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O Atlético quer apanhar-nos na Curva e ser o clube de todos em Lisboa

A nova zona de restauração do Atlético Clube de Portugal abriu portas com uma oferta que inclui Kau, Vetrina e Trifana. Mas é possível manter a identidade do clube, sem ceder à gentrificação?

Hugo Geada
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Hugo Geada
Jornalista
A Curva
Nadya M | A Curva
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Quando imaginava o potencial da Curva, a zona de restauração do Atlético Clube de Portugal, João Carvalho, director do espaço, estava tão entusiasmado que nem se apercebeu que ia dar um passo em falso. "Uma das primeiras vezes que viemos ao Estádio da Tapadinha, deparámo-nos com montanhas de aparas de relva", recorda durante a apresentação do food court. O director de 32 anos e que também responde pelo seu nome de DJ, Half Meter, conta que se entusiasmou tanto que acabou por meter o pé num monte instável e ficou com a perna enterrada até ao joelho. "Fiquei com as calças todas verdes e tiveram de ir para o lixo. Para continuar a reunião com os investidores tive de pedir umas calças de fato de treino ao roupeiro". Mas o problema de guarda-roupa não o esmoreceu. Limparam este espaço e é aqui que, agora, se instala a Curva.

O Campo da Tapadinha faz 100 anos em 2026, mas a sua história continua a escrever-se. Depois de quase um ano em soft launching, foi esta quinta-feira, 21 de Maio, que inauguraram oficialmente A Curva, zona de restauração e entretenimento do estádio do Atlético Clube de Portugal, em Alcântara.

O projecto, que nasce no mesmo local onde outrora se acumulavam apenas aparas de relva, promete mudar a experiência de ver futebol ao vivo em Lisboa, mantendo intacta a alma operária e bairrista do clube fundado em 1942. Sob a liderança de João Carvalho e de Gifford Miller, o nova-iorquino proprietário do clube, o espaço assume-se como um ponto de encontro multicultural, mas que recusa render-se à gentrificação.

A vida além do futebol

O grande propósito d'A Curva é fazer com que o estádio viva para além dos noventa minutos. "Queremos que o Estádio da Tapadinha, pela sua localização, seja um ponto de referência em Lisboa. Que as pessoas venham ao estádio, apoiem o Atlético, mas não só. Queremos que o estádio viva para além do dia de jogo", explica o director.

Para Gifford Miller, a missão passa por redefinir o conceito de desporto-espectáculo: "Para mim, isto é futebol moderno. Claro, queremos ganhar todos os jogos de futebol, mas nós queremos que seja uma experiência divertida para todos", diz à Time Out. Adepto do Liverpool, Miller reforça que o objectivo é "construir uma comunidade de adeptos que vejam a Curva como um espaço diferente. Um espaço mais comunitário e divertido, onde as pessoas se possam juntar".

Actividade de pintura na Curva
Nadya MActividade de pintura na Curva

Preservar a identidade ou ceder à gentrificação?

Apesar de manter o preço dos bilhetes a um valor acessível, 5€ – gratuito e com oferta de cerveja se aceitar ir para uma bancada especial cantar as músicas do clube sem parar, diz-nos Gifford, que confessa ter criado um cântico inspirado em "Copacabana (At the Copa)" de Barry Manilow –, esta abertura ao exterior e a recepção de novos habitantes de Lisboa levanta questões sobre a preservação da identidade do clube e da sua inevitável gentrificação. No entanto, esta é uma tese rejeitada por João Carvalho. "A nossa missão é mostrar aquilo que o Atlético é e preservar o que é a sua identidade. Por isso, queremos expandir isto e mostrar às outras pessoas. Temos um grande respeito pela identidade e autenticidade do Atlético e esperamos que não afecte aqueles que sempre apoiaram o clube."

Gifford Miller subscreve esta visão de inclusão sem exclusão: "Há tantas pessoas de Alcântara que estão a regressar ao estádio, porque estamos a mudar a experiência de forma positiva. Ao mesmo tempo, há milhares de expats que se mudaram para Lisboa e estão à procura de uma comunidade. É difícil encontrar isso nas grandes equipas porque existem demasiadas pessoas. Aqui é uma experiência mais amigável. Às vezes, os próprios jogadores saem do jogo e vêm beber uma cerveja com os adeptos."

