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IndieLisboa. Protesto-performance denuncia “cinismo” na competição dos festivais

A primeira exibição de ‘Frágil’, de Pedro Henrique, surpreendeu a audiência com discurso sobre a precariedade no cinema e uma faixa de protesto. O realizador critica a promoção da competição entre cineastas. O festival defende-se.

Escrito por
Joana Moreira
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Trinta minutos depois da hora marcada, Frágil, a segunda longa-metragem de Pedro Henrique (nome artístico de João Eça para este projecto), ainda não tinha começado. O filme, em competição no festival IndieLisboa, apresentou-se pela primeira vez esta segunda-feira à noite no Cinema São Jorge, não sem antes um protesto-performance com duras críticas ao Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), à Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) e ao próprio IndieLisboa. 

“Se este filme se fez foi graças à disponibilidade da própria malta que trabalha em cinema, que vive à base de favores e entreajuda”, declarou em palco um amigo do cineasta, que leu o longo discurso de João Eça em que este acusava instituições de ensino e festivais de promoverem uma cultura de precariedade na indústria cinematográfica portuguesa. 

“Tudo isto é muito bonito, de amigos e amigas que se unem para fazer um filme, mas existe aqui um lado de exploração que é importante realçar. Sobretudo quando são as próprias instituições, como os festivais de cinema ou o ICA, que depois se aproveitam deste trabalho que nunca foi pago para ganharem reconhecimento e valor. Sem os nossos filmes, os festivais não são nada. Sem os nossos filmes, o ICA não é nada”, acusou.

Perante uma plateia que alternava entre aplausos e apupos, o jovem discursou durante cerca de meia hora, criticando, entre outras coisas, a aparente necessidade de submeter uma obra a competição para a mostrar numa sala de cinema. “A única opção que temos é enviar os nossos filmes para os festivais, mas enviar um filme para um festival, se nos selecionarem, claro, é a lógica da competição até à morte”, disse. “Mesmo que atribuam dois ou três prémios em vez de um, continuam a virar-nos uns contra os outros, umas contra as outras. Para poder mostrar o meu filme numa sala de cinema como esta, uma sala a sério, pedem para eu competir com outros oito realizadores e realizadoras. E eu digo que sim. Todos dizemos que sim. Será assim tão impossível imaginar um espaço onde podemos mostrar os nossos filmes?”, questionou. 

No mesmo discurso, as palavras do cineasta garantem que, caso Frágil receba o prémio da competição nacional de longas-metragens, este será recusado. “Não quero competir, principalmente contra os meus amigos e colegas de profissão”, leu o amigo do realizador. Uma ideia que foi reforçada quando, findo o discurso, um grupo de jovens (onde se encontrava o próprio João Eça) tomou o palco para colocar uma faixa onde se lia “Nós não queremos competir contra xs nossxs amigxs”. 

Elementos da equipa do Cinema São Jorge tentaram depois retirar a faixa para que a exibição decorresse com normalidade, mas os protestos da audiência da sala ditaram que a faixa se mantivesse mais alguns segundos. Com as luzes desligadas para o filme, finalmente, começar, a faixa acabaria então por ser mesmo retirada. Foi já com Frágil na tela da Sala Manoel de Oliveira que a mensagem voltaria ao chão, já em pedaços. 

Miguel Valverde, um dos directores e programadores do IndieLisboa, garante à Time Out que a organização não contava com o sucedido, mas que “estes protestos são muito naturais e acontecem em muitos festivais”. No programa do IndieLisboa – que volta a exibir o filme esta quarta-feira, às 22.00, no Cinema Ideal – Frágil é descrito como “um filme com veia musical atrevida que procura distinguir as vivências nocturnas de um grupo de camaradas desse lugar de alienação, exclusividade e consumo que é o club. Não há coisa mais importante do que a rebeldia contra o sistema – especialmente quando é praticada com os amigos”. 

“Um exercício legítimo de manifestação”

O programador considera que protestos como este “são importantes para mostrar que a situação não está fácil para ninguém”. “O sistema está ancorado [assim], se os filmes, sobretudo no caso das longas-metragens, tiveram sucesso comercial ou sucesso em festivais”, opina. Miguel Valverde acredita que “o protesto não era contra o Indie”, antes “contra o sistema que estamos a viver”, e “um alerta sobre a situação precária dos artistas em Portugal, não só na área do cinema, mas em geral”. O que aconteceu, resume, “foi um exercício legítimo de manifestação de uma coisa e de uma sensação”. 

