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Ladies night. A noite também é delas, embora nem sempre pareça

Cheila Tavares, Flavi Andrade, Clara Metais e Alexandra Vidal são quatro rostos da noite de lisboeta. À Time Out falaram sobre desafios e conquistas.

Teresa David
Escrito por
Teresa David
Jornalista
Liquid Love
Arlei LimaCheila Tavares
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Que a desigualdade de género existe, não é novidade para ninguém. As mulheres ganham menos do que os homens, progridem mais devagar nas carreiras e há casos de discriminação, assédio, sexualização e violência a acontecerem todos os dias. O sector da noite, tendencialmente masculino, é, como muitos outros, um caso flagrante. Basta, aliás, olhar para as famosas ladies night, as noites em que as mulheres não pagam ou pagam menos para entrar em bares e discotecas do que os homens. Uma estratégia para o equilíbrio de géneros ou uma forma de discriminação positiva que trata mulheres como isco? Também é preciso ter em conta o próprio funcionamento desses espaços nocturnos. Quando imaginamos um bartender, o que vemos? Provavelmente um homem. E programadores de música? E porteiros? A mesma coisa. 

Maldita desigualdade. Cheila Tavares, proprietária do Liquid Love, um bar de cocktails no Intendente, conhece-a bem. A chef de bar não teve dificuldades no acesso à profissão, mas viveu “algumas experiências que mostraram que para as mulheres não é a mesma coisa”, conta. E por algumas quer dizer muitas. Uma aconteceu num bar na Austrália. “Quando fui para a entrevista disseram-me: 'Olha que este trabalho não é bem para mulheres, porque é um trabalho muito pesado, achas que consegues fazer isto?”, lembra. “Fiz o trial, vi que realmente era complicado, mas pensei, 'tenho que mostrar que consigo fazer isto'. Então estive ali seis meses a partir as minhas costas. Hoje em dia, se calhar não o faria. É sempre esta coisa de ter de trabalhar o triplo como mulher, temos sempre que provar um bocadinho mais para podermos ser levadas a sério”, continua. 

Rossio Gastrobar
Francisco Romão PereiraFlavi Andrade

Flavi Andrade, chef de bar no Rossio Gastrobar, concorda que a profissão tem desafios físicos, mas acredita que “o estabelecimento que quer ter a contratação de um profissional independentemente do seu género, também tem de se adaptar a isso para ter bons profissionais. Existem carrinhos de transporte e mil maneiras de se organizarem para serem mais amplos na contratação e na captação de talentos”. A brasileira também não teve um percurso livre de preconceitos. “Eu sou uma mulher com vários recortes, sou uma mulher estrangeira. Sim, tive dificuldades. Tenho dificuldades. Cada vez menos. Mas acho que isso depende de como cada um as vai contornar, e saber fazer dessa dificuldade uma mais-valia e uma força para lutar por aquilo que quer. Importante: plano, objetivo, metas”, afirma, determinada. 

Foi o que fez. Depois de um longo percurso em Sevilha, onde descobriu a sua paixão pela coquetelaria enquanto conciliava o trabalho em bares com um doutoramento em Jornalismo, e de uma estadia no Algarve, orgulha-se de liderar o bar do Altis Avenida. “Aqui 51% são mulheres, somos a maioria. E desses 51%, pelo menos seis estamos em postos de chefia e liderança”, garante. O marido, Guilherme Lacerda, é o seu sub-chef – e está tudo bem com isso. 

Também Cheila Tavares conseguiu encontrar força nas adversidades “Cheguei a trabalhar num cruzeiro. Passados três meses, fizeram-me gerente do bar. Os colegas masculinos deixaram de me falar e as colegas femininas começaram a tentar boicotar o meu trabalho. E isto aconteceu porque era, digamos, mulher e nova”, relata. “Graças a Deus, o director do cruzeiro viu o que é que se estava a passar e despediu uma ou duas pessoas. Isso deu-me um boost gigantesco para continuar a tentar subir na carreira e não ter medo pelo facto de ser mulher, pelo facto de ser jovem, pelo facto de estar a liderar uma equipa.” 

Mas o que se seguiu, quando se mudou para Londres, não foi melhor. “Fiquei a saber mais tarde, pelos donos de um bar onde trabalhava, que só contratavam empregadas de mesa se achassem que elas eram bonitas.” “You were good on the eyes, foi o que eles me disseram. Fiquei lá bastante tempo porque mostrei trabalho, mas um dos pontos da minha contratação foi o aspecto físico e isso foi horrível. Chegou a acontecer termos uma rapariga que trabalhava super-bem, mas eles não gostavam do aspecto dela, então não a contrataram, simplesmente”, lamenta. Neste mesmo sítio, sofreu assédio. “Um dos donos era extremamente touchy. Só que eu depois falei com o resto do pessoal e não aconteceu mais.” 

