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O novo restaurante do Chiado tem produto da época e cerâmica do país inteiro. Chama-se Isabella

Quem assina a carta é o transmontano Ricardo Leite, o chef que escolhe a dedo cada ingrediente que entra na cozinha.

Mauro Gonçalves
Escrito por
Mauro Gonçalves
Editor Executivo, Time Out Lisboa
Restaurante Isabella, Chiado
Hayley Kelsing | Restaurante Isabella, Chiado
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A porta é-nos familiar, embora já quase nada esteja como nos lembramos. No espaço outrora ocupado pela primeira loja A Vida Portuguesa, que aqui fechou portas em 2024, nasceu Isabella, um restaurante sóbrio e acolhedor, com uma cozinha orientada para enaltecer o produto. À frente do espaço está Ricardo Flora, arquitecto e proprietário do edifício, que já funcionava como alojamento local. A conversão do projecto em hotel de cinco estrelas exigiu que o Flora Chiado Apartments passasse a englobar uma proposta gastronómica. A ideia começou a ganhar forma há cerca de dois anos e meio, com o contributo de um outro Ricardo – Ricardo Leite, o chef.

"A minha cozinha é muito virada para o produto, para os micro produtores, produto da época, orgânico. Gosto de trabalhar com as estações porque é precisamente assim que retiramos o melhor de cada ingrediente. Isso vem das minhas raízes e as minhas raízes são de Vila Real, Trás-os-Montes. Sempre cresci com o que os meus avós cultivavam, sei o que é semear, cultivar, regas, dar amor e ver crescer. E depois é não estragar o produto com a nossa criatividade, que às vezes também acontece", reflecte Ricardo Leite, numa espécie de nota introdutória do trabalho feito dentro da cozinha do Isabella.

Restaurante Isabella, Chiado
Hayley KelsingRicardo Leite, o chef do Isabella

O chef fala em produto, mas também em sabores que fazem parte de uma memória colectiva – portuguesa – e num cruzamento com influencias internacionais. No currículo, Ricardo Leite não traz só a ligação à terra e à região transmontana. Formou-se no Cordon Bleu, em Londres, e deu os primeiros passos no Viajante de Nuno Mendes. Passou depois pela Bica do Sapato e pelo Loco, e também pelo Alma Nómada de Porto Covo. Mais recentemente, encontrávamo-lo no hotel Hyatt Regency, no papel de chef executivo. Com o Isabella, o chef regressa ao seu habitat natural: a cozinha.

Sentados à mesa, a perspectiva sobre o restaurante é outra. Há mesas recatadas e sofás de canto, propícios a refeições mais intimistas. O preto predomina, embora a primeira sala seja iluminada pela luz que vem do exterior. É possível ficar ao balcão, não só para beber um copo, mas também para comer. Existe uma segunda sala, que conserva os postigos de madeira ainda do tempo do David & David, laboratório de perfumaria inaugurado em 1907. Os arcos pombalinos trazem monumentalidade e memória histórica ao espaço.

Restaurante Isabella, Chiado
Hayley KelsingRestaurante Isabella, Chiado

Estamos à mesa, no território de Pedro Nogueira, o sommelier que trocou o universo JNcQUOI por um poiso no coração do Chiado. Em mãos tem uma carta com 280 referências, muitas delas portuguesas. O mais surpreendente é mesmo o facto de todos os vinhos poderem ser servidos a copo. O pão de massa mãe da Isco abre as hostilidades, juntamente com um duo de manteigas – noisette com pó de cebola caramelizada e de ovelha, fumada.

A apresentação impressiona. O couvert é servido em pedaços de madeira de oliveira, cujas cavidades acomodam as entradas. São assinadas pela Gudila, projecto de artesanato contemporâneo com sede em Alcobaça. A cerâmica do Isabella é todo um mundo por explorar, além de motivo de orgulho para Ricardo Leite, que desenvolveu cada peça em conjunto com os artesãos que ele próprio escolheu. "Dediquei muito tempo à questão da cerâmica. Foi tudo feito à mão, não houve produção em massa. Isto eleva a refeição", admite o chef. Dos pratos feitos num forno a lenha na Terceira às chávenas de café de Bragança, Ricardo trabalhou com um total de nove ceramistas espalhados pelo país para que a sua culinária pudesse chegar à mesa de forma visualmente marcante.

Restaurante Isabella, Chiado
Hayley KelsingO couvert do Isabella

Serve-se então o lírio com oito dias de maturação, um molho de amêndoas e pickle de grãos de mostarda (14€). Uma entrada fresca contrabalançada logo em seguida por uma tosta de brioche, guarnecida com cantarelos, vinho Madeira e molho de levedura de cerveja (14€). Apesar de ser uma segunda entrada, é um prato suficientemente aconchegante para quem procura uma refeição rápida. Do lado dos principais, o destaque vai para o rigatoni caseiro (30€), com massa feita em casa, peixe branco e um molho que descende de uma velha receita de família, a da caldeirada.

Todo o peixe servido no Isabella resulta de uma relação de confiança. É pescado à linha em Peniche, por um fornecedor que acompanha o chef há 15 anos. A escolha da carne é igualmente criteriosa. Vem de Guimarães, da Quinta do Souto. A carta é generosa para os carnívoros. Entre os vários pratos está outra piscadela de olho ao receituário tradicional português – a presa de porco preto, tenra e mal passada, com batata frita caseira, pickle de cenoura e couve flor e molho de berbigão (29€). Remete o palato para a carne de porco à alentejana, claro está.

Restaurante Isabella, Chiado
Hayley KelsingLírio

A sobremesa pedia algo fresco e o chef respondeu à altura. Numa selecção que inclui versões autorais do arroz-doce (8€) ou do pudim abade de Priscos (10€), surpreende uma combinação de sorbet de morango, morangos fermentados e suspiro de sabugueiro (8€). Numa casa de perfeccionistas, nem o café pode ser deixado ao acaso. O cliente tem duas opções: Guatemala, um café com mais acidez, e Brasil, com notas mais torradas. Antes de servi-lo, uma última pergunta: em que chávena, feita manualmente por um ceramista português, vai querer o seu café?

Rua Anchieta, 11 (Chiado). 961 663 175. Ter-Sáb 12.00-00.00

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