Oito obras essenciais no Museu Nacional de Arte Antiga

Perca-se no tempo e no espaço do Museu Nacional de Arte Antiga, mas não deixe de ver estas oito peças

© Lydia Evans / Time Out

Não tem a dimensão de um Louvre, em Paris, ou de um Museu do Prado, em Madrid, mas como estes, também o Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes, não se vê num dia. É um bom sítio para flanar sem rumo nem propósito e aproveitar as vistas, uma e outra vez, até porque ele não sai de Lisboa. É visitá-lo várias vezes – os primeiros domingos do mês são de entrada livre até às 14.00 – e ir vendo. Só não se esqueça de dar uma espreitadela nestas oito obras, cheias de histórias para contar.

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Oito obras essenciais no Museu Nacional de Arte Antiga

A Adoração dos Magos

A Adoração dos Magos

É uma das grandes coqueluches da casa, graças à inédita campanha de angariação de fundos que na temporada 2015/2016 mobilizou os portugues, fê-los dançar pela arte numa matiné à beira rio no Lux, e permitiu que a famosa obra de Domingos Sequeira pudesse repousar por fim nas paredes do Museu Nacional de Arte Antiga, que a namorava há imenso tempo. "Se os painéis de São Vicente são um momento fundador de uma escola de pintura antiga, esta que acabamos de comprar, é o fim deste grande ciclo da pintura portuguesa", descreveu na altura o conservador Joaquim Caetano.

Aderente à revolução de 1820, Sequeira, "primeiro pintor moderno, ou último dos antigos", pinta este conjunto de quatro pinturas no fim de vida, em Roma, onde estava exilado. Aqui preparou quatro pinturas deste formato. Duas ficam inacabadas, mas há vários estudos feitos, ao longo dos quais se baseia  numa noção muito própria de algum cristianismo do século XIX. "Há um acento tónico na força criadora das ideias cristãs, no cristianismo como criador de uma beleza estética e uma sociedade melhor. A divindade está associada a esta luz mística projectada sobre a virgem e todo o povo cristão".

Painéis de São Vicente

Painéis de São Vicente

Os banquinhos que estão à frente destas obras dizem tudo: é para sentar e apreciar. Os seis painéis atribuídos a Nuno Gonçalves são uma janela para a estrutura social portuguesa do século XV, com as caras da corte, Igreja e sociedade dispostas segunda a sua importância. Tudo em adoração a São Vicente (em dupla aparição), com o seu chapéu vermelho, patrono da expansão militar para África. As pinturas que estariam originalmente na capela mor da Sé de Lisboa, e tornaram-se um símbolo nacional no Estado Novo.

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Tentações de Santo Antão

Tentações de Santo Antão

Ao centro da sala, este tríptico tem o destaque que merece. As incontáveis histórias de Jheronymus Bosch neste quadro – como no seu famoso Jardim das Delícias – são tão assustadoras quando intrigantes. A possibilidade do homem bom viver os sofrimentos do inferno na vida depois da morte perpassa a obra do holandês renascentista. Quase como uma banda desenhada ou numa ilustração, dezenas de figurinhas reunem-se entre a terra, o céu, o ar e a água. Não se detenha a questionar-se como raio pensou ele nisto e aproveite os mundos infinitos que este trítico aberto tem para dar.

 

Custódia de Belém

Custódia de Belém

Pede que se gire à volta dela e sempre de boca aberta. A custódia de Belém é atribuída ao dramaturgo Gil Vicente e foi tecida – pelo trabalho do ouro quase se pode usar este verbo – no reinado de D. Manuel I. Em torno da caixa onde habitaria a hóstia estão os 12 apóstolos, cada um minuciosamente distinto, o que se nota logo no pormenor dos pés e na maneira como assentam todos diferentes no chão. Esta obra de ourivesaria portuguesa mostra a arquitectura gótica em ponto pequeno e tem a sua propaganda nas esferas armilares que unem aqui o mundo terreno e divino.

