco ao vivo], o Liberdade [série de espectáculos ao vivo no São Luiz que resultou em disco também], houve o projecto com o Jorge Palma [Juntos, digressão que resultou num disco], houve o Vida Dupla [livro de contos],
 o Coração Mais que Perfeito [primeiro romance], e fiz canções para outros, para os Praga, para a Cristina Branco, que terá uma canção minha no novo disco.”

Nação Valente em palco
Não é por acaso que se fala de Coincidências quando queremos apresentar Nação Valente. Há, neste disco que Sérgio Godinho lançou no início de 2018, um exercício semelhante a esse outro álbum de 1983. Passou um quarto de século desde que ele voltou dessa viagem ao Brasil (que incluiu uma breve estadia nas prisões da Ditadura Militar) com um dos mais notáveis discos de parcerias da história da música popular portuguesa
e um dos mais celebrados encontros entre músicos dos dois países. Em Coincidências, Sérgio Godinho usou composições de outros (Ivan Lins, Milton Nascimento, João Bosco e Noveli) e musicou um texto de Chico Buarque (“Um Tempo que Passou”, encontro solar entre os dois maiores acrobatas de canções em português). Em Nação Valente, o exercício de cumplicidade é semelhante. Godinho entrega a composição quase por completo (só duas músicas são suas), cria um monumento de encontros, canibaliza o melhor dos outros, impõe-se genialmente pela escrita (só um texto não é seu, o de “Delicado”, tema que pediu emprestado a Márcia) e estende a ponte para outro território, que é uma outra geração: David Fonseca, Hélder Gonçalves (Clã), Pedro da Silva Martins (Deolinda), Márcia, Filipe Raposo e Nuno Rafael – que assina a direcção musical e, sendo o mais velho desta galeria, tinha 12 anos quando saiu Coincidências.

O irmão do meio é, portanto, cada vez mais o irmão mais velho. Não fosse dar-se o caso
 de nesta turma de amigos do Godinho entrar também José Mário Branco, outra jovem 
alma irrequieta, que é o seu parceiro mais antigo e assinou 
a composição do belíssimo Mariana Pais, 21 anos, canção que no Coliseu se fará ouvir na voz de Camané. Mas as surpresas não se vão ficar por aqui.

Os amigos do Godinho

Além dos dez temas de Nação Valente, o alinhamento do Coliseu traz novidades. Revelamos aqui cinco momentos especiais com os três convidados da noite.

Filipe Raposo
Filipe Raposo
©Hugo Amaral

Com Camané e Filipe Raposo

“Mariana Pais, 21 anos”

É a melodia mais trabalhada e a harmonia mais tortinha de Nação Valente. É daquelas canções que ficam no ouvido à primeira mas que o comum mortal só consegue trautear à décima. A responsabilidade, claro, é de José Mário Branco.

“Emboscadas”

É um poema armadilhado de verbos no conjuntivo. Armasse, urdisse, lançasse, vestisse, cumprisse, desse. São 1100 caracteres que nos põem a cantar palavras bicudas nas quais nunca se suspeitara que a música pudesse habitar. Ouve-se no álbum Na Vida Real, de 1986, mas também em Do Amor e dos Dias, de Camané, onde o arranjo de José Mário Branco mostra que isto é, essencialmente, um belíssimo fado.

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Camané
Camané
©DR

Com Camané

“A Balada da Rita”

Tirando o momento em que Lia Gama deu voz ao tema em Kilas o Mau da Fita (1981), filme com argumento de Sérgio Godinho e de José Fonseca e Costa, acostumámo-nos a ouvir Rita falar com voz de homem. Sérgio gravou-a em Pano Cru (1978). David Fonseca no Irmão do Meio (2009). Agora é Camané.

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