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Livro, Anthony Bourdain, Laurie Woolever, Viagens Pelo Mundo – Um Guia Irreverente
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“Ao voltarmos a viajar mantemos o legado do Tony”

Como escrever um livro de Anthony Bourdain sem Anthony Bourdain? Trocámos uns emails com Laurie Woolever, a quem coube a tarefa de nos dar esta última obra. Um guia irreverente em que é quase possível voltar a ver e a ouvir Bourdain.

Escrito por
Cláudia Lima Carvalho
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Foi há três anos que a notícia da morte de Anthony Bourdain, durante as filmagens da 12.ª temporada de Parts Unknown, deixou o mundo em choque. Nesse mesmo ano, o chef, que se tornou conhecido do grande público através de programas de televisão documentais, planeava escrever um livro de viagens com todas as suas dicas para devorarmos o mundo. O trabalho ficou a meio e coube a Laurie Woolever, assistente de longa data de Bourdain, acabá-lo. O resultado é Viagens Pelo Mundo – Um Guia Irreverente [Casa das Letras], que chegou este mês às livrarias, oferecendo-nos mais uma viagem pelo mundo através dos olhos de Bourdain.

É uma grande responsabilidade materializar um livro que foi imaginado em primeiro lugar com o Anthony Bourdain. Durante o processo, alguma vez pensou desistir?
Imediatamente após a morte do Anthony, eu tinha dúvidas sobre se conseguia, ou devia, continuar com o processo de escrever Viagens pelo Mundo. Contudo, depois de ter tirado uns meses para processar a perda, e de ter falado sobre isso com o nosso agente literário e editor, decidi continuar a fazer o livro que o Tony e eu tínhamos começado, fazendo algumas mudanças no formato.

Qual foi o maior desafio?
Manter-me focada na tarefa de criar um livro alegre, enquanto me sentia profundamente triste pela perda do Anthony.

E a melhor parte?
A minha parte favorita foi trabalhar com um punhado de colaboradores de várias zonas longínquas do mundo – Hong Kong, Manila, Dubai, Chicago, Toronto e Nova Iorque – que contribuíram com ensaios sobre algumas das suas experiências de comer e viajar com o Anthony. Falar com eles e ajudá-los a desenvolver as suas ideias tornou este esforço muito menos solitário.

Este livro chega numa altura em que o mundo se está a abrir novamente. Anthony Bourdain nunca deixou de viajar. É o melhor testemunho que podemos ter?
É verdade que ao voltarmos a viajar mantemos o legado do Tony – de aprender sobre o mundo, e sobre nós mesmos, através do acto de viajar. Tenho esperança que o seu legado perdure cada vez que alguém leia ou referencie informação de Viagens pelo Mundo.

Como é que foi feita a escolha para cada país?
No início da Primavera de 2018, eu e o Tony sentámo-nos em Nova Iorque com uma lista de todos os lugares no mundo que ele tinha visitado para a televisão, e ele falou sobre cada sítio, sobre se o recomendaria ou não no livro. Ele visitou 93 países, alguns deles várias vezes, e claro que viajou muito dentro dos Estados Unidos. Tivemos de fazer algumas escolhas difíceis para que o livro não se tornasse uma empreitada impossível.

Livro, Anthony Bourdain, Laurie Woolever, Viagens Pelo Mundo – Um Guia Irreverente
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Em Lisboa, há apenas dois restaurantes referidos (Ramiro e Sol e Pesca), mas no programa Sem Reservas vimo-lo em mais sítios.
Durante essa tal conversa, estes dois restaurantes foram aqueles que vieram imediatamente à cabeça do Tony quando falou de Lisboa. Deixaram-lhe a maior marca.

Sendo um guia de viagens, este livro vai ser útil durante muito tempo. É uma forma de manter a memória do Anthony viva?
Sim, completamente. Viagens pelo Mundo é um dos livros que vai, idealmente, perdurar durante anos e dará aos leitores e aos viajantes uma boa noção de quem ele era, o que era importante para ele e o que ele gostava de experimentar quando viajava pelo mundo.