A Curva em dia de jogo
Nadya MA Curva em dia de jogo

A bucha na Tapadinha

No que diz respeito à gastronomia, a selecção de parceiros foi criteriosa. O primeiro parceiro a associar-se foi o Kau, projecto do chef Rui Matias. "O Kau fala por si próprio. É um dos maiores que já ouvimos falar", sublinha João Carvalho, lembrando que o responsável aceitou o desafio quando o espaço era apenas lama. No menu, o Kau apresenta o texan cheesesteak (16€) e a sandes de pulled pork (9€). Apesar de terem vários espaços, na Malveira, ainda à espera de data de trauma de inauguração, ou o restaurante de sandes de pastrami – um dos visitantes da Curva inclusive dirigiu-se de propósito a esta foodtruck para pedir a famosa sanduíche e foi-se embora desiludido –, este é o único sítio onde pode provar estas receitas do Kau.

A Vetrina, conceito do grupo Non Basta, traz a herança italiana através de uma schiacciata, um pão tradicional achatado e crocante, originário da região da Toscana, muito parecida com a focaccia, mas que se distingue por ser mais fino. Aqui pode comer sandes (8,5€) variadas como a presunto, burrata e trufa; mortadela, burrata e pesto; ou mozzarella, pomodorini e tomate seco. Foram também desenvolvidas as pizzas em schiacciata (5,5€), disponíveis nas versões margherita, pepperoni e tartufo, utilizando mozzarella fresca cujo leite vem directamente de Itália. Para a sobremesa, serve-se o clássico tiramisu (4,9€).

Kau na Curva
Nadya MKau na Curva

Por fim, o chef Vasco Lello apresenta a Trifana, um conceito nascido originalmente para o restaurante Turvo e inspirado no receituário tradicional. A trifana (6,50€) trata-se de uma bifana que leva três cortes diferentes de carne de porco, o cachaço, a barriga e cabeça de xara, um patê feito com as partes moles da cabeça do porco. O chef introduziu também uma versão vegetariana, o Veggie Bun (8€), que consiste num hambúrguer vegetariano, feito através de um portobello inteiro, marinado, confitado.

Para acompanhar, o bar da casa serve cerveja de 0,5L (3,50€), cerveja de 0,25L (2€), Somersby de 0,5L (4€), além de três tipos de cocktails, incluindo Spritz. Além disso, o Clube Atlético de Portugal é dono da primeira bancada em Portugal onde é oficialmente permitido o consumo de bebidas alcoólicas durante o jogo, com o apoio da federação e da polícia. Situa-se dentro da Curva, atrás de uma das balizas. Estamos a tentar revolucionar a forma de se ver o futebol", aponta João Carvalho.

A trifana na Curva
Nadya MA trifana na Curva

Por enquanto, estes serão os espaços que vão dar comida e matar a sede na Tapadinha, mas, olhando para o futuro, os planos passam por consolidar esta zona como um espaço de usufruto anual e um motor de sustentabilidade para o Atlético Clube de Portugal. A estrutura está preparada para o Verão com zonas de sombras, mas Gifford Miller garante que já estão a preparar uma tenda para proteger do frio e chuva nos meses de Inverno. Com o final do calendário desportivo do Atlético, a Curva vai transmitir jogos do mundial no ecrã gigante e, no palco instalado irão receber DJs e artistas para espectáculos musicais.

A Curva
Nadya MA Curva

Quando questionamos Gifford sobre a possibilidade de expandir a marca para outras paragens, o proprietário americano descarta o cenário de imediato, focando-se em exclusivo na comunidade local: "Queremos ser a equipa de todos em Lisboa. Queremos apoiar a formação e os fãs que já cá estavam antes de nós. E, claro, fazer dinheiro para comprarmos bons jogadores."

Rua Prof. Vieira Natividade, 1300 (Alcântara). Sex 17.00-23.00; Sáb-Dom 12.00-23.00

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