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Pizzas nova-iorquinas, saladas robustas, cerveja americana, vinho indie e todos os jogos arcade que conseguir jogar (de graça): está apresentada a Bonkers, a pizzaria de Santos onde as rodelas podem levar ananás ou natas, “que é para ser do contra”.

Numa pacata rua de atravessamento, onde o eléctrico 25 sobe e desce entre Santos e a Lapa, está a formar-se um pequeno cluster gastronómico. Se na zona baixa encontramos as sandes de Leonor Godinho no Bibs e os peixes maturados de Leandro Carreira no Barbela, dobrando a esquina para a São João da Mata, damos de caras com a doBeco, padaria, pastelaria e sítio de eleição para amantes de brunch. Subindo mais, lá estão o Batata Doce, instituição do bairro com uma das grandes figuras locais ao comando, Isabel Jacinto, e o novo Georgia. Ainda antes de este último ter aberto as portas, em Outubro, tinha aberto em Maio um outro espaço, a meio caminho, com uma proposta diferente da restante vizinhança.
Estamos a falar da Bonkers, a alegre, descomplicada e provocadora pizzaria de Rui Zuzarte e António Jardim. Já os conhecemos de outras andanças. Rui é o criador da marca de óculos de sol Palm3; António, da marca de hambúrgueres A-100. “Éramos os únicos com negócios próprios no nosso grupo de amigos e partilhávamos algumas ideias”, conta Rui. “Fomos crescendo, cada um com o seu negócio, e dizendo que um dia faríamos algo juntos. O nosso gosto em comum era muito automóveis, motos, corridas. Tentámos fazer uma coisa desse género, não foi para a frente. Mas eu sempre tive algum gosto por isto [restauração] e um dia liguei-lhe a dizer: pá, ò António, acho que vou abrir uma casa de bifanas. E diz ele: eu ando aqui com uma ideia que te vou apresentar e depois pensas nas bifanas.”
A ideia era uma pizzaria, embora distinta de todas as outras: esta teria pizzas ao estilo de Nova Iorque. Nenhum dos dois tem especial ligação à cidade, mas já tinham provado este tipo de pizzas noutros sítios, em particular em Espanha, onde “já está um bocadinho mais enraizado”. Rui frisa que, quando esta conversa aconteceu, Lisboa ainda não tinha a Rico Pizza, que abriu pouco antes da Bonkers, nem a Palms, que abriu um pouco depois (apesar de a vanguarda pertencer à Brew). A dupla não vê os congéneres com maus olhos, bem pelo contrário. “É bom sinal. Significa que há mais gente a acreditar que é uma boa aposta”, observa Rui, enquanto a coluna (Marshall) vai debitando hip-hop da Costa Leste.
A vibe é importante. Tão importante como as pizzas. Coberta de azulejos vermelhos (em baixo) e brancos (em cima), por sua vez cobertos de stickers escritos à mão pelos clientes, a sala opera numa luz baixa, quente, com tecto de madeira e dois grandes espelhos a aumentar o espaço. Com duas dezenas de lugares, a Bonkers é também uma viagem no tempo. Logo à entrada, encontra-se um balde de bebidas com garrafas clássicas de Coca-Cola. Desviando o olhar, vê-se o merch da casa, que usa duas personagens dos anais da melhor MTV, Beavis e Butt-Head. Mesmo lado, sobre o balcão servido de bancos altos, um telefone de disco. Não é o único artefacto recuperado pela arqueologia tecnológica: ao fundo, há uma máquina arcade com mais de três mil jogos à disposição – sem moedinha.
À mesa, imperam as cadeiras típicas de diner americano e o inox. É este o material que ampara tudo o que é comida na Bonkers, tudo o que é comida e é, em simultâneo, motivo de pelo menos três actos de contrição por fundamentalistas da religião das dietas. Na prática, as pizzas são-nos entregues de bandeja. Rodelas de 40 centímetros de diâmetro, divididas em cinco, para encher o olho e alimentar duas pessoas (e, já agora, no limite de tamanho das principais plataformas de entrega). Uma pizza nova-iorquina é grande. Há maiores, é certo. Mas para aqui procurou-se um compromisso, para as poderem vender inteiras, apesar de, como mandam as regras, se poderem pedir à fatia (todas a 5€).
