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Arrepio
Mariana Valle Lima

Um arrepio cultural chegou à Graça

Quatro criativos transformaram um antigo cowork da Graça num sítio onde cabem ateliers, exposições e muita experimentação.

Escrito por
Joana Moreira
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A culpa foi do barulho. Na Travessa da Pereira, perpendicular à Rua da Voz do Operário, o primeiro cowork do grupo Heden não conseguia fixar residentes. “Não estavam a conseguir explorar este espaço como coworking porque as pessoas precisam de silêncio total, e às vezes há barulho, desta obra, por exemplo”, descreve Dania Darie, 27, à entrada do Arrepio, o novo espaço cultural que acaba de abrir portas na zona da Graça. 

“A ideia foi explorarmos isto de uma maneira diferente”, explica a anfitriã deste lugar, que passa assim a ser a excepção ao modelo clássico de cowork Heden (agora com cinco sítios, o último no Rossio). Aqui a ideia vai além da partilha de secretárias e wi-fi. Criou-se um colectivo, com quatro elementos: Dania Darie, 27 anos, produtora; Francisco Narciso, 23, fotógrafo; Vasco Narciso, 26, músico; e Pedro Vercesi, 40, artista plástico.

Arrepio
Mariana Valle Lima

Nos 500 metros quadrados do Arrepio descobre-se o mundo de cada um. No primeiro piso, por exemplo, está o atelier de Francisco. “É onde faço as minhas fotografias, edição, digitalização, revelação, faço tudo aqui”, diz o fotógrafo. Mais à frente, acumulam-se telas que revelam o espaço de trabalho e criação de Pedro Vercesi. É ainda no piso térreo que está a zona destinada a exposições, que será adaptada consoante a mostra. A exposição de inauguração do Arrepio contemplou pintura, ilustração e fotografia, obras de artistas como Numpára, Maria Cidraes ou Ozearv.

Descendo as escadas, a viagem e a exposição continuam. Ali há sofás, mobiliário para estar e um bar sempre a funcionar – futuramente terão snacks, mas para já só se mata a sede. Ao fundo, há uma sala de arrumos e o estúdio de Vasco Narciso. “Ainda há umas semanas fiz aqui uma gravação de uma peça de teatro que vai ser convertida em livro, um audiobook para crianças”, explica o músico.

Arrepio
Mariana Valle Lima

O objectivo do Arrepio foi sempre o de ser, primeiro que tudo, um espaço de trabalho para um grupo de amigos e criativos. Agora, estabelecidos enquanto colectivo, querem levantar voo. “Os nossos amigos já vinham cá, mas era sempre uma coisa à porta fechada. Decidimos abrir [ao público] porque também nos diziam para dar a conhecer às outras pessoas esta agência de viagens”, lembra Dania.

É mesmo assim que se definem, ora no quadro à entrada, ora no Instagram: uma agência de viagens. “A ideia é que cada coisa que se realize aqui tenha de alguma maneira uma ligação a uma viagem imaginária qualquer”, explica Vercesi. O conceito estende-se ao cartão de sócio que, ao contrário do que acontece noutras associações, aqui não tem a forma de um cartão em papel. É um autêntico cartão digital de embarque (e reconhecido como tal nas aplicações dos smartphones). É “um boarding pass, como se fosse um bilhete de avião” e passa “a ideia que este é um espaço para viajar”, diz Francisco. Para visitar o Arrepio, seja para ver exposições ou outros eventos que o colectivo se prepara para anunciar, é sempre necessário ter esse título de viagem, que tem o custo de 5€/ano. 

Arrepio
Mariana Valle LimaO atelier de Pedro Vercesi.

Arrepios conjuntos 

Outro dos motivos para a abertura de portas do Arrepio, que já existe enquanto colectivo desde finais de Julho, é a criação de sinergias artísticas. “Queríamos mais criativos que se juntem a nós e que façam coisas que nós não fazemos, de forma a que nos possam complementar. O trabalho cultural em Portugal todos sabemos bem como é que é [risos]. E como é que funciona”, admite Dania. Por isso mesmo, há ainda espaços para alugar, mas dependerá sempre “das pessoas e dos projectos”. “Há uma triagem", confessa Dania. “Estamos bem, mas abertos a alguém que complemente o projecto”, diz Vercesi. 

Sem um horário definido ou uma programação divulgada, o Arrepio continuará a tirar partido do cruzamento de valências dos seus membros, seja na produção de videoclipes, seja em sessões fotográficas ou noutros projectos que beneficiem do trabalho conjunto. Até lá, é tirar bilhete e aguardar pela próxima viagem. 

Travessa da Pereira, 35A (Graça).

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