 

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Saleiro

Saleiro

Artes decorativas? O MNAA diz presente. Não só da idade média, há trabalhos em porcelana, loiças, madeiras e vidros bem mais recentes. Este saleiro vem do distante século XVI e do igualmente distante (pelo menos na época) Benim, onde os trabalhos precisos e criativos em marfim fascinavam os Europeus, que perante isto ousaram pensar que podiam ensinar a estes povos alguma coisa. Na certeza de que em África não havia cultura, trouxeram de lá esta caixinha hoje incompleta, com europeus esculpidos a cavalo e vestes africanas minuciosas, fabricadas na actual Nigéria – tudo isto com um grande sentido de movimento. Este tipo de peças eram facilmente encontradas em Lisboa no Renascimento, na actual Rua da Conceição, como mostrou a exposição temporária Lisboa, Cidade Global no MNAA.

 

Biombos Namban

Biombos Namban

Alguém pediu uma casa tudo-em-dourados. O trabalho em folha de ouro é conjugado com pintura a têmpera. O dourado cria uma atmosfera quase onírica confundindo-se o espaço da rua e do território com o das nuvens. Para além deste lado maravilhante, os quatro biombos – um dos pares de Kano Naizen, o outro, atribuído a Kano Domi – são um documento histórico no seu conjunto e narram a chegada dos portugueses ao porto de Nagasáqui, em 1543. Os bárbaros do sul – namban jin, como lhes chamavam – têm aos olhos nipónicos narizes compridos e caras afiadas, calças em balão e chapéus altos que quase parecem umas anacrónicas cartolas. É neste momento que começa um importante intercâmbio cultural e comercial para ambas as nações: os portugueses a introduzirem as armas de fogo, a emprestarem palavras da sua língua, a mostrarem os seus avanços na arte de navegar e a fazerem bom negócio ao servir de intermediários para as sedas ou porcelanas chinesas.

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Cadeira de Estado (dita de D. Afonso V)

Cadeira de Estado (dita de D. Afonso V)

Pertenceu a um rei, mas não é bem um trono. É uma peça rara feita em madeira de carvalho, de elevado valor patrimonial, onde se sentava D. Afonso V (1432-1481) para durante a missa rezar junto dos religiosos do convento franciscano de Santo António do Varatojo em Torres Vedras, fundado pelo próprio rei em 1470. D. Afonso V, de cognome O Africano, ficou na história pelo reforço da presença portuguesa no norte de África, mas após uma tentativa falhada de ocupar o trono do reino de Castela, deprimiu e retirou-se para o convento, abdicando favor do filho que viria a ser o rei D. João II.

Relicário da Rainha D. Leonor

Relicário da Rainha D. Leonor

É construído em ouro, tem duas esmeraldas, três rubis e um diamante. Mas o relicário de D. Leonor (1458-1525), prima e esposa do rei D. João II (era sobrinha do rei D. Afonso V), encerra um elemento mais valioso dentro de uma pequena cruz de ouro: um bocadinho do Santo Lenho, ou seja, da cruz onde Jesus foi crucificado. Uma emoção. A peça veio do Mosteiro da Madre de Deus, hoje Museu Nacional do Azulejo, fundado em 1509 por iniciativa da rainha.

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Comentários

1 comments
Cátia M tastemaker

No panorama artístico, português e lisboeta neste caso, é mandatório visitar estas obras no Museu Nacional de Arte Antiga. A minha preferida é mesmo a do Bosch, atenção não é o dos esquentadores, :P mas sim a do pintor, que para a sua época tinha uma visão das coisas muito peculiar, que transmitiu nas suas obras, desde o considerarem herege, a surrealista, são muitas as dúvidas sobre aquilo que Bosch pintou. A versão mais simples e possivelmente mais real, é que o pintor era católico e acima de tudo tinha muito medo da morte, pelo que de forma muito expressiva, pintava estes episódios, de forma dramática e inquietante, como é o caso das Tentações de Santo Antão. Outro das minhas obras de eleição, é a adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, a obra prima do pintor português, que hoje é de todos nós, através de um notável crowdfunding, chegou onde devia, pelo que é obrigatório conhecê-lo. Os painéis de São Vicente de Fora são a cereja no topo do bolo, pelos mais variados motivos, nem que sejam os enigmas implícitos nessas pinturas. Devemos valorizar o que temos por cá, pelo que é um excelente programa este, arme-se em turista e veja de perto estas obras incomparáveis.