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Arte sobre azulejo: Galeria Ratton cruza práticas de criação, entre Lisboa e Setúbal

A Galeria Ratton volta a trazer artistas plásticos para o mundo dos azulejos. O novo programa de residências divide-se entre Lisboa e Setúbal. E abraça a arte pública.

Renata Lima Lobo
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Renata Lima Lobo
Jornalista
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O azulejo é uma parte fundamental das artes decorativas portuguesas. E há mais de três décadas que a Galeria Ratton, uma das mais originais de Lisboa, convida artistas plásticos a pintar sobre azulejo, estejam ou não familiarizados com o suporte, e desde nomes conhecidos, como Júlio Pomar ou Paula Rego, a emergentes, como as quatro convidadas para participar na primeira residência artística “Poeticamente Habita o Homem Sobre a Terra”.

A arte pública tem merecido a atenção desta galeria. De certeza que já passou por obras produzidas na oficina da Ratton, localizada em Setúbal. Como o mural que celebra a Carta de Lisboa (2017) ou um memorial em azulejo feito em homenagem a Sophia de Mello Breyner (2020). Desta vez, será a terra de Bocage a receber uma obra de arte pública, mas é em Lisboa, na Galeria Ratton, que estarão expostos os primeiros resultados desta residência, entre 11 de Dezembro e 11 de Março de 2022.

Ana Maria Viegas e Tiago Montepegado, directores da Ratton, começaram por pensar numa forma de, em tempos de pandemia, continuar a levar novos artistas para o azulejo, e apoiá-los financeiramente ao mesmo tempo. O que foi possível com uma candidatura à DGArtes e com um novo programa de residências. Para este primeiro momento convidaram quatro mulheres cujo trabalho já seguiam com atenção: Sofia Ribeiro Pinto, Bárbara Fonte, Mónica Pimentel Coelho e Maria Morais, que já tinha passado pela galeria como arquivista.

Juntas participaram nesta residência dividida por vários momentos de formação e de confluência entre várias disciplinas, da música à poesia, passando pela história e arquitectura. Foram beber inspiração a vários locais, graças a um conjunto de visitas guiadas a espaços como o Museu Nacional do Azulejo, o Palácio Fronteira, o Convento da Arrábida, em Setúbal, e muitos outros.

Também houve direito a um encontro, em Outubro, na Escola Superior de Educação de Setúbal, onde uma mesa redonda juntou o arquitecto Ricardo Carvalho (Director do Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa), Sérgio Vicente (escultor e vice-presidente da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa), entre outros, que ofereceram uma leitura mais informada sobre a arte pública.

E a própria oficina recebeu alguns convidados especiais que se juntaram à residência de forma a contribuir para o resultado final. Cada momento foi aproveitado para cruzar diferentes práticas de criação: o saxofonista Rodrigo Amado fez um ensaio livre na oficina enquanto as artistas, num painel de quatro azulejos, desenhavam e apresentavam livremente; e o poeta Nuno Júdice foi desafiado a levar consigo cinco poemas inéditos para um encontro na oficina, mais um poema curto que no final fosse o mote para um primeiro painel de preparação para a arte pública final.

Neste primeiro trabalho participado pode-se ver um texto escrito por Maria em resposta ao poema de Nuno Júdice, a organização do espaço de Mónica, os signos de Sofia que pontuam a composição e o desenho livre e poderoso de Bárbara, detentora de um vasto universo de personagens. O texto é acompanhado por uma linha, um percurso de água, o elemento que acabou por ser central nesta residência.

Galeria Ratton
©Galeria Ratton | Ratton CerâmicasPainel de preparação para a arte pública final

Mas há mais trabalhos para mostrar. Durante a residência, as quatro artistas começaram por fazer experiências em azulejo 14x14, depois passaram para a criação individual de um medalhão redondo ou para um painel de maior dimensão. E tudo pode ser visto na Galeria Ratton, de 11 de Dezembro até 11 de Março do próximo ano, altura em que a exposição ruma à Casa da Cultura de Setúbal.

Nesse mesmo mês, será inaugurada a obra de arte pública que criaram em conjunto e que funciona como banco onde as pessoas se podem sentar. De um lado, terá uma cartografia vertical dos caminhos da água, e outros elementos gráficos, como a chave do Convento da Arrábida, uma vela ou uma rede e cana de pesca. Do outro lado, estará água desenhada a brotar do topo até cair num tanque de recolha, com uma figura de um sapo que um dia encontraram na oficina da Ratton.

Galeria Ratton. R. Academia das Ciências, 2C. 11 de Dezembro a 11 de Março. Seg-Sex 15.00-19.30. Inauguração: Sáb 16.00-20.30. Entrada livre. 

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