Sete óperas para miúdos

Quando Ravel compôs L’Enfant et les Sortilèges, que o Teatro Nacional de São Carlos leva à cena, as óperas para crianças ou inspiradas em contos infantis eram raras, mas desde então o género tem florescido

©Dave WeilandJoana Carneiro

L’Enfant e les Sortilèges em Lisboa

Interpretação de Liliana Sousa (Criança), Bárbara Barradas (Fogo, Rouxinol), Carolina Figueiredo (Mamã, Taça Chinesa, Libélula), Sónia Alcobaça (Pastora, Coruja) e do Coro Juvenil de Lisboa, Coro do TNSC e Orquestra Sinfónica Portuguesa, com direcção de Joana Carneiro e encenação de James Bonas.

Teatro Nacional de S. Carlos: em Dezembro: quinta-feira 28 e sexta-feira 29, 20.00, sábado 30, 16.00; em Janeiro: quinta-feira 4 e sexta-feira 5, às 20.00, e sábado 6, às 16.00; 10-30€

 

Sete óperas para miúdos

Hansel und Gretel, de Humperdinck

Ano e local de estreia: 1893, Hofteather, Weimar, sob a direcção de Richard Strauss
Compositor: Engelbert Humperdinck (1854-1921)
Libretista: Adelheide Wette, a partir do conto dos irmãos Grimm

Os irmãos Grimm não são exactamente os criadores dos contos por que são conhecidos: estes são, na verdade, contos da tradição oral que, no início do século XIX, os Grimm registaram, compilaram e expurgaram de parte da crueza e violência originais. Sobra todavia bastante crueza e violência a “Hansel & Gretel”, uma história de dois irmãozinhos esfomeados (a realidade do século XIX estava longe da “pandemia” de crianças obesas dos nossos dias) que se aventuram na floresta em busca de comida e são atraídos por uma cabana feita de confeitaria, onde vive uma bruxa que se alimenta de crianças incautas. Estas são, porém, menos ingénuas do que a bruxa julga e acabam por ludibriá-la e trancá-la no forno, onde tem uma morte horrível.

[“Brüderchen, Komm Tanz Mit Mir” (“Maninho, Vem Dançar Comigo”), por Edita Gruberova (Gretel) e Brigitte Fassbaender (Hansel) e a Filarmónica de Viena, com direcção de Georg Solti, 1981]

A Raposinha Matreira, de Janácek

Ano e local de estreia: 1924, Teatro Nacional de Brno
Compositor: Leos Janácek (1854-1928)
Libretista: Janácek a partir do folhetim ilustrado

A Raposa Bystrouska (Liska Bystrouska), com texto de Rudolf Tesnohlídek e desenhos de Stanislav Lolek, publicada num jornal diário de Brno em 1920. Não se trata necessariamente de uma ópera para crianças, apesar de muitas das suas personagens serem animais antropomorfizados. O Guarda-Florestal apanha a pequena raposa Bystrouska e leva-a para casa. A Raposinha não aprecia a ideia de ser convertida em animal de estimação e censura asperamente as Galinhas pela sua submissão ao Galo e ao Guarda-Florestal. Faz-se de morta e quando as Galinhas e o Galo se acercam, intrigados, mata o Galo e várias Galinhas e, quando o Guarda-Florestal tenta puni-la, aproveita-se da confusão para se escapar. Na floresta, encontra o Raposo e acabam por constituir família – não tarda a nascer uma ninhada de pequenas raposas. Quando Harasta, caçador-furtivo e negociante de aves de capoeira atravessa a floresta com uma gaiola cheia de galinhas, a Raposinha e as suas crias arranjam maneira de se banquetear com os galináceos – porém, Harasta regressa com uma espingarda e mata a Raposinha. Seria uma triste história se se detivesse aqui, mas o interesse de Janácek, então com 70 anos, era produzir uma obra que funcionasse como um ajuste de contas com a sua própria morte, que, pela ordem natural das coisas, não estaria muito distante, e sobre os ciclos de renovação da natureza. Assim, quando um dia o Guarda-Florestal adormece sob uma árvore, depara-se, ao acordar, com uma Raposinha que se diria uma réplica perfeita da que capturara no início da ópera – só que esta não se deixa apanhar e o Guarda-Florestal acaba por ficar com um sapo nas mãos.

