Paraíso Escondido, paraíso encontrado

Perto da praia e no meio da vegetação alentejana, em São Teotónio, há uma casa para fazer reset. Bem-vindos ao paraíso

Ricardo Polónio

O paraíso é um sítio onde qualquer previsão meteorológica é gloriosa: depois de uma chuvada há qualquer coisa de renovador no cheiro da terra molhada, dos eucaliptos e dos pinheiros; o nevoeiro opaco é tudo o que se vê da parede panorâmica do quarto; nos bungalows elevados sobre estacas numa descida acentuada ouve-se a chuva bater no telhado de madeira -– estamos para ali abandonados com tanta paisagem à volta que parece que não há mais nada em lado nenhum. Berny e Glenn tinham o sonho de receber hóspedes num sítio mergulhado na natureza, onde se pudesse cair no relaxamento. Healing, diz-se em inglês, é o mote deste Paraíso Escondido, em São Teotónio.

Berny chama ao Alentejo a sua “África roubada”, logo ela que nasceu em Moçambique, filha de pais portugueses, e que viveu vários anos na África do Sul. Compraram este terreno em 2008 e desde então têm feito crescer o alojamento mesmo à beira da casa onde vivem com a filha de 14 anos, Gisela, que volta e meia aparece com um bolo que acabou de fazer. Também andam por lá dois cães – um possante leão da Rodésia e uma pequena franjinhas – que formam o the odd couple [o casal bizarro], diz Glenn enquanto nos conduz nos 20 minutos que separam a estação de Santa Clara-Sabóia e o Paraíso Escondido.

O sentimento de estar a ser recebido numa casa de família está por todo o lado, desde as fotografias de Berny, Glenn e Gisela num dos corredores, às rendas que uma tia fez para decorar a casa, às conversas descontraídas com estes anfitriões a qualquer hora do dia, e especialmente à mesa. É Berny que cozinha e pode confiar-se nela como na mão de uma mãe que tempera e só escolhe o que vale a pena. O javali é entregue por um caçador da zona que achou engraçado um forasteiro como Glenn gostar tanto de carne de caça; a batata doce lyra vem da banca de Petra, no mercado de Aljezur; o pão é cozido por ali todos os dias, com massa comprada a um padeiro de São Teotónio; os queijos de cabra do pequeno-almoço são da dona Assunção, a uns minutos a pé, às vezes comprados acabados de fazer.

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Tudo isto é preparado de forma simples, a evidenciar a riqueza do produto, e se a noção de healing dos hóspedes passa por andar a passear entre vizinhos, ver galinhas a correr pelo meio da estrada e a conversar sobre queijo, Berny não vai resistir a levá-los pelos arredores ou a deixá-los ir apanhar erva-príncipe para um chá à pequena horta que também abastece esta cozinha.

Como se estivéssemos em casa

Mas a cura não termina aqui:  está também nas massagens que se podem agendar ou em qualquer um dos oito quartos (dois deles com uma banheira com vista para o horizonte cheio de árvores, outros dois com vista para um lago), ou nos dois bungalows erguidos no meio dos eucaliptos. Cada um tem uma vista alta e longa por cima dos montes da costa vicentina, cheios de verde logo depois das últimas chuvadas do Inverno. É assim também com a piscina e com a sala social da casa. Chamam-lhe recepção, mas esqueça todas as imagens feitas de uma recepção: uma grande sala panorâmica possibilita um olhar infinito nos dias mais claros e é aí que Glenn prepara o seu Paradise, um Porto tónico a que acrescenta zimbro, ao fundo, no seu “sports bar”, brincamos. É aí que vê o jogo do Chelsea no telemóvel enquanto comemos um banquete de saladas e salsichas com Berny. A refeição parece não acabar, entre mais uma garfada e mais uma história – por exemplo aquela em que Glenn jantou com a Queen B. Não há pressa de levantar a mesa a hora nenhuma, nem mesmo ao pequeno-almoço recheado, servido comodamente na mesa, numa atitude anti-buffet que ajuda muito ao tal processo de healing. Fica-se por ali facilmente a tarde toda, com a ajuda do bar onde os hóspedes se servem livremente e anotam no caderno da honestidade aquilo que beberam. Até se pede para passar aquela música ou para tirar a música por completo, se for preciso. Parece domingo em família.

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