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Núcleo A70
Gabriell Vieira

Bairro novo, vida nova para a antiga equipa dos Anjos70

A associação cultural trocou o bairro dos Anjos pela zona oriental da cidade. O novo sítio, aberto desde Setembro, trouxe mais espaço – e novos inquilinos.

Escrito por
Joana Moreira
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Muitos desejam uma vida nova no novo ano, mas, para o Núcleo A70, a sorte chegou antes de 2021 acabar. Em Setembro disseram adeus ao espaço nos Anjos (que se deverá manter aberto em simultâneo até Fevereiro) e rumaram de malas e bagagens para Marvila. Instalaram-se no número 52 da Rua do Açúcar, para lá de um desafiante lanço de escadas, e no interior de um armazém antes fechado ao público e onde se construíam cenários.  

“Visitámos centenas de espaços”, recorda Susana Rechestre, da direcção do Núcleo A70. Nenhum correspondia às expectativas e garantia a possibilidade de “trazer tudo” dos Anjos. E por tudo diz o espaço de convívio, mas também os ateliers para artistas residentes, os mercados, o espaço para exposições e para fazer mexer a agenda cultural lisboeta. Foi Miguel Baltazar, também do Núcleo A70, numa pesquisa nocturna nos confins da internet, que conseguiu ser rápido na resposta ao anúncio deste sítio em Marvila. “Assim que abrimos a porta dissemos: ‘é aqui’”, lembra Susana. 

Só que a mudança da sede foi mais do que uma mudança de espaço. Foi uma mudança para outra zona da cidade. “Percebemos logo que Arroios e Anjos não ia acontecer. Não havia assim tantos espaços grandes para alugar como havia o Anjos 70. Os espaços ou são pequenos ou têm muitos vizinhos à volta, o que para nós já era um problema”, diz. E se era para mudar, que fosse “para algo tão bom ou melhor”. “Para nós, está a revelar-se melhor”, confessa, antes de introduzir Zé Carlos, o residente felino que durante o dia deambula de sofá em sofá (ou de colo em colo) e que, à noite, passeia pelo espaço sem parecer afectado pela música alta.

“Ele é que nos adoptou”, brinca. Durante as mudanças viam-no no telhado, do lado de fora. “Entretanto começou a aparecer, cheirou-lhe a comida”, sugere Miguel. “Um dia sentou-se aí e nunca mais saiu. Mora cá”, diz Susana. “Quando chegamos de manhã ele já está ali [aponta para a entrada do armazém] à espera”. À espera para comer, claro.

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“Marvila é o sítio”

Em Marvila, o Núcleo A70 ganhou espaço, mais concretamente 980 metros quadrados, novos inquilinos e uma vizinhança que cresce de dia para dia com projectos culturais e não só. Susana não tem dúvidas: “Marvila é o sítio”. De Arroios veio quase toda a mobília, a equipa e as residências artísticas, que agora se distribuem em ateliers tanto no piso térreo como no piso superior. “Acabámos por ter alguma sorte com a infraestructura”, admitem.

Se no número 70 do Regueirão dos Anjos os artistas que ali trabalham estavam remetidos ao piso superior, este espaço, mais amplo, promove o convívio. “Há uma ligação diferente às coisas, e mesmo entre nós, os membros da associação e os [artistas] residentes”, assegura Miguel. Residentes como o Estúdio Bulhufas, o Ad Studio, a Oficina Loba ou os artistas Andrea Paz, Raha Ansari, João Alves, Madalena Pequito, Florence Champ, Eduardo Calvo e Elizabeth Prentis, que já vêm do espaço anterior.

Há também novas adições  poucas, já que os lugares são limitados  como Eliana Tomaz ou Maria Frade-Correia. “De todos os que estavam connosco só não veio o AkaCorleone”, afirma Susana, que continua a querer que o Núcleo A70 seja “o espaço para artistas emergentes e artistas que de outra forma não podiam ter o seu atelier”. “Fazemos rendas super acessíveis com a contrapartida de nos ajudarem a fazer a associação crescer”, explica. 