Sobre a crítica directa feita ao festival relativamente à promoção de uma cultura de competição entre cineastas, o co-director do IndieLisboa discorda. “Sinto que a competição, sobretudo em Portugal, é bastante saudável, no sentido em que a competição verdadeiramente não existe”, diz. “Existe porque há atribuição de prémios em dinheiro e nós sabemos que a atribuição de prémios é super importante, e não só para ajudar quem os recebe. Estamos a falar de cinco mil euros, três mil euros ou mil euros. Num meio tão precário, qualquer prémio que as pessoas recebam em dinheiro ajuda realmente ou a pagar a renda da casa, ou a pagar a equipa, ou a pagar as pessoas que tiveram [de pedir] muitos favores para o filme”, explica. Além disso, o programador recorda que o próprio IndieLisboa tem categorias não-competitivas. “Nesse sentido acho que foi para nós uma surpresa. O filme inscreveu-se no festival, portanto, nós temos a candidatura do filme inscrito. Quando alguém aceita inscrever o filme no festival aceita as regras que o próprio festival tem. Ainda assim, quando convidámos o filme, há sempre possibilidade de falarmos sobre a secção em que o filme se quer encontrar ou onde sente que é o espaço mais adequado. Na verdade, se nos tivessem pedido para colocar o filme fora de competição, apenas numa sessão, obviamente que nós teríamos aceitado. Ficávamos com pena, no sentido em que acreditamos no filme e não se fazem muitos filmes como aquele em particular”. 

Também o produtor do filme foi surpreendido com a performance. À Time Out, Justin Amorim, da produtora Promenade, que co-produziu a obra com a extinta Videolotion, garante que não sabia do discurso de cerca de 30 minutos que antecedeu a sessão de Frágil. "Foi tudo uma surpresa”, começa por dizer, admitindo: “mesmo que soubéssemos que o João iria dizer aquelas coisas, não iríamos censurar, estes eventos são para isso mesmo, é para as pessoas poderem expressar-se". 

Sobre a possibilidade de o filme ter integrado o IndieLisboa numa secção não competitiva, o produtor acrescenta: "Não fazia a mínima ideia que havia esta questão tão grande dentro do João com a parte competitiva, portanto nunca foi sugerido nem nunca foi falado, mas sim, consigo perceber como é que isso poderia ter feito mais sentido para o filme". 

"As consequências depois logo se vê"

O cineasta, que orquestrou "com várias pessoas" o "happening" que criou burburinho mesmo antes de o filme começar, não desvenda quanto do momento foi planeado, aludindo para o limbo entre o "espontâneo e o performativo", "o real e a ficção", tema esse que também está presente na obra em estreia. "O que fizemos foi ocupar um momento que tem uma expectativa qualquer", explica nesta terça-feira à Time Out, e "subverter um bocado esse momento, e tomar uma posição política, que no fundo é fazer uma espécie de denúncia sistémica, porque o que se fez foi falar de várias instituições e de como elas se ligam por uma série de lógicas de competição e de exclusividade". 

João Eça – que na primeira longa-metragem (Entre Cão e Lobo, 2021) assina como Luís Calado, tomando agora o pseudónimo Pedro Henrique – denuncia "um certo cinismo" na competição dos festivais. "Às vezes têm um prémio ou dois para não ter só um vencedor, mas no fundo aquilo já está tudo viciado à partida", acusa. "Vou voltar a mandar um filme para o Indie no futuro? Estou queimado? Não estou? Não sei", questiona-se. "É óbvio que fazer esta acção partiu do pressuposto que isso não era importante. Importante era aproveitar este momento. As consequências depois logo se vê", adianta, acrescentando: "Uma boa ideia era montar as imagens que filmámos ontem e mandar para o ano para a competição". 

Para o realizador, remeter o filme para outras secções é "menorizar a questão" em causa. "Não sabia que havia secção não competitiva, mas de qualquer forma acho que é fixe a ideia de mandar o filme para o festival e de ir ocupar esse lugar a partir de dentro, [ter] o próprio poder que ele nos dá e depois subverter isso, faz parte da premissa do que aconteceu ontem. Ocupámos o lugar de uma secção competitiva e fomos dizer que não à competição", afirma. Ademais, estar na categoria competitiva do IndieLisboa torna o filme elegível a um dos apoios de divulgação do ICA, algo que o cineasta não vê como contra-senso, uma vez que "são mecanismos diferentes". 

Aliás, sobre a recusa do prémio do IndieLisboa, no caso de vitória na categoria, assunto mencionado no discurso proferido na sala de cinema, acredita que "tem de se estabelecer uma linha um bocado arbitrária". "Sou contra os financiamentos, mas sem um financiamento obviamente não consigo fazer um filme", diz. Num modelo que imagina, os festivais de cinema não teriam competição, mas sim "mostras" de filmes. "Acho que os prémios têm um lado mais perverso do que a questão dos financiamentos, por isso é que para mim é mais importante opor-me a isso. Não me posso opor a tudo", dita. "Tenho que escolher as minhas batalhas".

Frágil, de Pedro Henrique, compete na Competição Nacional de Longas do IndieLisboa ao lado de oito outros filmes portugueses. São eles Atrás Dessas Paredes, de Manuel Mozos, Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, O Trio em Mi Bemol, de Rita Azevedo Gomes, Super Natural, de Jorge Jácome, Périphérique Nord, de Paulo Carneiro, Rua dos Anjos, de Renata Ferraz e Maria Roxo, Viagem ao Sol, de Susana de Sousa Dias e Ansgar Schaefer, e Águas de Pastaza, de Inês T. Alves. É a competição nacional de longas mais extensa da história do festival, que no ano passado atribuiu este mesmo prémio a No Táxi do Jack, de Susana Nobre. 

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