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No Atelier AK, na Avenida da Liberdade, o luxo come-se

Ann-Kristin Wenzel abriu as portas da sua cozinha de produção para servir sobremesas esculpidas ao detalhe (que não são só para a fotografia).

Raquel Dias da Silva
Escrito por
Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Atelier AK
Rita Chantre
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Faz mais de dez anos que Ann-Kristin Wenzel venceu o segundo lugar numa das primeiras edições do Masterchef, da TVI. A viver em Portugal desde os 12 anos, a dinamarquesa – que já foi manequim e entretanto fez carreira no catering de luxo, a trabalhar com marcas como a Dior e a Louis Vuitton – está agora de portas abertas na Avenida da Liberdade, com o Atelier AK, uma pastelaria de autor com uma vitrine em constante actualização. A ideia é que os clientes nunca saibam o que esperar, além, claro, de bom café e sobremesas bonitas “que sabem ao que parecem”, como o seu brownie de assinatura, com chocolate belga, pistáchios torrados e uma textura de trufa, um best-seller que volta e meia volta a fazer. “Se me pedem…”, diz, com um sorriso que lhe chega aos olhos.

Ao entrar, é impossível não reparar no friso da antiga Casa das Conchas, que Ann-Kristin decidiu manter e onde se lê “Vinhos, Pastelaria e Produtos Regionais”. Na verdade, há muito que o número 19B já não era uma pastelaria, que aí terá funcionado no início do século XX: a última vez que aqui estivemos, a propósito de uma exposição em torno dos moradores do eixo constituído pelas ruas de São José e Santa Marta, era já antiquário e loja de restauro – o fotógrafo Ângelo Fernandes e a sua mulher, Cristina, estavam então à frente do projecto. Dessa outra vida, restam as memórias de quem frequentava o espaço, embora a chef pasteleira tenha procurado prestar-lhes homenagem.

Atelier AK
Rita Chantre

“Comprei o lustre numa casa de antiguidades. Foi sugestão do estilista João Rôlo, que reparou que é um hexágono, tal como o estuque do tecto, no exacto local onde era preciso encaixá-lo. Quando mandei fazer a pedra para o balcão, para combinar com estas pedras que já aqui estavam, veio cá também um electricista para finalizar uns trabalhos e quando lhe estava a contar que não encontrava candeeiros iguais ao lustre, com o mesmo tipo de vidro, o senhor da pedra disse que achava que a mãe tinha uns e acabou a oferecer-mos”, conta-nos. “O João tem uma atenção ao detalhe maravilhosa. Ajudou-nos a encontrar peças incríveis.”

Ann-Kristin destaca “os vasos ridículos à entrada”, que sobressaem por entre a decoração sóbria, com linhas rectas, através da qual procura evocar a sua herança escandinava. “Pesam mais de 130 quilos cada um, os senhores nem queriam entrar aqui com eles”, diz-nos, entre risos. “Nós é que tivemos de os trazer.” O ‘nós’ inclui a sous-chef, Rita Simão, que é alérgica a ovos – só pode provar se não houver claras envolvidas –, mas nem por isso menos dotada para a pastelaria. Juntas, não só dão conta do serviço de catering do Atelier AK – uma vez que este novo espaço nasceu primeiro como cozinha de produção; a anterior era em Odivelas –, como põem em prática as ideias “doidas” que vão tendo no dia-a-dia, em viagens de carro ou idas ao mercado, por exemplo.

Atelier AK
Rita ChantreTarte de kiwi

“Acontece tudo naturalmente”, garante a sous-chef Rita, que não hesita em revelar que, no que toca aos doces, tentam adicionar “apenas o açúcar necessário”. “Queremos que as coisas saibam ao que são”, explica, apontando para uma das criações mais recentes: uma tarte de kiwi, que nunca tinham feito – nasceu de um encontro com “kiwis baby”, em Almoçageme. Na vitrine, além dos brownies (3,75€), de momento têm também cake pops de diferentes sabores; uma tarte de rosas e framboesa; e um surpreendente mil-folhas de maracujá, que estala e escorrega na boca em igual medida. Os preços vão até aos 8,50€.

“No outro dia apetecia-me arroz doce, pedi para a Rita fazer, e de repente olhámos uma para a outra – temos uma grande cumplicidade – e acabámos a fazer um bolo de arroz doce”, partilha a chef. “As ideias nascem assim. Esta nova sobremesa, por exemplo. Queríamos homenagear a Casa das Conchas e fazer um doce português, mas com um toque nórdico, então fizemos um financier, um pequeno bolo de amêndoa, porque os portugueses põem amêndoas em tudo, e depois temos esta concha crocante, de chocolate Gold, com recheio de doce de ovos, e para cortar, as groselhas, que são mais ácidas e usamos muito na Dinamarca.”

Atelier AK
Rita Chantre

Em exposição, há também produtos já embalados, para levar para casa, desde café e chá, os mesmos que se servem no espaço – “a Rita abandonava-me se não tivéssemos café como deve ser”, confessa Ann-Kristin –, até frascos da Melmequer, com mel 100% proveniente de apiários dos campos da Vidigueira, no Alentejo, onde predomina o rosmaninho. “Somos embaixadoras desta marca multi-premiada, que em Lisboa só está disponível aqui e no El Corte Inglès”, revela, antes de chamar a atenção para os sacos de areias (11€), biscoitos tradicionais portugueses, e de cantuccini (13€), típicos da cidade de Prato, na Toscana, que em Itália se mergulham em Vin Santo, para amolecerem – aqui a ideia é acompanhar a bica.

“Agora também temos pratos do dia, porque sentimos que nesta zona há procura – os nossos clientes também nos foram perguntando por almoços –, mas nunca repetimos, têm de confiar”, diz. “O menu da semana é anunciado nas redes sociais e tentamos que os preços sejam acessíveis, até aos 16€, com bebida incluída.” Já serviram, por exemplo, frango em bowl, com grão crocante de harissa, abacate, batata doce e vegetais variados, ou salmão assado com salada verde e arancinis de açafrão com refogado de funcho. Nos próximos dias veremos. A oferta respeita sempre a logística do negócio de catering. Ann-Kristin não só não gosta de desperdício como crê que é “falta de criatividade”.

Atelier AK
Rita ChantreChef Ann-Kristin Wenzel

Para o futuro, só o futuro o dirá. Depois do 2.º lugar no Masterchef Portugal, Ann-Kristin sonhava com um programa de televisão. “Quando forçamos muito uma coisa e não estamos a ser reconhecidos, é porque não é por aí que temos de ir. Talvez haja outro caminho. Eu não descartei a ideia, mas sei que resolvi um problema que havia e a resposta continua a ser muito positiva. Não ouvir o que as pessoas querem é suicídio neste negócio.” A médio prazo, talvez o que faça mais sentido é um segundo espaço, potencialmente no Porto, mas tudo a seu tempo. O mercado de luxo é exigente e Ann-Kristin não faz nada pela metade.

“O primeiro catering que fiz foi para a Montblanc. Na altura, não havia ninguém que trabalhasse o sector, e até agora também não havia um atelier do género aberto ao público. Comecei a pensar nisto durante a pandemia. É uma forma de dar a conhecer o meu trabalho diariamente, sem ter de fazer publicidade – a publicidade é o produto, as pessoas virem, provarem, quererem repetir, e penso que, cada vez mais, se procura essa oportunidade, de comer qualquer coisa que se viu no Instagram, ou num evento, e que parece inacessível, e afinal não é, não tem de ser.”

Rua de Santa Marta, 19B (Avenida da Liberdade). Qua-Sáb 12.00-17.00.

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