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©Isabel Subtil Mudança

O programa digital do TBA diz que eles são Essenciais

O TBA (Teatro do Bairro Alto) convidou quatro profissionais da cultura para criarem encontros a dois com trabalhadores essenciais.

Por Renata Lima Lobo
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O TBA ainda está de portas fechadas, não por causa do distanciamento social, mas sim das obras que decorrem na zona de bastidores e salas de ensaio do teatro. A boa notícia é que a programação continua online, coisa que não é estranha nesta nova vida do antigo palco da Cornucópia. Antes de abrir portas, há pouco mais de um ano, o TBA lançou-se primeiro na Internet.

A programação da nova temporada do TBA começa na próxima segunda-feira, 5 de Outubro, com Essenciais, um conjunto de quatro performances que pode ver em streaming gratuito no YouTube e redes sociais, até 31 de Outubro. Encontros entre quatro profissionais da cultura que foram desafiados pelo teatro a, por sua vez, convidar quatro trabalhadores essenciais para um encontro a dois. De cada encontro resultou uma peça em vídeo, onde duas pessoas “socialmente distanciadas encontram-se num lugar qualquer, real ou virtual, e chamam-lhe um palco”, descreve o TBA. 

 

A manutenção da humanidade

Essenciais
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©DR

Uma delas junta a coreógrafa Andresa Soares a Olga Cunha, actualmente encarregada dos serviços gerais num lar de terceira idade. Nos últimos meses, Andresa confinou-se às artes e Olga aos cuidados do final da vida. Juntas vão apresentar “Arredar”, um encontro que explora o que há de essencial naquilo que fazem, como vivem o confinamento e o desconfinamento, o que mudou ou o que tem de mudar. “A relação com a terceira idade no final da vida, com necessidades que deveriam ser muito mais do que apenas a sobrevivência (higiene, comida, sono, saúde) permite uma reflexão rica sobre aquilo que é a manutenção da humanidade e a função redutora para a qual a sociedade actual remete tanto o idoso como o cuidador”, lamenta Andresa que com Olga descobriu novos interesses, como o paralelismo com o arredar da actividade artística “para o âmbito do supérfluo, do dispensável”. “É o mesmo gesto de redução e condicionamento da vida humana”, diz.

Para chegar ao encontro final do TBA, foram precisos outros encontros, online, mas privados, onde Andresa e Olga se entrevistaram mutuamente. “A Olga é uma óptima conversadora e contadora de histórias, para além de ter muita sensibilidade e pensamento sobre o que faz e o que vai vivendo. É também uma pessoa muito empática, então toda esta situação foi um misto de indignação relativamente ao funcionamento do sistema e de percepção da pertinência do seu modo de ser e ligações que cria”, explica a coreógrafa, que foi gravando e tomando notas até chegar ao texto final que junta as duas vozes.

Mas será Essenciais também uma forma de sublinhar que os profissionais do espectáculo são isso mesmo, essenciais? "Essa é a premissa central deste programa. É tão pertinente como cansativo ainda termos de atirar essa questão para cima da mesa", queixa-se Andresa, ressalvando que há duas coisas que ficam "visíveis" neste encontro em particular: a falta de investimento na cultura e a falta de condições de trabalho das cuidadoras, "maioritariamente mulheres", sublinha.

O nascimento de Essenciais

Os quatro profissionais da cultura convidados pelo TBA são todos artistas, mas podiam não ser. O ponto de partida foi uma longa lista de nomes com contribuições de vários elementos da equipa do teatro, mas o final cut prendeu-se com “três preocupações”, como enumera o director artístico Francisco Frazão: “O interesse pelo seu trabalho artístico e político; a diversidade de abordagens (embora as peças sejam em vídeo, os criadores vêm da performance, da música, do cinema e da escrita); e a atenção à sub-representação (étnica, de género, etc.).”

Frazão diz que a ideia surgiu no contexto do programa digital do TBA, desenvolvido durante a pandemia. “Depois de duas co-produções internacionais (We are the King of Ventilators e The Script — Make Yourself at Home), quisemos fazer um projecto com artistas a trabalhar em Portugal e que juntasse a abordagem experimental, que está no ADN do TBA, a um questionamento político que pudesse ser influenciado tanto pelo activismo dos trabalhadores das artes como pelo movimento Black Lives Matter.”