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O espaço, com um pé direito alto, não serve apenas de morada à criação artística. Desdobra-se em algumas divisões, cada uma com um propósito. Há um amplo espaço de lazer, onde estão os sofás, as máquinas de jogos, o bar e as mesas onde se servem almoços de segunda a sexta-feira. “A questão dos almoços surgiu logo nos primeiros dias, porque percebemos que há muita gente a trabalhar aqui à volta”, conta Miguel. Actualmente há clientes que ali vão diariamente. Todos os dias há sopa, um prato de peixe, um de carne, e outro vegan ou vegetariano. O menu custa 8,90€ e inclui além de sopa, prato principal e sobremesa, também o café. 

Contornando a zona de refeições pela direita encontra-se a sala de concertos. “Não está ainda como queremos que esteja, em termos de sonorização, etc, mas todos os concertos e DJ sets são feitos nesta sala”, mostra Miguel. Há ainda uma sala mais pequena, onde já se fizeram alguns concertos mais intimistas. “A acústica é melhor, embora não tenha capacidade para tantas pessoas”, diz.

Tal como em Arroios, nem só de música se move o Núcleo A70. À segunda-feira há sessões de cinema, numa sala que já acolheu 80 pessoas para ver um filme, um número antes incomportável pelas limitações do antigo espaço. As terças são “dias de fruta feia” – o projecto que combate o desperdício alimentar vendendo fruta e legumes com uma aparência imperfeita leva os cabazes dos compradores até ao armazém em Marvila (as inscrições são online). E todas as quartas há jam sessions. A programação varia essencialmente de quinta a domingo, com concertos, exposições, DJ sets e mercados. 

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O mais evidente nas baixas da programação é a dança. Até ver, não há aulas de dança de regulares, pois o parceiro que as fazia acontecer “já tinha uma relação com a Fábrica Braço de Prata”, a 500 metros dali. 

Como não há fome que não dê em fartura, os planos para o grande armazém em Marvila não se ficam pelo que está à vista. “Lá para Março ou Abril”, desvenda Miguel, vão inaugurar um restaurante. “Vai ser um espaço distinto, mas que acreditamos que vai ser super benéfico, não só para assistir a associação, mas também para chamar outro tipo de público”. “Um espaço em que podes jantar fora e ver um concerto logo a seguir ou dançar”, descreve. Em construção também está um terraço que deverá abrir ainda este Verão. 

A entrada no espaço é, tal como antigamente, exclusiva a sócios e a anuidade é de 2€. Os cartões de sócio e a quota pode ser paga ao balcão, logo à entrada. “É uma maneira de ajudar a associação e de podermos fazer alguma coisa com esse dinheiro”, explica Susana. Só durante os mercados é que a entrada é livre. 

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Com a casa (e o nome) às costas

Desde Setembro que o Núcleo A70 está ali instalado, mas as pessoas continuam a referir-se ao espaço como Anjos 70. “Nós às vezes dizemos sem querer”, admite Susana. “Estás nos Anjos?”, diz sorridente. “A denominação tem alguma carga a nível de identidade”, acredita Miguel, que recorda que, no dia da inauguração, houve quem dissesse “parece que estou nos Anjos”.  

Aquando da mudança na direcção, com a saída de Catarina Querido, “por divergências com a actual direcção” palavras da própria à Time Out em Março , houve um rebranding. “Como mudámos de direcção quisemos mudar o nome, tirámos o Anjos 70 e mudámos para Núcleo A70, para mantermos mais ou menos a mesma identidade, mas como mudámos a nossa postura e a maneira de ver a associação, achámos que era fixe fazer esta mudança”, explica Susana.

Hoje, a direcção do Núcleo A70 é constituída por Susana Rechestre, Manuel Rechestre e, desde Novembro, Miguel Baltazar, que já fazia parte dos órgãos sociais da estrutura, mas que passou a integrar a direcção com a saída de José Torres. “Temos todos a mesma ideia na forma como queremos que a associação siga o seu rumo”, diz Susana. 

A expressão Anjos 70, pese embora já não designe este novo lugar oficialmente, continua a ser o cartão de visita. “Isso não nos incomoda nada”, garante Susana. Miguel concorda: “Não fazemos questão de mudar o nome de hoje para amanhã. É um processo”.

Rua do Açúcar, 52 (Marvila). Seg-Sex 12.00-02.00 Sáb-Dom 17.00-02.00

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