Qual é a sua melhor memória dele?
Uma das minhas experiências favoritas com o Tony foi acompanhá-lo, a ele e à sua equipa, numa filmagem no Japão, em 2016. Eu e ele apanhámos um comboio que atravessou o país, de Kanzawa a Tóquio, enquanto o resto da equipa seguiu em carrinhas por causa do equipamento. Ele ficou tão satisfeito com a simples mas elegante bento box [pequena marmita com divisões] que lhe foi servida! Nessa noite, fomos a Shinjuku, uma parte mais jovem e divertida de Tóquio, e ele teve um simples jantar de yakitori. O Tony estava genuinamente feliz por me estar a mostrar Tóquio – era a minha primeira vez ali –, sem câmaras ou nenhum outro interesse que não fosse comer frango grelhado, beber cerveja e absorver aquela cidade fascinante e avassaladora.

No livro, há histórias escritas por pessoas que o conheciam bem. Quem escolheu estas pessoas?
Eu. Relacionava-me com várias pessoas que trabalharam com o Tony ao longo dos anos, uma vez que era sua assistente desde 2009, e conhecia o Tony desde 2002, quando fui contratada para editar e testar as receitas do seu primeiro livro de culinária.

Quando é que podemos esperar novidades da biografia do Anthony que está a escrever?
Bourdain Stories, como se chamará no Reino Unido, será publicada em Novembro. Ainda não sei se terá versões traduzidas, mas espero muito que sim. O Tony tinha fãs em toda a Europa e seria fabuloso partilhar a sua história. E a Laurie, também viaja para comer? Comer especialidades locais é uma das minhas partes favoritas de viajar e, às vezes, o próprio motivo para viajar. Tive a sorte de visitar Portugal em 2014, para um casamento de família em Coimbra, e fomos à Mealhada comer leitão no Pedro dos Leitões. Mais tarde, visitámos o Ramiro, em Lisboa, por sugestão do Tony. Neste Verão, passei algum tempo a trabalhar em Copenhaga e gostei muito de todo o peixe fumado e dos maravilhosos pães de centeio. Também sou uma grande fã do Sri Lanka, pela cozinha incrivelmente complexa do país, juntamente com os belos mercados e as pessoas simpáticas.

Viagens Pelo Mundo – Um Guia Irreverente

Com prefácio de Ljubomir Stanisic, Viagens pelo Mundo reúne as recomendações de Bourdain ao longo de 43 países. Laurie Woolever dá o contexto e recorre a citações de Bourdain. Aqui reproduz-se em exclusivo uma parte referente a Portugal.

Tony enamorou-se de Portugal e da sua comida quando era um jovem lavador de pratos e cozinheiro em Provincetown, no Massachusetts, onde muita da população, empregados de restaurantes, pescadores e suas famílias eram de origem portuguesa. Aprendeu que as sopas e os guisados com pedaços de couve, batatas e chouriço que associara a Portugal eram de facto típicos dos Açores, um arquipélago no Atlântico Norte, uma região autónoma do país, com as suas próprias tradições culinárias e culturais. A maior parte das pessoas cujos cozinhados o Tony adorara no Massachusetts era imigrante dos Açores, onde, em busca das diferenças entre Portugal continental e insular, filmou um episódio de Não Aceitamos Reservas. Esse episódio talvez tenha chamado mais a atenção pela reação perplexa do Tony ao forte cheiro sulfuroso das furnas («como um traque húmido») nas quais um habitante local cozeu um ovo para ele.