[Final do I acto: a Raposinha finge-se morta, faz uma mortandade entre os galináceos e recupera a liberdade. Produção de 2012 do Festival de Ópera de Glyndebourne, com Lucy Crowe (Raposinha), The Glyndebourne Chorus, Orquestra Filarmónica de Londres, direcção de Vladimir Jurowski e encenação de Melly Still]

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L’Enfant e les Sortilèges, de Ravel

Ano e local de estreia: 1925, Ópera de Monte Carlo
Compositor: Maurice Ravel (1875-1937)
Libretista: Colette

A Criança faz ronha em vez de fazer os trabalhos de casa e quando a Mamã o repreende, mostra-lhe a língua. Como castigo é fechado no seu quarto, onde tem uma birra homérica e escaqueira ou despedaça todo o objecto inanimado que esteja ao seu alcance e atormenta o Gato e o Esquilo. Exausto, vai deixar-se cair na Cadeira, quando o registo da narrativa deixa o realismo e entra no fantástico: a Cadeira, que acabara de ser maltratada, esquiva-se. Pouco a pouco, todos os objectos que tinham sido vítimas da cólera da Criança ganham vida e recriminam-na pelas suas más acções – perante a chuva de acusações, agora é a Criança que se sente acossada. As paredes do quarto abrem-se e a Criança pode escapar para o jardim, mas isso não lhe proporciona alívio: agora são as plantas e animais que molestou que se juntam para lhe pedir contas dos seus actos de crueldade gratuita. O que lhe vale é que as criaturas do jardim acabam por se envolver numa disputa acesa sobre qual terá o privilégio de ser a primeira a exercer a sua punição e acabam por esquecê-lo momentaneamente. Remetido para um canto, vê que um pequeno esquilo ficou ferido no tumulto e cuida do seu ferimento, acto que não passa despercebido aos restantes animais, que acabam por perdoar a Criança.

[Início de L’Enfant e les Sortilèges, na produção de 1987 do Festival de Ópera de Glyndebourne, com Cynthia Buchan (Criança), Fiona Kim (Mãe) e Orquestra Filarmónica de Londres, direcção de Simon Rattle e encenação de Maurice Sendak (o autor de de O Sítio das Coisas Selvagens – ver abaixo)]

Brundibár, de Krása

Ano e local de estreia: 1942, orfanato judeu, Praga
Compositor: Hans Krása (1899-1944)
Libretista: Adolf Hoffmeister

Os irmãos Aninka e Pepicek são órfãos de pai a mãe está enferma, pelo que se vêem obrigados a cantar na praça do mercado para angariar dinheiro. Brundibár, o tocador de realejo vê nos dois irmãos uma concorrência indesejada e tenta escorraçá-los da praça. Porém, a astúcia das crianças e o auxílio dos seus amigos animais fazem com que seja Brundibár o escorraçado.

Por trás deste enredo infantil esconde-se uma história sinistra. Krása era um judeu checo e compôs a ópera para um concurso promovido em 1938 pelo Estado. Porém, não tardou que a Checoslováquia fosse invadida e desmembrada pela Alemanha nazi e que os judeus começassem a ser perseguidos. O libretista ainda conseguiu escapar, mas o compositor, tal como o autor dos cenários, acabou internado em Therezín (Theresienstadt), um campo de concentração “modelo”, que reunia a elite intelectual judaica e era usado para mostrar ao mundo que afinal os nazis não tratavam mal os judeus. Krása fez questão de apresentar Brundibár (que, entretanto, acabara por estrear em 1942 num orfanato judeu em Praga) em Therezín: adaptou a orquestração ao parco instrumentário disponível no campo – flauta, clarinete, quatro violinos, violoncelo, contrabaixo, guitarra, acordeão, piano e percussão – e a ópera estreou nesta configuração em 23 de Setembro de 1943. Teve 55 representações no campo de concentração, sem que os nazis se apercebessem das semelhanças entre o malévolo tocador de realejo e Hitler. Krása, como praticamente todos os restantes internados em Therezín, homens, mulheres e crianças, foi transportado para Auschwitz e gaseado em 1944.

