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O irmão mais novo do estrelado Grenache é um bistrô e mora nos Anjos

Philippe Gelfi abriu o Grenache The Bistro para tornar a sua cozinha, de raiz francesa, mais acessível. No restaurante com estrela Michelin que mantém na zona do Castelo, serve “90% de estrangeiros”. Com o novo espaço, quer atrair os locais.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
Philippe Gelfi
Rita Chantre | Philippe Gelfi
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Um encontro entre portugueses e franceses durante um grande torneio internacional de futebol tem tudo para se tornar tenso. Felizmente, este aconteceu antes de o Mundial arrancar e ainda não se vislumbra qualquer confronto entre as duas equipas. Felizmente vezes dois, o francês em causa, Philippe Gelfi, tem muitos argumentos que não os da bola para nos manter caladinhos e ordeiros. Estamos à mesa do Grenache The Bistro, nos Anjos, a experimentar alguns pratos deste novo projecto do chef, bem mais acessível do que o Grenache original (restaurante com uma estrela Michelin junto ao Castelo) e estamos caladinhos, antes de mais nada, por uma questão de educação: não se fala de boca cheia. E depois, porque a comer somos uns verdadeiros campeões – que disso não haja dúvida.

A selecção que temos diante de nós é forte. Com técnicas e receituário tradicional francês sobre produto português (como um Raphael Guerreiro, um Adrien Silva, um Robert Pirès), embora sem desperdiçar o treino e a criatividade do chef (como um Griezmann, talvez), começámos por um vencedor absoluto: o risotto verde, com ricota de limão e avelã (16€). Um prato de conforto, aveludado, saboroso, com o queijo e os pedaços de fruto seco a acrescentar textura à cremosidade do arroz. Vale, só por si, uma visita ao Grenache The Bistro, que abriu no final de Abril na Angelina Vidal, no início da subida para Sapadores, num espaço onde durante muito, muito tempo, funcionou A Tabanca, tasca portuguesa que fez a transição para restaurante indiano na sua fase final, até fechar e ser agora reabilitado.

O risotto verde é acompanhado de mais dois titulares indiscutíveis: a cavala em escabeche, funcho e salada da horta (11€) e os espargos com emulsão de alho selvagem, azeite e croutons (12€), e ainda de um prato de evidente qualidade mas que pode não ser para todos os palatos, a terrine de campagne e pickles (9€). “Tem um pouco de bacon, fígados de frango e papada de porco. Alguns pickles caseiros com cenouras, cornichons, rabanetes e molho de mostarda”, descreve Philippe. Nesta versão inaugural da carta, há também salmão gravlax, crème fraîche, pepino marinado (11€); língua de vitela, gribiche e mesclun (10€), tártaro de vaca, telha de pão, rúcula (15€); tutano, condimento de alho e chalota (8€); peixe do dia em molho velouté e feijão manteiga (21€); e bavette, molho poivre, batatas (22€).

Grenache The Bistro
Rita ChantreEspargos com emulsão de alho selvagem no Grenache The Bistro
Grenache The Bistro
Rita Chantreterrine de campagne no Grenache The Bistro

O menu vai mudando para respeitar a sazonalidade dos produtos. “Vamos seguir as estações do ano o máximo possível. Quando um produto deixar de estar disponível, vamos trocar por outro da época. Por exemplo, temos espargos agora no menu. Acredito que a época vai terminar dentro de algumas semanas, por isso já estamos a trabalhar num prato de tomate para os substituir”, explica o chef. Além do mais, sublinha, “o menu é muito aberto”. “Se virmos que um prato não está a funcionar muito bem, ou que não tem o impacto que esperávamos, mudamo-lo. Mas a ideia é seguir a sazonalidade.” O que podemos esperar sempre é “comida de conforto”. “Acredito que as pessoas sentem falta deste tipo de comida, em vez de receitas muito elaboradas”, diz Philippe. “É um regresso ao básico.”

O Grenache, que conquistou a estrela Michelin em 2025 e a manteve este ano, está a correr “muito bem”. Então, porquê abrir um novo restaurante, sobretudo num ano que o próprio sector classifica como difícil? “Os preços de um Michelin não são acessíveis a todos. Portanto, quisemos oferecer algo um pouco mais barato”, afirma o chef. “Queremos que a nossa cozinha esteja disponível para um maior número de clientes. “Queremos que as pessoas que gostam de vinho, mas não querem passar três horas à mesa num restaurante de fine dining, possam vir e comer dois ou três pratos. Podem desfrutar de um bom tutano, de um bife tártaro, de uma cavala de escabeche ou de outros pratos franceses clássicos.”

Grenache The Bistro
Rita ChantreO risotto verde do Grenache The Bistro
Grenache The Bistro
Rita ChantreCavala em escabeche no Grenache The Bistro

Philippe fala num ticket médio entre 30€ e 50€. “Temos sete entradas, carne para partilhar, peixe do dia, opção vegetariana. Por isso, com 40€ consegue-se provar pelo menos duas entradas, um prato principal e, talvez, uma sobremesa”, contabiliza. Para beber, têm 19 opções de vinho a copo (7€-45€) e 500 em garrafa, com particular enfoque em referências portugueses e franceses, incluindo uma secção inteira dedicada a champagnes (nas garrafas, os preços começam nos 25€ e podem ir até às muitas centenas de euros). Sobremesas são três: prato de queijo com compota de citrinos (13€); texturas de chocolate, gelado de alecrim (9€); e sorbet de morango, manjericão, curd de limão, pain de gênes (9€). 

O Grenache The Bistro abriu portas em Abril. “Até ao momento estamos muito felizes com o feedback. Queremos sempre ter mais clientes, obviamente, mas para o primeiro mês estamos muito felizes”, disse-nos Philippe. Há clientes do Castelo que já foram ao Anjos, mas o chef garante que não faltam pessoas do bairro a quererem descobrir o espaço. O que é algo que, declaradamente, quer que aconteça nesta localização. No Grenache, os clientes são “90% estrangeiros”, e “80 a 90%” chegam ao restaurante com reserva. Vão de propósito. No bistrô, a ideia é que haja mais walk-ins e mais locais sentados à mesa. “Moro perto, conheço a zona. E vejo que têm aberto muitos lugares novos: restaurantes, wine bars, de tudo. E por isso acreditamos que é o lugar certo para abrir este projecto.”

Grenache The Bistro
Rita ChantreGrenache The Bistro
Grenache The Bistro
Rita ChantreGrenache The Bistro

O ambiente é o que se pode esperar da zona: paredes picas, grande janela aberta para a rua – com vista para o Patuá e o eléctrico 28 –, mobiliário em tons escuros, tons de preto e castanho a contrastar com a luz que vem de fora, dois bancos altos à janela, dois ao balcão, pinturas e plantas a dar personalidade ao espaço, colunas a debitar ora algo imediatamente reconhecível como Supertramp, ora uma sequência de french touch, num volume que não se impõe, mas também não passa despercebido, é um sítio cheio de pinta. E com uma espécie de segredo: se subir as escadas ao fundo, vai dar a um lounge com mais algumas mesas servidas por um único sofá corrido, óptimo para quem quer aproveitar o bar, bater o pé e seguir caminho. Esteja à vontade, que aqui ninguém leva a mal se não ficar para jantar.

Rua Angelina Vidal, 88B (Anjos). Qui-Seg 18.00-00.00

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