Rui e António queriam descomplicar a vida aos clientes e acomodar todas as possibilidades. Aliás, em nome desse desígnio incluíram no menu uma versão pequena de cada pizza, individual. Pela forma meio velada como Rui nos fala do assunto, claramente preferiam não o ter feito – mas os clientes estão em primeiro lugar e, se quiserem vir sozinhos, podem vir. Menu de almoço? Também há: duas fatias e uma bebida, ou uma salada, uma fatia e uma bebida, 12€. Opções é que há propositadamente poucas: quatro pizzas, duas saladas, uma sobremesa. Mas não conte com propostas conservadoras. Na Bonkers arrisca-se. Talvez seja até um pouco mais do isso – “é para ser do contra”.
Só assim nos chega à mesa uma inesperada pizza com natas. Isso mesmo: natas. Chama-se Creamy Pam e leva ainda molho de tomate, queijo, fiambre, cebola, pimento assado (custa 16€ a pequena e 25€ a grande). “Fizemos a nossa interpretação de uma pizza meio portuguesa, vá. Que não fosse de todo italiana – leva natas, não é? Foi assim mais difícil de chegar lá e ficou a minha preferida”, revela Rui.
Outra provocação da casa é a Pineapple Xpress com queijo, bacon, chili e, claro, ananás (16€, 25€). Se quiser ser extravagante pode pedir uma 50/50, com metade da rodela com uma dos toppings e outra metade com o outro (só há grande, 26€). As outras duas pizzas também podem ser emparelhadas deste modo (entre elas ou com as outras, à vontade do freguês. São a Cheese Pie, com molho de tomate, queijo, manjericão, parmesão (12€, 21€); e a Dr. Pepperoni, com molho de tomate, queijo, pepperoni e jalapeño (14€, 23,50€).
As saladas funcionam como entrada, embora também possam ser principal. “Pensámos: o que é que vamos ter para alguém que venha e não queira comer pizza, ou que não quer comer pizza porque se calhar quer uma coisa um bocadinho mais saudável? Saladas.” São duas, uma salada césar, com alface romana, molho caseiro, bacon e parmesão, muito parmesão (6€); e uma salada de batata, “que já é uma coisa um bocado mais americana”, com batata assada, molho caseiro, ovo, pickle, cebola e parmesão, muito parmesão (6€). Tudo feito diariamente, até porque na Bonkers não há congelador – nem fritadeira, de resto. O que também condicionou a escolha da única sobremesa na ementa: um cheesecake a fugir para a tarte basca, com creme e crumble de Biscoff, e chantilly (6€). “O pessoal adora. Há pedidos da Uber só da sobremesa”, diz Rui.
O resto do menu inclui os inevitáveis molhos (hot honey, ranch e um picante), o cocktail sour que muda mensalmente (7€), as bebidas sem álcool da praxe, cerveja americana (Bud, de garrafa e pressão, 2€-3,50€) e mexicana (Corona e Coronita, 3€-2€), e vinho de uma marca sui generis, a Vibeyard. “São vinhos portugueses mas a marca é inglesa. É um vizinho nosso. Vive ao cimo da rua. Ele vai a vários produtores, prova e depois engarrafa os vinhos de que gosta com a marca dele”, explica Rui. As garrafas são todas idênticas, mas tem tinto, branco, rosé, verde (25€ a garrafa, 5€ o copo), e ainda vinho laranja, palhete e espumante (estes a 28€ a garrafa, 7€ o copo). Seja qual for a escolha, todos têm uma vantagem em comum: mais tarde ou mais cedo, vão obrigar-nos a fazer uma visita à casa-de-banho. Aí, terá um botão a dizer “Do not press”. Quando o encontrar, já sabe o que tem a fazer.
Rua de São João da Mata 30 (Santos). Seg-Dom 12.00-15.00, 19.00-23.00
Está à procura dos melhores restaurantes de Lisboa? Escolhemos os 100 que mais nos entusiasmam para 2026. Nas novidades, ainda cheiram a tinta os artigos sobre o Flamma, o Faminto, o Black Moon, o La Repubblica 29 e o Pub Lisboeta Mercearia Pachecas. No departamento das sandes, o Vetrina chegou a Campo de Ourique e o Katsu, no Cais do Sodré, é um fenómeno. Voltando aos chefs, tome nota destas notícias: Maurício Varela tomou conta do Ofício e Ana Leão do Corrupio.
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