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As empanadas e os alfajores do Las Cholas já têm casa própria

A marca continua no El Corte Inglés, mas tem agora um espaço longe da confusão do centro comercial. No Verão, prometem lancheiras para piqueniques na Gulbenkian.

Andreia Costa
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Andreia Costa
LAS CHOLAS © nicole sánchez 2025
Nicole Sánchez
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Foi num evento na embaixada do Peru em Lisboa que o director financeiro do El Corte Inglés tirou de uma bandeja um alfajor. Assim que a bolacha de manteiga começou a desfazer-se na boca, como areia, misturando-se com o recheio cremoso de doce de leite, ele soube que queria mais – de preferência, no local onde trabalhava. A responsável pela especialidade peruana era Valeria Olivari, uma chef pasteleira que se apaixonou por um português e pela cozinha portuguesa (de tal maneira que nunca mais se quis ir embora).  

Com o interesse do El Corte Inglés, começou a fazer alfajores e empanadas para vender na grande superfície. Agora, os doces e salgados peruanos têm uma nova casa, longe da azáfama do centro comercal. O Las Cholas Café fica a dois passos da Gulbenkian e oferece a mesma qualidade que tem feito da marca um sucesso. 

“As empanadas foram um boom do dia para a noite – e continuam a ser o nosso melhor produto. Começámos por ter quatro recheios, agora são sete”, conta Valeria. Vamos a eles, sem mais distrações: atum e tomate (3,20€), espinafres e mozzarella (3€), galinha e nozes (3,20€), pato e laranja (3,80€), vitela e passas (3,20€), porco teriyaki (3,20€) e camarão, tomate e mozzarella (4€). A empanada de pato é uma das favoritas desde sempre e uma das que pode ser encomendada em formato familiar (entre 36€ e 40€), mas todas têm uma massa leve e macia (que pode ser apreciada morna ou fria) e os temperos apurados de uma confecção que se adivinha lenta e feita com foco no mais importante: o sabor. “A empanada traz o sabor da tradição, tem de ter bons ingredientes e tem de ser feita com amor. É aquela comida de conforto que aconchega o estômago.” 

LAS CHOLAS Café
Nicole Sánchez

A massa e o recheio são feitos numa fábrica no Seixal. As empanadas são depois congeladas – cerca de mil por dia – e vão ao forno já em Lisboa. Os bolos, pelo contrário, são confeccionados neste espaço. Vendem-se à fatia ou inteiros (as encomendas devem ser feitas com 24 horas de antecedência, pelo menos) e variam entre bolo de chocolate (36€), tarte de limão (36€), três leites (36€), tarte de maçã (36€) e encanelado (32€). Este último faz lembrar um tiramisù, numa versão mais doce. É um bolo esponjoso, mergulhado em calda de canela e pisco, recheado com doce de leite e coberto com canela. À fatia custam todos 4€. 

Os alfajores são incontornáveis e, mesmo quem passa só para beber um café, tem direito a uma versão mini para provar – cuidado, corre o risco de querer levar logo a versão xl para casa. “São feitos com dois tipos de farinha: amido de milho e farinha de trigo comum. São recheados com doce de leite e levam açúcar em pó por cima.”  Uma unidade custa 2,50€ e a versão bolo custa 28€. Há ainda caixas com 10 (9€) ou 20 (18€) mini-alfajores. 

LAS CHOLAS © nicole sánchez 2025
Nicole Sánchez

De mochila às costas, pelas cozinhas de Portugal

Valeria Olivari nasceu e cresceu no Peru, onde “toda a gente sabe cozinhar”. Para ela também foi natural, mas mais do que uma tarefa do dia-a-dia, transformou-se numa paixão que fez dela chef pasteleira. A trabalhar com um dos mais conceituados chefs do Peru, Rafael Osterling, fez estágios por todo o mundo. Um deles trouxe-a a Portugal – apesar de Osterling defender Paris, onde a pastelaria era mais moderna, Valeria já tinha sido convencida por um colega português. Passou pelo hotel Vila Joya, em Albufeira, e pelo Tavares Rico, em Lisboa. Adorou, mas regressou ao Peru. E ainda viveu em Madrid antes de regressar de vez a Lisboa. “Eu queria trabalhar na cozinha, mas todos insistiam em mandar-me para a pastelaria porque diziam que eu era melhor lá. Mas eu era teimosa e, apesar disso, queria aprender a cozinhar. Portugal permitiu-me isso.”  

Através de Rafael Osterling, conheceu o cônsul português em Lima, que, por sua vez, era amigo do chef Luís Baena. Este convidou Valeria a dar umas aulas de cozinha peruana na Escola de Hotelaria do Estoril. Em troca ensinaram-lhe a fazer pastéis de nata e pão de rala. No meio disto tudo, já estava apaixonada por um português. “Ainda por cima, eu sou Valeria de Fátima, nome que a minha mãe me deu em homenagem a Nossa Senhora de Fátima, tinha de vir cá parar.” Quando começou a procurar trabalho a sério, falou com José Avillez. O chef disse-lhe que o que podia pagar era pouco para alguém com o currículo dela, mas indicou-lhe um nome que pagaria um salário justo. “O Olivier entrevistou-me e pôs-me a trabalhar desde o primeiro minuto. É um vendedor nato, era igual ao dono de um restaurante em Miami onde eu tinha trabalhado há uns anos.”