[Um documento pungente: excerto de uma récita de Brundibár em Therezín, em 1943, filmado para efeitos de propaganda nazi]

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Where the Wild Things Are, de Knussen

Ano e local de estreia: 1980, Théâtre de la Monnaie, Bruxelas
Compositor: Oliver Knussen (n. 1952)
Libretista: Maurice Sendak, a partir do seu livro homónimo de 1963.

O enredo de O Sítio das Coisas Selvagens (Where the Wild Things Are), um clássico da literatura infantil, que já vendeu 19 milhões de exemplares, tem afinidades com o de L’Enfant et les Sortilèges: uma criança azougada (Max) enverga uma pele de lobo e faz tantas diabruras que a mãe o coloca de castigo no quarto. Max evade-se, em sonhos, do quarto para uma floresta repleta de criaturas e chega à Ilha das Coisas Selvagens, habitada por monstros que fazem dele o seu monarca. Após várias peripécias, Max desperta e descobre que está no seu quarto, onde o aguarda uma refeição fumegante preparada pela mãe. Mas enquanto, a evasão onírica da criança de L’Enfant et les Sortilèges tem uma componente pedagógica de aprendizagem das “coisas da vida” e maturação emocional, as aventuras em sonho de Max são apenas fantasia e evasão.

[Excerto da produção de 1985 do Festival de Ópera de Glyndebourne, com Karen Beardsley (Max) e a London Sinfonietta, direcção de Oliver Knussen, encenação de Frank Corsano, design de Maurice Sendak]

The Adventures of Pinocchio, de Dove

Ano e local de estreia: 2007, Grand Theatre, Leeds
Compositor: Jonathan Dove (n. 1959)
Libretista: Alasdair Middleton, a partir do romance homónino de 1883 de Carlo Collodi.

O britânico Jonathan Dove é um dos mais activos e populares compositores de óperas do nosso tempo e ainda recentemente Lisboa pôde assistir à versão portuguesa de O Monstro no Labirinto (ver Sete óperas sobre monstros mitológicos), a mais recente das suas 15 óperas, um número que inclui “óperas de câmara” e “óperas comunitárias” (“community operas), que envolvem sobretudo intérpretes não-profissionais. O libreto de The Adventures of Pinocchio segue de perto o romance original de Collodi e tem no seu cerne a questão “o que significa, afinal de contas, ser humano?”

[Excerto da produção de 2008 do Sadler’s Well Theatre de Londres, com Victoria Simmonds (Pinocchio), Jonathan Summers (Geppetto)e Coro e Orquestra da Opera North, direcção de David Parry, encenação de Martin Duncan]

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Peter Pan, de Ayres

Ano e local de estreia: 2013, Ópera de Stuttgart
Compositor: Richard Ayres (n. 1965)
Libretista: Lavinia Greenlaw, a partir da peça Peter Pan or the Boy Who Wouldn’t Grow Up (1904) e do romance Peter and Wendy (1911), de J.M. Barrie.

Ayres já tinha composto uma ópera com libreto do autor de histórias infantis Toon Tellegen, The Cricket Recovers (2005), quando deitou mãos a musicar as clássicas aventuras do rapaz que se recusava a crescer.

[Excerto da co-produção de 2015 da Komisches Oper de Berlim e da Welsh National Opera]

O romance de Barrie já tinha sido adaptado ao cinema várias vezes e a personagem de Peter Pan já há muito se estabelecera no imaginário, mas a versão de Ayres foi a primeira ópera sobre o tema – um atraso que pode ser explicado parcialmente pela dificuldade em encontrar cantores com forma física e destemor para cantar enquanto voam e cabriolam pelo ar.

[Nos bastidores: preparação das cenas em que os cantores esvoaçam sobre o palco]

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