Lisboa
Como chegar e deslocações

Lisboa, a capital de Portugal, é considerada a porta de entrada no país. O seu aeroporto, o Aeroporto Humberto Delgado ou da Portela, é simplesmente conhecido como Aeroporto de Lisboa (LIS); é servido por todas as principais companhias aéreas americanas, a TAP Air Portugal, (a transportadora aérea nacional) e todas as principais companhias aéreas europeias. Há um autocarro do aeroporto para o centro da cidade (o Aerobus, que custa 4 euros e demora cerca de 45 minutos), o metro da cidade (1,45 euros por uma viagem de 35 minutos, que inclui o transbordo necessário) e táxis, que custam cerca de 20 euros pela viagem de cerca de 20 minutos até ao centro da cidade, a aproximadamente 10 quilómetros do aeroporto. Lisboa tem várias estações de caminhos- de-ferro, a maior das quais é a Gare do Oriente, uma magnífica obra modernista concebida pelo famoso arquiteto espanhol Santiago Calatrava. A cidade tem um sistema de metro com quatro linhas, o Metro de Lisboa.

Comer em Lisboa: mínimo de complicação, máximo de prazer
«Lisboa: é uma cidade antiga, o coração da Era das Descobertas, em tempos o império mais rico do mundo. Há história aqui, muita história. É uma cidade bela. Os lisboetas gostam de comer. Falam muito sobre comida e têm ideias firmes sobre o que os visitantes deveriam comer e onde. O Ramiro é um desses lugares que os habitantes locais adoram, sempre adoraram e sempre adorarão. É preferido pelos chefs, com o tipo de refeições simples por que os chefs cansados de molho e guarnições anseiam. É um fogo cerrado de peixe e marisco minimalista de máxima qualidade. Não fazem muito ao peixe aqui. Comecem pelo marisco, terminem com o prego em pão.» O Ramiro é um estabelecimento com três andares sem grandes floreados, embora o serviço seja simpático e competente e a comida simples e impecável. Pode fazer uma refeição épica com os seus percebes, camarões, lagostins, amêijoas e, para «sobremesa», um bife temperado com alho e mostarda e metido num pão, tudo acompanhado por bastante cerveja.

RAMIRO: Avenida Almirante Reis, 1, 1150–007 Lisboa, Tel +351 21 885 1024, www.geral24128. wixsite.com/cervejariaramiro/copia-home (refeição média para dois 75–100 euros)

«Sempre que possível, gosto de comer onde possa também adquirir tudo aquilo de que preciso para a pesca: o Sol e Pesca, na parte mais degradada da cidade – uma faixa povoada por prostitutas bem abonadas e com maus dentes. Juntamente com a minha predileção por equipamento de pesca, adquiri recentemente uma paixão verdadeira e profunda por coisas realmente boas – enguias, sardinhas – que vêm em latas.» Há também uma série de variedades de atum e ovas de atum, cavala, polvo, lulas e mais, servidos com pão e vinho. O Tony comeu e bebeu entre canas de pesca, redes e carretilhas com o Pedro Gonçalves e o Tó Trips, do Dead Combo, «umas das bandas melhores e mais interessantes em Lisboa», cuja música foi a banda sonora da totalidade do episódio.

SOL E PESCA: Rua Nova de Carvalho 44, 1200–019 Lisboa, Tel +351 21 346 7203 (refeição média 20–30 euros/por pessoa

Viagens Pelo Mundo – Um Guia Irreverente, de Anthony Bourdain com Laurie Woolever. Casa das Letras. 536 pp. 21,90€

Novidades gastronómicas

  • Restaurantes

As novidades na restauração multiplicam-se de tal forma que, à medida que damos conta destes restaurantes que abriram nos últimos meses, novas mesas já nos esperam. Felizmente, a pandemia começou a dar tréguas e aqueles projectos que tinham ficado em suspenso dão-se agora a conhecer. Há restaurantes a piscar o olho à estrela Michelin, comida democrática, refeições para qualquer hora, pratos daqui e do mundo.

  • Restaurantes
  • Japonês

A vida retoma a (quase) normalidade e as novidades gastronómicas sucedem-se em Lisboa. Nos últimos meses, apareceram na cidade e arredores novos restaurantes japoneses que prometem dar que falar – na verdade, alguns já têm dado e a prova disso é a dificuldade em arranjar mesa. Há propostas arrojadas onde reina a fusão e casas onde manda a tradição, sem grandes espalhafatos. 

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