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Quando cai a noite na cidade, esta casa de sandes dá lugar a um izakaya – até ser dia

O After Dark partilha a morada com o Boubou’s Sandwich Club, no Príncipe Real, algumas pontes na carta e o espírito informal mas rigoroso da casa-mãe, o estrelado Boubou’s. Mas aqui é a cozinha japonesa de Matheus Simões Martins que dá cartas.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
After Dark
DR | After Dark
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A ideia estava a germinar há algum tempo. Despontou em Julho, cresceu durante o Verão e agora está a ganhar o seu espaço. Apaixonado pela gastronomia japonesa, Matheus Simões Martins tinha a seu cargo o Boubou’s Sandwich Club e vinha conversando com Louise Bourrat e os restantes sócios sobre transformar aquela mesma casa do Príncipe Real num izakaya. Não para fazer desaparecer as sandes, mas para alternar entre ambos os conceitos. Um izakaya não funciona durante o dia, as sandes não funcionavam à noite. Em Março, aproveitando o entusiasmo de uma viagem ao Japão, Matheus sugeriu que o momento de avançar era aquele. Concordaram, avançaram. E chamaram-lhe After Dark.

O espaço é mínimo, como uma verdadeira taberna japonesa: dois balcões, uma dezena de lugares. Para acomodar os dois projectos, teve de ser ligeiramente repensado. Lembra-se das caixas de sandes por cima do balcão? Agora estão lá fermentados. Lembra-se das mesinhas altas junto à parede? Agora está lá o segundo balcão. Lembra-se do néon do Boubou’s Sandwich Club? Bom, isso continua no sítio de sempre, embora fossemos capazes de jurar que está mais avermelhado, para condizer com as típicas lanternas japonesas que são penduradas à porta quando o After Dark entra em acção, às 19.00 de terça-feira a sábado (o Sandwich Club abre de quinta a segunda-feira, das 12.00 às 18.00).

Matheus Simões Martins
Cecile LopesMatheus Simões Martins

Matheus Simões Martins, 31 anos, é um frequentador de longa data dos sabores japoneses. Nado e criado em São Paulo, aproveitou desde tenra idade a oferta gastronómica proporcionada pela abundante diáspora nipónica no Brasil. Mas só agora, chef e a viver há alguns anos em Portugal (começou pelo Salta), conseguiu fazer a viagem dos seus sonhos – ao Japão – e à raiz das suas ambições na cozinha. Desde que regressou a Lisboa, tem vindo a construir e a afinar a carta do After Dark. Em poucos meses, ganhou confiança suficiente para servir dois menus de degustação. O método tradicional de um izakaya, à carta, continua a ser possível e recomendável (e, na medida certa, mais barato). 

São, no entanto, esses dois menus de degustação que oferecem uma experiência mais completa no After Dark – completa, equilibrada e sequencial. O que se perde em espontaneidade ganha-se em descontração e contemplação. Ou o que se ganha e o que se perde é o inverso, depende do que pretendemos quando nos sentamos ao balcão. O grande trunfo do After Dark é poder ser as duas coisas. E desde há poucas semanas que a experiência é mais rica, documentalmente mais rica, já que o chef passou a ser também um sommelier certificado de sake. A harmonização com quatro sakes, que Matheus faz acompanhar de uma breve explicação, para sabermos o que estamos a beber, é de 38€.

After Dark
Cecile LopesFrango frito & caviar

Os menus custam 54€, o de sete momentos, e 76€, o de dez. A diferença está no nigiri de wagyu, nas amêijoas XO e no salmão com tarê de chocolate, que não fazem parte do primeiro. Experimentámos o menu de degustação mais completo e, se o salmão, que finaliza o menu maior antes da sobremesa, não nos deixou saudades, o exacto oposto aconteceu com as amêijoas, um belíssimo prato servido com um bao de tinta de choco, para ensopar no molho XO e ficarmos a beber dos dedos as gotículas perdidas. Uma delícia. “É uma homenagem ao meu prato português preferido, as amêijoas à Bulhão Pato”, diz o chef. Um nigiri de wagyu – tanto mais com caviar de esturjão branco a cavalo – vai sempre bem.

Outro protagonista é o frango frito com caviar, servido com pimenta de sancho (que tem a particularidade, e a diversão, de nos deixar a língua dormente). A fritura segue a tradição japonesa: é karaage (tal como a que encontrámos no Wishbone). É a antecâmara para a katsu sando de presa de porco ibérico (uma das pontes da carta com o Sandwich Club) e a passagem para a parte final do menu, que terminará com um pudim de miso (com caramelo de sake e crumble de koji). Isto já depois de termos passado pela ostra (do Sado) com yuzu, por uma selecção de sashimi (robalo, lírio e atum, no nosso caso), pelo gunkan caótico (“uma grande bagunça”, nas palavras de Matheus, directamente inspirada pela viagem ao Japão) e pelos pickles tsukemono, da casa, fronteira entre os pratos frios e quentes.

After Dark
Cecile LopesGunkan caótico
After Dark
Henrique BoniniOlive aperitif

Todos estão disponíveis à carta, e mais alguns – por exemplo, o yakitori de shiitake e porco (8€), o usuzukuri de vieiras (19€) e a beringela e miso doce (12€). Aqui, as propostas do chef dividem-se em snacks, entradas, grelha, acompanhamentos e sobremesa. No centro, uma quinta categoria: imperdíveis. É onde figuram o gunkan caótico (25€) e o nigiri de wagyu (23€, três unidades). Para beber, além do sake, existem cinco cocktails diplomaticamente negociados com a cozinha (shio, umeshu smash, miso margarita, nashi mak e olive aperitif, 6€-13€), assim como cervejas japonesas (Kirin, Asahi, 2€-3€).

Quando saímos para a rua, mesmo que já de madrugada, a localização é óptima para fazermos como diz a canção e irmos de bar em bar. Amanhã de manhã já será outro dia.

R. do Monte Olivete 73 (Príncipe Real). Ter-Sáb 19.00-02.00. 213 470 804

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