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A pequena pizzaria de Joana Paramés é óptima para pegar e andar – para o jardim do Palácio do Beau Séjour, ali ao lado, ou para casa. As suas fatias crocantes, romanas de tradição, são feitas para resistirem hirtas ao movimento.

Um comedeiro é diferente de um comilão. O primeiro é um interesseiro, um aproveitador. O João Ratão, por exemplo, era um comedeirão. O segundo é um guloso, alguém que come muito. Na história que aqui nos traz, é com este último espécime que a carochinha quer casar. O outro pode preparar o seu próprio feijão, cair no caldeirão, que ninguém se importa.
No que nos diz respeito – a nós, o narrador –, decidimos cruzar esse conto tradicional com a lenga-lenga da Joaninha, voa, voa, por um acréscimo de musicalidade e gulodice narrativa. Vamos também identificar desde logo uma curiosidade que parece muito oportunamente ficção: estamos a referir estas histórias infantis para falarmos sobre um novo espaço, a micro-pizzaria Coccinella, que abriu no mesmíssimo edifício onde quase em simultâneo se instalou a micro-livraria Lumaca. Ambos os nomes são italianos, ambos se referem a bichos. Lumaca quer dizer caracol; Coccinella, joaninha. Agora o que parece ficção: apesar das coincidências, os projectos não se relacionam, a livreira e a pizzaiola são portuguesas (com incursões por Itália) e, mesmo vizinhas, ainda não se conheciam aquando da nossa visita.
A história da Lumaca já a contámos. Esta é a da Coccinella. Começa assim: nada e criada em Lisboa, Joana Paramés licenciou-se em História da Arte, especializou-se em Museologia e trabalhou como guia turística até a pandemia a obrigar a repensar a sua vida profissional. “Fazia passeios em Lisboa, falava do que me apaixonava, da arquitectura, da arte, da história”, recorda. Mas, quando tudo parou, Joana já andava inquieta. “Procurava mais, não sabia bem o quê.” Teve então tempo para ponderar e começou a alimentar uma ideia: recuperar o ofício do avô paterno, espanhol, ligado à restauração, e cruzá-la com a gastronomia italiana, que a cativou quando esteve em Roma, em 2011, a estudar. Decidiu voltar à capital italiana para fazer um curso no Istituto Nazionale Pizzaioli. E voltou.
“Pensei que aprender as coisas em italiano seria ainda mais enriquecedor”, conta. “Pensei: vamos experimentar; se não gostar, fico com a experiência; se gostar, óptimo, faço alguma coisa com isso. Foi meio atirar-me de cabeça. E adorei. Aprendi tudo sobre pizza.” No regresso, trabalhou no Casanova e no Pizza a Pezzi, depois no Valdo Gatti. Nesses sítios, refere, só trabalhou com homens na cozinha. “Pizzaiolas, não há. Se há, são muito poucas. Não consegui trabalhar com nenhuma.” A Joana interessava-lhe mostrar que este não tem de ser um mundo masculino, mas também um tipo específico de pizza, que há por toda a Itália, sobretudo em Roma. “Quando lá estive de Erasmus, era uma coisa que me fascinava. Poder sair da faculdade, passar num local e trazer um pedaço de pizza comigo, e ir a comer pela cidade. Era pizza al taglio. Ou pizza a pezzi.” Traduzindo, é pizza à fatia, ou a peso.
É mesmo um tipo de pizza diferente. Não é uma rodela cortada em triângulos. Nesta versão, a massa da pizza é estendida num tabuleiro e fatiada em generosos rectângulos – na Coccinella, duas porções bastam para a refeição principal de um adulto. Ao contrário das outras, redondas, estas pizzas têm dois momentos de cozedura, porque a base tem de ficar “super crocante”, explica Joana. “A ideia é que, quando se pega na fatia, ela não esmoreça, não fique mole, e se mantenha assim rijinha.” Precisamente para pegar e andar. Quando se trinca, “sente-se uma camadinha mais fluffy no meio”. “Não é a massa napolitana com aquele ar todo, é um intermédio. Tem a base crocante e tem o meio mais molinho e fofo, mas não demasiado. Uma alturazinha assim”, clarifica Joana, com os dedos quase colados.