Esteve no Avenida durante um ano e ganhou a experiência que há muito perseguia. “[O Olivier] ensinou-me a fazer arroz, ensinou-me a fazer coisas que eu queria aprender, mas que não tinha oportunidade porque só me deixavam trabalhar como pasteleira. Dava-me bem com ele, mas não era o que eu procurava a longo prazo.” Aproveitou a ausência de um mês do namorado – em trabalho na China –, pôs a mochila às costas e apanhou um comboio em Santa Apolónia. “Foi aí que conheci verdadeiramente Portugal. Estive em Aveiro, Coimbra, Braga, Guimarães. Eu estava sempre a perguntar: ‘Posso ir até à cozinha?’ Deixavam-me entrar, faziam-me sentar e explicavam-me as coisas. Foi maravilhoso.”

De regresso a Lisboa, Valeria abriu um estúdio em Arroios, onde organizava eventos privados e workshops, tendo paralelamente um negócio de catering. Apresentou-se na embaixada peruana, gostaram e os eventos passaram todos a ser assegurados por Valeria. Foi numa dessas ocasiões que o director financeiro do El Corte Inglés provou um alfajor inesquecível. 

De loja de bicicletas a café

Para fazer face às vendas no quiosque do El Corte Inglés, Valeria encontrou uma fábrica no Seixal para produzir as empanadas. Daí seguem também para um espaço no Oeiras Parque, que abriu entretanto, e para o novo Las Cholas Café. O estúdio em Arroios funcionou durante cerca de dez anos e quando, em 2023, lhe comunicaram que o prédio seria vendido, teve um ano para decidir que passo dar a seguir. “Não sabia se deveria continuar apenas com o El Corte Inglés e manter a fábrica ou abrir também um espaço ao público. Era algo que eu queria fazer, mas ainda não me tinha atrevido”, confessa.

Com o aproximar da data de saída, reparou num espaço numa rua transversal à Avenida de Berna. “Era uma loja de bicicletas, não tinha mesmo nada a ver, mas o que me chamou a atenção foi a janela grande, com muita luz.” A janela e a porta envidraçada ocupam a totalidade da fachada, Lá dentro, duas mesas redondas de madeira recebem os clientes. Segue-se depois uma mesa comprida e, ao fundo, está um carrinho verde água que há-de, em breve, dar lugar a mais duas mesas. “Traz-nos um pouco de nostalgia, foi com aquele food truck que começámos a vender no El Corte Inglés, mas ocupa realmente muito espaço.” 

LAS CHOLAS © nicole sánchez 2025
Nicole Sánchez

A abertura do Las Cholas Café aconteceu a 18 de Outubro de 2025. “Lembro-me que estava tudo muito calmo, não estávamos com medo nenhum, só queríamos mesmo começar. Houve muita curiosidade das pessoas, que passavam por aqui e diziam: ‘Finalmente’!”, recorda. “Desde que abrimos, percebemos que a maioria das pessoas que vêm, ficam para trabalhar, e gostamos disso.” O ruído é quase inexistente e a ausência de música é propositada. “Queremos dar tempo ao cliente para apreciar um café ou um cappuccino. Às vezes as pessoas precisam de silêncio nem que seja durante um café para quebrar o ritmo frenético do dia-a-dia.” 

A pausa também se faz ao almoço e, a essa hora, nem só de empanadas se alimenta o estômago. “Fazemos sopa diariamente, saladas e sandes. Também temos snacks disponíveis. Não cozinhamos porque não temos exaustor.” No menu há salada de salmão fumado com abacate, tomate cherry, quinoa crocante, maionese de leite de tigre e azeite de manjericão (8,50€); sandes de roast beef, queijo curado e rúcula (6€) ou as batatas fritas Nativas, tipicamente peruanas (2€). Para acompanhar, fica a sugestão de uma bebida peruana: uma cerveja Pilsen (4€) ou uma Inca Kola (4€) – um refrigerante verde, quase fluorescente, que sabe a gomas. “No Peru somos viciados nisto, melhor do que Coca-Cola”, garante. 

Las Cholas Café
Nicole Sanchez

Apesar de a ideia ser apresentar a cozinha peruana, Valeria faz questão de manter alguns costumes portugueses e, por isso, na carta vai encontrar pastéis de nata (1,50) e mil-folhas à fatia (4€). 

Empanadas sem glúten a caminho

O nome, Las Cholas, é uma homenagem às mulheres dos Andes peruanos. “‘Chola’ é uma palavra comum no Peru mas usada de forma pejorativa, é vista como uma espécie de insulto e eu queria quebrar isso.” 

Associados à marca continuam os workshops. Os eventos acontecem esporadicamente e são anunciados no Instagram. “Fazemos empanadas, ceviche ou outras coisas relacionadas com a cultura peruana.” Os grupos têm, no máximo, dez pessoas e o balcão fica completamente livre para se transformar em mesa de trabalho. Até tem um fogão, com extracção embutida, que está escondido e só aparece nessas ocasiões. As oficinas incluem o workshop, as bebidas e o jantar – e variam entre 45€ e 50€.

Num futuro não muito longínquo, Valeria pretende desenvolver uma linha de empanadas mais saudáveis, sem glúten. “Sei que há clientes que adorariam experimentar, mas não o fazem por causa dessa limitação. Preciso só de encontrar um espaço onde possa produzi-las sem haver contaminação.”

Também pondera abrir o café aos domingos, já que nesta zona os moradores têm poucas opções ao fim-de-semana. E, quando o tempo começar a ser menos chuvoso, chegarão as lancheiras, prontas para pegar e levar para os jardins da Gulbenkian, mesmo em frente. “Duas empanadas e um café ou um cappuccino já compõem um bom piquenique.”

Rua Dom Luís de Noronha, 6A (Praça de Espanha). 96 047 5923. Seg-Sáb 08.00-17.00

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