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Parece de propósito, mas não é. Precisamente um ano e um dia após a inauguração de a exposição "Victor Palla e Bento d’Almeida: Arquitetura de outro tempo" apresentar a dupla de arquitectos (que nos deu snackbars como o Galeto) na Garagem Sul do CCB, o Museu de Lisboa apresenta uma outra vertente da obra de Victor Palla, desta vez em dupla com Costa Martins, também arquitecto. E, como Palla, também fotógrafo. "Lisboa Cidade Triste e Alegre: Arquitectura de um Livro" inaugura quinta-feira e apresenta uma nova visão sobre esta espécie de poema gráfico.
A relação que se cria com cada uma das imagens, ora tristes, ora alegres desta Lisboa dos anos 50, é ampliada com a consulta de um peculiar índice carregado de referências técnicas, de contextos como este da legenda da imagem em cima ou mesmo alusões ao realismo italiano no cinema. E depois o livro é bonito. Os autores contrariam a fotografia académica, optando por raramente usar o negativo integral, uma técnica também traduzida na paginação, e algumas imagens são acompanhadas por poemas de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Alexandre O’Neill, entre outros.
As fotografias são apresentadas pela primeira vez em 1958 na Galeria do Diário de Notícias, em Lisboa, e na Galeria Divulgação, no Porto, numa tentativa de difusão e de recolha de opiniões, embora sem grande adesão. Mais tarde escreveriam Palla e Costa Martins em Lisboa, Cidade Triste e Alegre: "Durante a composição tivemos de esquecer tudo o que ouvimos e planear segundo os nossos conceitos e convicções". Enviaram cartas personalizadas para os jornais todos da época, fizeram folhetos publicitários e até foram à televisão. Tudo para angariarem assinantes do livro, vendido em sete fascículos. Apesar dos esforços, a empreitada foi um fiasco. A obra teve uma segunda vida em 1982, quando inaugura a galeria Ether – Vale tudo menos tirar olhos, de António Sena. "Lisboa e Tejo e tudo" exibe imagens não publicadas do livro e, como tinham sobrado imensos fascículos, foram encadernados e postos à venda cerca de 200 exemplares. A exposição ainda foi nesse ano para os Encontros de Fotografia em Coimbra e em 1989 foi para Serralves. E nunca mais se ouviu falar disto.
Até que em 2007 está um exemplar, dos encadernados em 1959, à venda na Christie’s em Londres e é arrematado por 14 mil euros. Talvez porque três anos antes tenha ido parar ao The Photobook: A History, uma reputada edição dos fotógrafos Martin Parr e Gerry Badger que inclui os 100 melhores foto-livros do mundo. "Os coleccionadores mais ferozes digladiaram-se por ele", conta Rita Palla Aragão, neta de Victor Palla e a curadora da exposição que inaugura quinta-feira. Aí será possível comprar o facsimile editado em 2015 pela Pierre Von Kleist, de André Príncipe e José Pedro Cortes, depois de uma primeira edição em 2009, de dois mil exemplares, ter esgotado. À venda estará também uma nova edição do Público, uma colecção que sairá com o jornal em oito fascículos, em vez dos sete originais. Mas há mais.
"Vamos ver dois arquitectos amigos, sem os vermos, através da câmara. A fotografarem a cidade e a construir o livro durante três anos", começa por explicar a curadora. A primeira sala é dedicada a 16 fotografias, doze impressas agora e quatro da época em rotogravura, cada uma com o respectivo texto do índice. Noutra secção da exposição mostra-se a primeira edição, encadernada em 1959 e em 1982 e as edições da Pierre. Na segunda sala, vinte fotografias que se dividem em negativo integral e a versão cortada dos autores. No mesmo espaço, "a maior indiscrição de todas", assegura Rita: "Pegamos em quatro fotografias e fomos à procura das tiras de negativo delas". O resultado são 24 imagens – as quatro do livro, mais as cinco inéditas de cada tira de negativo. "São conjuntos interessantes, sobretudo porque eles não disparavam duas vezes e isso é muito diferente dos dias de hoje". Também há uma secção dedicada à Ether – Vale tudo menos tirar olhos; uma sala onde será projectado um documentário de 2005 sobre o livro realizado por Luís Camanho, com testemunhos preciosos; e um tablet a explicar como se constrói um fascículo. Em exposição estarão ainda três dos 60 livros vindos duma tiragem especial numerada e rubricada pelos autores, três da edição normal e um da edição da Ether – que é basicamente a primeira edição com outra encadernação. E a 10 de Maio arranca um ciclo de conversas no âmbito da exposição com os fotógrafos André Príncipe, José Pedro Cortes e Paulo Catrica.
Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, 245. Ter-Dom 10.00-18.00. Até 16 de Set. Entrada: 3€.
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