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Thuany Auni trocou o Brasil por Portugal para continuar os estudos de moda, mas foi na restauração que se realizou. Criou uma carta curta de bebidas e comidas para conseguir preparar tudo enquanto troca experiências com os clientes.

Há anos que Thuany Auni procurava um espaço. Ou melhor, estava à espera que um espaço a procurasse a ela. Sem pressas, sabia que quando encontrasse o local ideal, estaria preparada para avançar com o negócio que já vivia há muito dentro da sua cabeça. Quando empurrou a porta verde escuro do número 52 da Rua dos Poiais de São Bento, não teve dúvidas: tinha encontrado a casa onde queria servir matcha, petiscos, slow coffee e, sobretudo, tempo para conversar.
“Eu sempre quis um espaço pequeno, que tivesse características muito concretas e que não fosse super novo e branco. Já tinha imaginado o que queria e, quando aqui cheguei, era exactamente isto: com detalhes diferentes, o chão que chama a atenção, etc. Disse logo: ‘É o Ema, não há forma de ser outra coisa’.”
O nome estava guardado para algo especial – talvez um animal de estimação? –, mas o projecto adiantou-se. “É fácil de dizer em muitas línguas e isso é bom, porque também queria algo catchy”, explica Thuany à Time Out.
Em Novembro de 2025 começaram as obras, as portas abriram um mês depois. Os vizinhos, que acompanharam as renovações empoleirados nas janelas dos prédios em frente, estavam curiosos e foram dos primeiros clientes, a 6 de Dezembro.
Thuany fez quase todas as obras sozinha, afinal descreve-se como alguém “viciado em decoração”. “Assim que entrei consegui visualizar onde queria o balcão, as mesas, tudo. Fui juntando as referências que tinha, de espaços e no Pinterest, e projectei o espaço.” Comprou placas de madeira e metal e construiu o balcão à medida; pintou as paredes e manteve uma vitrine branca que se encontra logo à entrada, do lado direito. Lá no alto, uma roseta de tecto lembra que este é um local com história, tal como o chão, feito de azulejos com padrão geométrico bordeaux, cinzento e branco, cujas marcas de uso só revelam que ali já se viveu – e bem. “A ideia foi aproveitar o que o espaço tem de belo, como o chão e o tecto, foram essas coisas que me encantaram.”
O design gráfico (das ementas, do logo e do merchandise, que inclui camisolas e brevemente bonés e tote bags) ficou a cargo da namorada de Thuany e vai buscar os tons bordeaux e amarelo claro que estão presentes em vários apontamentos do Ema.
No menu há muitas inspirações do Japão e de Paris. A primeira lista apresenta todas as opções de matcha – aquilo que a proprietária queria mesmo ter. “Às vezes as pessoas não têm experiências boas. Eu sentia muito isso e fazia muitos testes e misturas de sabor em casa, mas não encontrava em lugar nenhum um sabor diferente que não fosse o matcha com morango.”
Thuany também quis contrariar aquela ideia de um espaço de matcha “com cara de laboratório”. “Eu não preciso de estar num lugar branco cheio de medidas e coisas assim para mostrar que gosto de matcha, sabe? Sentia que eu, como cliente, precisava deste espaço confortável e quis trazer sabores que ainda ninguém provou.”
Um deles é o matcha latte com oat earl grey (6€), que não existe noutro local, garante, e que é já uma das estrelas do menu. “Para quem gosta do matcha mesmo forte, ele tem dupla cafeína.” Outro é o matcha de frutos vermelhos com creme (6€) que agrada quem prefere opções mais doces. Já o de canela cream (6€) tem um ligeiro travo a coco que corta a intensidade da canela. Sugestão: quando o sol começar a aparecer, beba-o gelado. Quem diz que não gosta de matcha, é bem capaz de mudar de ideias.
Há ainda opções de banana purée (6€), mirtilo (5,50€) ou o clássico matcha latte (5€). Em todos pode escolher entre leite normal, de aveia, amêndoa ou côco — sem qualquer custo adicional.
Entre as mesas redondas bordeaux e um balcão metálico há espaço para 12 pessoas, nem mais nem menos do que aquilo que Thuany precisava. O objectivo sempre foi ter um espaço pequeno que não seja só um ponto de passagem, mas sim que as pessoas tenham tempo para se sentarem – se for de manhã então, as duas mesas mais próximas da porta recebem o sol como companhia. “Quero que as pessoas fiquem e aproveitem para ler, trabalhar, escrever.”
Para comer há, por exemplo, uma sanduíche de shokupan (brioche japonês) com frango (12€). Leva pesto, grana padano e maionese temperada, tudo devidamente encaixado num pão tostado, estaladiço a cada dentada. A torrada de miso (6€) é uma boa opção para os madrugadores – feita com pão sourdough, manteiga de miso, queijo da ilha e geleia de figo. A cebola caramelizada (7€) está a ganhar cada vez mais adeptos, até porque o aroma se espalha pelo ar, muito para lá das portas que dão para a rua. A tosta no pão sourdough junta cebola caramelizada, queijo e mel.
O lado dos doces está igualmente bem representado com o noisette brownie (7€), com creme de blueberry e brigadeiro de miso, e com o iogurte, chia e granola (6€), a que se junta geleia de blueberry, fruta da estação e mel aromatizado com cardamomo. Contudo, no meio disto, há já um best-seller: o doce de leite shokupan (10€). “É o que vendemos mais, sem dúvida. Vem com doce de leite, flor de sal e banana brûlée e um pouquinho de amendoim.” Come-se aqui ou leva-se para casa, ainda morno, a escolha é sua.
Sobra o café, aqui apenas de filtro. No menu que exibe o rabisco de um cão – uma homenagem ao animal de estimação de Thuany –, há café de filtro (2,80€), claro, mas também caramelo latte (4€) ou ainda v60 (5€). Este, como exige um tempo de preparação e supervisão maiores, só está disponível se houver pouco movimento. Nem sempre é o caso – há já quem chegue depois de ter visto um vídeo no TikTok sobre o Ema.
Para Thuany estão finalmente firmes as raízes que tanto procurava quando trocou o Rio de Janeiro por Lisboa, há sete anos. Lá trabalhava na área da moda e foi para fazer um curso de Marketing de Moda que viajou para Portugal. “Estava numa fase em que precisava de entender o que queria, por isso vim com o coração muito aberto.” Para se sustentar começou a trabalhar em restauração – apesar de uma breve passagem por uma loja do Bairro Alto como visual merchandiser – e percebeu que era algo de que gostava. “Aprendi muito, tinha muita liberdade para criar o que quisesse e foi essencial ter esses anos de experiência a gerir pessoas e negócios.”
No Ema, o menu é propositadamente curto para que seja suficiente estar apenas um funcionário a trabalhar. “Queremos que as pessoas se olhem nos olhos e queremos atender com calma. A ideia é que as pessoas que chegam saibam o nome da Catarina [que ali trabalha em part-time], saibam o meu nome, às vezes temos o João [outro funcionário] aqui também. Queremos que saibam de onde vimos, qual a nossa história. Isto foi o que eu sonhei: fazer o que gosto e poder partilhá-lo.”
Apesar de plenamente feliz no seu pequeno número 52, Thuany admite: “Acho que o Ema não foi feito para estar em um espaço só. Nem pode estar.”
Rua dos Poiais de São Bento, 52. Seg-Sex 09.30-15.30, Sáb-Dom 10.00-16.00
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