O director artístico do TBA acrescenta que Essenciais é um frente a frente entre dois pólos: “Ser obrigado a trabalhar ou a parar durante a pandemia; perder ou não rendimentos; ser visível ou invisível; etc. Claro que as escolhas feitas pelos quatro artistas vieram elas próprias baralhar estas oposições. Não sei se este projecto vem demonstrar o carácter essencial das artes nas nossas vidas ou revelar que os profissionais da cultura são trabalhadores essenciais. Mas faz de certeza o contrário: neste projecto, os quatro trabalhadores essenciais escolhidos são artistas”, conclui.

As outras duplas

Essenciais
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Tágides, exemplares

Duas trabalhadoras reflectem sobre o impacto da pandemia, o significado do trabalho e as implicações do sistema de valoração capitalista. Até que lhes surge a oportunidade de serem eleitas “As musas da recuperação socioeconómica”. Quem sairá vencedora da campanha?

Lila Fadista: É o nome artístico de Tiago Lila, vocalista do conhecido projecto Fado Bicha. Tem um Mestrado em Psicologia, foi um dos fundadores do grupo de teatro Artivício e em 2014 participou num projeto de voluntariado numa organização pacifista, em Atenas.

Alice Azevedo: Licenciada em Estudos Artísticos – Artes do Espectáculo, é actriz no Grupo de Teatro Sai de Cena e co-fundadora da Lóbula, colectivo de dinamização cultural Trans, Queer e Feminista de Lisboa. Foi operadora de call-center em assistência ao cliente.

Essenciais, Tba,
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Essencial é a fome

Um encontro que reflecte o conceito de fome, e tudo o que se torna essencial para a sobrevivência. Além da fome ‘vontade de comer’, é explorada a alimentação mental, emocional e espiritual. A fome de ouvir uma história, um poema, uma palavra amiga, uma música ou a fome de uma refeição, mas em conjunto.

Raquel Lima: Nascida em Lisboa, de mãe angolana, pai santomense, avó paterna senegalesa e trisavó materna brasileira, é poeta e performer, com um percurso de dez anos ligado à poesia oral.

Maria Palmira Joaquim: Auxiliar interna de geriatria, já foi empregada doméstica, cozinheira e técnica de distribuição. Nasceu em Luanda em 1960, onde chegou a estudar enfermagem, formação que interrompeu quando se mudou para Portugal.

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©Isabel Subtil

Mudança

Um artista e uma deputada questionam-se sobre “a essência dos seus ofícios” em tempos de pandemia, passando por questões como a preservação da democracia, a integridade da saúde pública e a noção de individualidade. Um encontro com uma proposta visual diferente, onde pinturas do artista plástico Nú Barreto são projectadas sobre os performers, ao som da música de Mû Mbana.

Welket Bungué: Luso-guineense, de etnia balanta, é um artista transdisciplinar que trabalha a nível internacional. Co-fundador da produtora KUSSA, dedica-se à escrita dramática, argumento de cinema, performances e teatro.

Joacine Katar Moreira: Também luso-guineense, Joacine é historiadora, deputada na Assembleia da República e activista pelas causas do feminismo e antirracismo.

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Este ano está a ser particularmente atípico, mas deixe-se de desculpas e vá ao teatro. Em Lisboa, não faltam opções, muitas delas com preços bem apetecíveis. Algumas, graças aos estranhos caminhos da programação e não ao desprezo do público, estão tão pouco tempo em cena que, a bem dizer, é preciso correr e ver, que isto nunca se sabe se e quando são repostas. Outras há que vêm de trás e para a frente continuam. Há de tudo nesta selecção, em constante actualização, e entre companhias históricas e emergentes, encenadores e actores conhecidos e outros ainda a esgravatar por um lugar, portugueses e estrangeiros, encontra-se um generoso conjunto de peças de teatro. Voltamos a abrir as portas das principais salas de teatro de Lisboa para lhe dizer o que reserva este bonito mês de Outubro.

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