A barmaid do Liquid Love, considera que há cada vez mais mulheres atrás do bar e mais referências. “É um panorama mais bonito do que era quando eu comecei”, diz, mas sublinha que “mesmo assim continuam a ser poucas as mulheres em papéis de destaque” e também “não se vêem muitas mulheres em competições de bar”. A acrescentar, ainda existe o problema da falta de reconhecimento. “Há um mês ou dois, estava no Liquid Love com um rapaz que está a fazer trainning connosco. Perguntámos a um cliente o que é que gostaria de beber e ele escolheu um clássico, mas pediu para ser o meu colega a fazer. A pessoa voltou umas semanas depois, mas nunca pediu desculpa. Ainda há muito preconceito”, crê. O mesmo já aconteceu a Flavi Andrade. “Eu sou a chef de bar, mas se tenho um bartender ao meu lado, o cliente vai ter com o homem”, informa.

Nas Damas, o restaurante, sala de concertos e bar da Graça, o problema é o mesmo. “Passados oito anos ainda há aqui uma falta de reconhecimento. A Alexandra sofre mais, porque estando ela a dar a cara desde o dia zero, é rara a vez em que a reconhecem como a chef desta cozinha”, explica Clara Metais, a dupla de Alexandra Vidal. No que à programação diz respeito, a história repete-se. “Ninguém se dirige a nós como programadoras, mas na realidade somos. Essa falta de reconhecimento é uma coisa a que nós, como mulheres, estamos habituadas. Eu já passei por isto noutras profissões em que trabalhava na mesma função que um homem, mas recebia menos de 350 euros. Acontece em todo o lado”, conta Alexandra. 

As Damas
©Manuel MansoAs Damas

O chamado mansplaining – a necessidade de explicar às mulheres aquilo que elas já sabem – é, ainda assim, o principal problema apontado por estas Damas. “Temos uma sala de concertos, mas há muita gente que acha que nós não sabemos o que é um giradiscos”, diz Alexandra. “Sim, ou que não percebemos nada de eletricidade”, complementa Clara. “Não somos nada levadas a sério. Isto acontece, não só do público, mas dos artistas também. Tu convidas esta banda para vir cá, estás vestida de cozinheiro, sais da cozinha para cumprimentar a banda, e a reacção que eles têm à tua pessoa não é aquela que tu estás à espera”, salienta Alexandra. 

Para o futuro, as Damas pedem “mais programadoras e mais sítios para se escrever sobre programação”, diz Alexandra. “Porque esse também é um grande problema da música e da programação em geral. Os programadores são homens e quem escreve sobre a música são homens”, fundamenta. Não obstante, Clara reconhece que “muita gente começou a abrir os olhos para a necessidade de ter géneros de programação mais inclusivos”. “Agora já se repara quando, por exemplo, vemos aqueles line-ups de festivais e só há uma mulher. Antigamente ninguém reparava, por isso já é um passo dado”, acrescenta. 

Já Cheila Tavares, sugere que se crie uma comunidade, em Portugal, para as mulheres que trabalham ou querem trabalhar na hospitalidade. “Normalmente só falamos entre nós, num fórum fechado, mas devíamos fazer fóruns abertos para falar sobre isto e para apoiar outras raparigas mais novas, que acabaram de iniciar a carreira, a lidar com este tipo de situações”, propõe. Internacionalmente, já existem algumas iniciativas com este propósito. É o caso da Ellas Empowerment, uma plataforma que trabalha para a inclusão de mulheres nesta área, através de palestras, colaborações e campanhas nas redes sociais.

A barmaid do Liquid Love nota, ainda, que alguns bares estão a contratar mais raparigas bartenders porque ajuda ao balanço. “Tu vais a um sítio que tem só homens, é um sítio um bocado mais intimidante. Se um patrão quer ter um sítio que seja mais aberto, onde outras mulheres se sintam confortáveis, tem que contratar mulheres, porque um sítio que tem uma equipa mista, acaba por ser um bocado mais convidativo”. 

Há muito que se pode fazer – e tudo pode começar com a empatia. “Não são só as mulheres que têm que se apoiar, os homens também têm que apoiar as mulheres. É um trabalho conjunto”, acredita Flavi Andrade. E diz mais: “As dificuldades vão existir sempre em tudo aquilo a que nos propomos, mas quando o trabalho é bem feito, vai dar certo. Tudo pode ser muito desanimador, mas o muro tem a cor que a gente pinta. Acima de tudo este é um trabalho muito bonito, no qual se pode colocar muita alma, muita expressão.” 

Como Flavi Andrade, também Cheila Tavares quer deixar uma mensagem positiva. Desde que uma pessoa faça o seu trabalho bem feito e com seriedade, não vai importar o género. Se é este o trabalho que tu queres fazer, dá tudo por isso”, aconselha. “Mas que não passes pelos mesmos erros que eu passei. Deixei-me explorar só para poder mostrar que, como mulher, conseguia fazer. E foi completamente errado. Gostava de ter tido alguém que me guiasse nesses primeiros anos de carreira”, remata. 

Artigo originalmente publicado na edição de Verão 2023 da revista trimestral Time Out Lisboa.

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