A primeira vez que vai ao forno, a massa leva consigo os ingredientes que demoram mais a cozinhar, por exemplo os pimentos, os cogumelos ou o alho francês (sim, já lá vamos). O queijo só entra na segunda vez, e só para derreter. “Eu uso mozzarella fresca, em bolinha. Se a pusermos logo ao início, vai ficar esturricada, demasiado seca, sem graça. Usando na última parte da cozedura, vai ficar derretida. Quando se reaquecer, vai ficar brilhante, derretida novamente.” Reaquecer? “Esta pizza tem uma durabilidade grande. Faço-as de manhã e depois, à tarde, faço outra fornada. Não tenho de estar sempre a fazer fornadas. Vou vendendo à fatia e a pessoa pode reaquecer aqui, se quiser comer no momento, ou em casa. Fica excelente com menos de cinco minutos no forno, um forninho bem quente. Fica logo crocante outra vez e o queijo derretido outra vez.” Tínhamos experimentado umas semanas antes desta visita, voltámos a experimentar no dia da conversa, e comprovámos.
A Coccinella é um espaço pequeno, ocupado em grande parte pela cozinha. A zona reservada aos clientes não deve chegar aos dois metros quadrados. Ainda assim, tem três bancos altos para quem quiser ficar por ali a ver quem passa. Na colorida montra de pizzas encontra sempre quatro tabuleiros (com nove fatias cada um), todas diferentes. O menu completo é de 12 e Joana vai variando diariamente as que estão disponíveis na hora, embora aceite encomendas de sabores que não estejam expostos – pede é que, se possível, liguem antes, já que as pizzas demoram algum tempo a preparar. Há também, como é natural, opções que estão quase sempre na montra – as best-sellers.
A Cogumelos e azeite de trufa, com flor de leite (stracciatella), cogumelos Paris e Marrom, e burrata (5€ a fatia), é uma delas. Uma surpresa para Joana. “Não esperava nada, mas as pessoas têm vindo só por causa desta pizza.” Para já, é a nossa preferida, respondemos. “Todos me dizem isso, é incrível. Acho que consegui uma boa ligação entre a stracciatella e trufa. A stracciatella é fresca – não vai ao forno – e corta a trufa, não enjoa.” A Margherita (3,70€) “tem de ser feita todos os dias”. “Uma que também tenho feito todos os dias e tem saído muito bem é uma criação minha, a Alho francês e três queijos [4,90€]. O alho francês combina de forma super interessante com o sabor forte da gorgonzola, com a ricota, que é mais suave, e a mozarela derretida. Fica muito bem.” Cabeceamos afirmativamente.
Uma curiosidade é que a pizza a que por hábito chamamos de pepperoni, aqui, tem outro nome: Salame Picante (4,90€). E a pizza que leva pepperoni no nome é a opção vegana da casa. A designação completa é Autêntico pepperoni (4,20), ou seja, leva pimentos, confitados, além de molho de tomate, cebola, azeite de alho e manjericão. Na altura de servir, Joana pergunta se queremos acrescentar pedacinhos de mozarela crua, que é como foi originalmente pensada. Outras duas opções muito particulares da carta são a Batata e alecrim, que além dos ingredientes principais leva flor de leite, sal e um fio de azeite (4,50€), e a Courgette, com flor de leite, sal, pimenta preta, burrata e um fio de azeite (4€).
Sobram a Marinara, muito simples, com molho de tomate, azeite de alho e orégãos (3,50€); a Marghinara, com tomate às rodelas, flor de leite cru e manjericão (4,50€); a Cogumelos e bacon (4,90€); a Presunto, ainda com flor de leite, lascas de parmesão e rúcula (4,90€); e a mais substancial, a Mortadella, também com flor de leite, burrata e azeite de trufa (5,20€). Os preços são sempre à fatia. É possível levar ou encomendar um tabuleiro inteiro e, nesse caso, multiplica-se por nove. Neste período inicial, Joana faz uma “pequena promoção”: 15% de desconto. Também é possível pedir um tabuleiro mais pequeno, de seis fatias.
Não é difícil imaginar que isso venha a acontecer amiúde. Estamos num dos pontos nevrálgicos da Estrada de Benfica, muito residencial e com várias escolas, centros de estudo, ginásios, campos de jogos, cafés, lojas, supermercados, um hospital e, se quisermos, até um estádio. A Coccinella fica paredes-meias com o jardim do Palácio do Beau Séjour e ajudou a criar um belo e diversificado triângulo gastronómico na zona, junto ao Hoquista e ao Baraa Kitchen, todos a menos de um minuto uns dos outros. Não faltarão comilões de todas as idades a várias horas do dia. E a gulodice pode obrigá-los a levar sobremesa: para isso, há cookies da Donnie Dough (3€), com dois sabores exclusivos para a pizzaria: tiramisù e limoncello. Este último é feito sem álcool, para não atrair nenhum João Ratão com a mania que é esperto. Ou talvez isso esteja só na nossa cabeça.
Estrada de Benfica, 366 – Loja C (São Domingos de Benfica). Qua-Sáb 12.00-21.00. 935 164 564
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